03
nov
2017
Crítica: “O Formidável”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

O Formidável (Le Redoutable)

Michel Hazanavicius, 2017
Roteiro: Michel Hazanavicius
Imovision

4

É difícil falar sobre Godard sem falar de linguagem cinematográfica, e o diretor Michel Hazanavicius soube disso ao conceber este O Formidável como um filme que muito mais do que sobre personagens ou trama, funciona como oficina para brincadeiras de linguagem que quase todo diretor tem vontade de fazer, mas dificilmente encontram justificativa para tal.

O filme acompanha Godard e sua esposa Anne Wiazemsky no final dos anos 60 quando o diretor deu uma virada em sua carreira e passou a fazer filmes com cada vez mais teor político e buscou desconstruir todos os padrões possíveis de linguagem tradicional.

A busca por um estilo próprio e a sede por inovações estão presentes desde o primeiro filme de Godard (Acossado, 1960), e por mais que seu extremismo a partir de certo momento da carreira tenha passado a ser mais irritante do que revolucionário, não deixa de ter seu valor. E é justamente este valor que O Formidável busca encontrar.

Em nenhum momento negando a já muito conhecida arrogância de seu protagonista, o filme funciona acima de tudo como um exercício de linguagem, brincando até mesmo com alguns dos artifícios que o próprio Godard utilizava.

Gosto muito, por exemplo, de como o filme brinca com textos, espalhando ao longo da projeção palavras que complementam ou simplesmente comentam o que os personagens dizem ou fazem, e sempre de forma muito inventiva: desde legendas propriamente ditas, até textos escritos nos próprios cenários (há um plano-sequência que acompanha o protagonista andando em frente a muros pichados que é particularmente interessante).

Além disso, a forma curiosa e fascinada com que a câmera observa a personagem de Stacy Martin remete muito ao estilo de Godard, e reflete também a forma como ele próprio a enxergava ou queria enxergar. E por mais que o excesso de nudez gratuita não deixe de ser um artifício um tanto quanto sexista, ao menos o filme admite isso em uma cena que traz os protagonistas nus discutindo justamente sobre a nudez em filmes.

O design de produção também merece créditos por criar um ambiente visual que remete diretamente aos filmes de Godard dos anos 60, cheio de cores vivas (principalmente o vermelho e azul), sendo divertido e significativo ao mesmo tempo.

Em alguns momentos o filme parte para artifícios mais óbvios, como quando um personagem diz que “na vida não há voz em off” apenas para logo em seguida aparecer uma voz em off no próprio filme para explicar algo óbvio. Mas para cada momento desses há outros bem mais sofisticados, como quando os dois personagens principais estão conversando enquanto estão no cinema assistindo A Paixão de Joana d’Arc (um filme mudo), e suas falas combinam com os movimentos dos atores na tela, dando a impressão de que o diálogo está acontecendo com eles.

Tendo também um arco dramático interessante e bem definido, que mostra o declínio do relacionamento dos protagonistas sem nunca perder o foco principal que é na pura linguagem cinematográfica, O Formidável é um filme divertido, que funciona como homenagem a Godard sem precisar sem reverencial.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael