06
nov
2017
Quadrinho e Filme: “V de Vingança”
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Rafael Hires

Alan Moore. O velho bruxo místico barbado que odeia as adaptações de quadrinhos, mas criou personagens icônicos e redefiniu conceitos de quadrinhos. Mesmo ele dizendo que odeia filmes de super-herói, o fato é muitas de suas obras depois foram adaptadas para as telonas. Se as adaptações tem qualidade ou não, isso é discutível. Mas hoje, apresento uma das obras mais famosas do mestre bruxo.

People shouldn’t be afraid of their government, governments should be afraid of their people.

O povo não deve temer o seu Estado, o Estado deve temer o seu povo.

QuadrinhoV de Vingança, de Alan Moore, David Lloyd, Steve Whitaker e Siobhan Dodds. Panini. 306 páginas. Skoob.

Filme: V de Vingança, de James McTeigue. Roteiro de Lilly e Lana Wachowski, Warner Bros. Pictures.

A primeira é a capa da primeira edição do quadrinho, lançado em 1988, a do meio é a capa lançada nas edições mais atuais da Panini e a última, o poster do filme.

Quadrinho

Arte da capa inteira da primeira edição de setembro de 1988.

Mas, antes de falar da obra, é preciso falar da vida deste deveras polêmico escritor. Moore nasceu em 1953. No final dos anos 1960, Moore começou a publicar poesia e ensaios autorais em fanzines, eventualmente montado seu próprio fanzine, Embryo. Por meio dele, Moore se envolveu com o grupo Northampton Arts Lab. Moore começou a traficar LSD na escola, sendo expulso por fazê-lo em 1970. Depois disso, Moore relata que o diretor da escola entrou em contato com vários outros estabelecimentos acadêmicos nos quais se inscreveu e disse a eles que não o aceitassem porque era um perigo para o bem-estar moral do resto dos estudantes, o que possivelmente era verdade.

Por alguns anos, Moore ainda morou na casa de seus pais ao mesmo tempo que passou por diversos empregos, incluindo limpador de banheiros e curtidor de couro. No final de 1973, ele conheceu e iniciou um relacionamento com Phyllis Dixon, com quem ele se mudou para um pequeno flat de um cômodo. Eles se casaram logo em seguida e mudaram-se para uma council house (um tipo de morada construída para suprir falta de lotação). Ao mesmo tempo, Moore estava trabalhando no escritório de um sub-contratante para o conselho de combustível local, mas não estava se sentindo realizado neste trabalho. Decidiu, então, tentar ganhar a vida fazendo algo mais artístico.

Depois de abandonar seu emprego no escritório, ele decidiu, ao invés, escrever e ilustrar seus próprios quadrinhos. Ele já havia produzido algumas tirinhas para diversas revistas e fanzines alternativos, como Anon E. Mouse, para o jornal local Anon, e St. Pancras Panda, uma paródia do personagem Paddington. Seu primeiro trabalho pago foi por alguns desenhos que foram publicado na revista de música NME. Pouco tempo depois, conseguiu publicar uma série sobre um detetive particular conhecido como Roscoe Moscow na revista de música semanal Sounds. Moore publicou a série sob o pseudônimo Curt Vile (um trocadilho com o nome do compositor Kurt Weill), ganhando 35 libras por semana. Paralelo a isso, ele e Phyllis, com sua filha recém-nascida Leah, começaram a receber a jobseeker’s allowance, uma espécie de seguro-desemprego da Inglaterra, para complementar renda.

Pouco tempo depois, em 1979, também começou a publicar uma nova tirinha chamada Maxwell the Magic Cat no jornal Northants Post, sob o pseudônimo Jill de Ray (um trocadilho com o infanticida medieval Gilles de Rais). Ganhando mais 10 libras por semana deste trabalho, ele decidiu sair da seguridade social. Ele continuaria a escrever Maxwell the Magic Cat até 1986. Moore disse que ficaria feliz em continuar as aventuras de Maxwell indefinidamente, mas terminou a tirinha depois que o jornal publicou um editorial negativo acerca do lugar de homossexuais na comunidade. Nesse meio tempo, Moore decidiu se dedicar mais a somente escrever quadrinhos.

No intuito de aprender como escrever um roteiro de sucesso, ele pediu ajuda ao seu amigo Steve Moore, que ele conhecia desde os 14 anos. Interessado em escrever para a 2000 AD, uma das revistas em quadrinhos mais importantes do Reino Unido. Moore enviou um roteiro para Juiz Dredd, uma das séries mais antigas e bem sucedidas da revista. Embora não tivesse necessidade de outro escritor na Juiz Dredd, que estava sendo escrita por John Wagner, Alan Grant, editor da 2000 AD, viu potencial no trabalho dele, chegando a comentar mais tarde que ele era um ótimo escritor, e, ao invés, pediu que escrevesse alguns contos para a série Choques Futuristas.

Apesar dos primeiros contos terem sido rejeitados, Grant aconselhou Moore sobre melhorias. Eventualmente aceitou a primeira história de muitas. Enquanto isso, Moore também havia começado a escrever histórias menores para a revista Doctor Who Weekly. Sobre isso, comentou posteriormente que queria demais um quadrinho regular. Não queria escrever contos, mas não era isso que estava sendo oferecido. Estavam oferecendo de histórias curtas de quatro ou cinco páginas, onde tudo deveria ser feito naquelas cinco páginas.

De 1980 até 1984, Moore trabalhou como escritor freelancer e foi oferecido uma enxurrada de trabalhos de diversas empresas de quadrinhos do Reino Unido, como a Marvel UK e as editoras de 2000 AD e Warrior. Foi uma era na qual os quadrinhos estavam aumentado sua popularidade no Reino Unido. A cena de quadrinhos britânica estava se fortalecendo como nunca antes, e estava claro que o público acompanhava a revista à medida que amadureciam. Quadrinhos não eram mais somente para garotos infantis: adolescentes, mesmo estudantes de ensino médio e universitários também estavam lendo.

O trabalho amplamente considerado como o destaque de sua carreira na 2000 e escrito por ele foi A Balada de Halo Jones. Co-criada com o artista Ian Gibson, a série se passava no século L. Ela foi cancelada antes que todos os episódios fossem escritos. Outra empresa de quadrinho que empregou Moore foi a Marvel UK, que já tinha comprado algumas de suas histórias avulsas. Com o objetivo de atingir um público mais velho que o de 2000, sua principal rival, eles deram a Moore o serviço de escrever o periódico Capitã Britânia no meio de um arco que ele nem começou nem completamente compreendia. Ele substituiu o antigo escritor Dave Thorpe, mas manteve o artista original, Alan Davis.

A terceira empresa de quadrinhos para a qual Moore trabalhou nesse período foi a revista mensal conhecida como Warrior, fundada por Dez Skinn, antigo editor da IPC (editora de 2000 AD) e da Marvel UK. A Warrior foi pensada para oferecer aos escritores um nível maior de liberdade sobre suas criações artísticas do que era permitido em empresas pré-existentes e foi na Warrior que Moore começaria a atingir seu potencial. Inicialmente, foram dados dois quadrinhos a Moore na Warrior: Marvelman (Miracleman) e V de Vingança. Ambos tiveram seu início na primeira edição da Warrior em março de 1982.

Marvelman (mais tarde renomeado Miracleman por razões legais) foi uma série que havia sido publicada, originalmente, no Reino Unido de 1954 até 1963, baseado, em grande parte, no quadrinho americano Capitão Marvel. Ao ressuscitar Marvelman, Moore “pegou um personagem infantil kitsch e colocou-o no mundo real de 1982.” A obra foi desenhada principalmente por Garry Leach e Alan Davis.

O trabalho de Moore na 2000 chamou a atenção de Len Wein, editor da DC Comics na época, que o contratou em 1982 para escrever a revista Saga do Monstro do Pântano, na época um quadrinho de monstro repetitiva e que não vendia bem. Moore, com os artistas Stephen Bissette, Rick Veitch e John Totleben, desconstruiu e reimaginou o personagem, escrevendo uma série de histórias formalmente experimentais que tratavam de questões sociais e ambientais ao lado da fantasia e do horror, animado pela pesquisa acerca da cultura da Luisiana, onde se passavam as histórias. Para Monstro do Pântano, ele reviveu vários dos personagens mágicos e sobrenaturais da DC, incluindo o Espectro, Etrigan, o Vingador Fantasma, Deadman e outros, além de criar John Constantine, um mago de classe operária, cujo visual foi baseado no músico inglês Sting.

Mais tarde, Constantine se tornou o protagonista da série Hellblazer, que se tornou a série mais longa da Vertigo com 300 edições. Moore continuaria a escrever Monstro do Pântano por quase quatro anos, da edição #20 (janeiro de 1984) até a #64 (setembro de 1987). A temporada de Moore em Monstro do Pântano foi bem sucedida tanto crítica quanto comercialmente e inspirou a DC a recrutar escritores europeus e, especialmente, britânicos, como Grant Morrison, Jamie Delano, Peter Milligan e Neil Gaiman, para escrever quadrinhos numa veia similar, geralmente envolvendo recriações radicais de personagens obscuros. Estes títulos serviram de fundação para o que se tornaria a linha Vertigo.

Moore começou a produzir mais histórias para a DC Comics, incluindo uma história de duas partes para a revista Vigilante, que lidou com violência doméstica. Eventualmente, foi-lhe dada a chance de escrever uma história para uma dos super-heróis mais conhecidos da DC, Superman, intitulada Para o Homem que Já Tem Tudo, ilustrada por Dave Gibbons e lançada em 1985. Nesta história, Mulher Maravilha, Batman e Robin visitam o Super em seu aniversário, porém descobrem que ele foi dominado por um organismo alienígena e está alucinando sobre seus mais profundos desejos. Depois desta, Moore escreveu outra história do herói O que Aconteceu com o Homem do Amanhã?, publicada em 1986. Ilustrada por Curt Swan, ela foi criada para ser a última história do Super do Universo DC pré-Crise nas Infinitas Terras.

A série limitada Watchmen, consolidou a reputação de Moore. Imaginando como seria um mundo no qual heróis fantasiados realmente existissem desde os anos 40, Moore e o artista Dave Gibbons criaram um mistério ambientado durante a Guerra Fria, no qual a sombra da guerra nuclear ameaça o mundo. Os heróis que se veem envolvidos nesta crise se dividem em dois grupos: trabalham para o governo dos Estados Unidos ou são foras-da-lei. Todos, contudo, motivam-se ao heroísmo por seus vários traumas psicológicos. Watchmen é não-linear e contada de múltiplos pontos-de-vista, bem como inclui referências internas altamente sofisticadas, ironias e experimentos formais.

É o único quadrinho a ganhar o prêmio Hugo, numa categoria utilizada apenas uma vez, “Best Other Form” (Melhor Outra Mídia). É amplamente reconhecida como o melhor trabalho de Moore e tem sido frequentemente descrita como o melhor quadrinho de todos os tempos já escrito.

Em 1988, foi publicada Batman: A Piada Mortal, escrita por Moore e ilustrada por Brian Bolland. Ela girava em torno do Coringa, que havia escapado do Asilo Arkham e matado diversas pessoas, e os esforços de Batman para pará-lo.

A relação de Moore com a DC Comics havia se deteriorado gradualmente acerca das questões dos direitos de autores e merchandising. Moore e Gibbons não receberam nenhum royalty por um conjunto de insígnias baseado em Watchmen, pois a DC o definiu com o um “item promocional”, e, de acordo com certos relatos, ele e Gibbons ganharam apenas 2% do lucro recebido pela DC de Watchmen. Enquanto isso, um grupo de autores, incluindo Moore, Frank Miller, Marv Wolfman e Howard Chaykin se desligaram da DC por conta de uma proposta de sistema de classificação etária similar ao utilizado em filmes. Depois de completar V de Vingança, que a DC havia começado a publicar, possibilitando a Moore terminar os últimos episódios, em 1989, Moore parou de trabalhar para a DC.

Após abandonar a DC e o mainstream, Moore, com sua esposa Phyllis e sua amante mútua Deborad Delano, começaram sua própria editora, que chamaram de Mad Love. Os trabalhos que publicaram pela Mad se distanciaram dos gêneros de ficção científica e super-heróis que Moore estava acostumado a escrever. Ao invés deles, a editora se focou no realismo, em pessoas comuns e em causas políticas. A primeira publicação da Mad, AARGH, foi uma antologia de trabalhos de diversos autores (incluindo Moore) que desafiaram a então recém introduzida Cláusula 28 do governo de Thatcher, uma lei feita para prevenir conselhos e escolas de promover a homossexualidade.

Nesse meio tempo, Moore começou fazer trabalhos para a revista Taboo, uma pequena antologia de quadrinhos independente editada por seu antigo colaborador Stephen Bissette. O primeiro desses foi Do Inferno, um relato ficcional dos assassinatos de Jack, o Estripador nos anos 1880. Inspirado pelo romance Dirk Gently’s Holistic Detective Agency, de Douglas Adams, Moore raciocinou que para solucionar um crime holisticamente, deve-se solucionar toda a sociedade na qual ele ocorreu.

Do Inferno descreve os assassinatos como uma consequência da política e economia da época. Quase todas as figuras notáveis da época estão conectadas aos eventos de alguma forma, incluindo o “Homem Elefante” Joseph Merrick, Oscar Wilde, o escritor Alce Negro, William Morris, o artista Walter Sickert e Aleister Crowley, que faz uma breve aparição como um jovem rapaz. Ilustrado por Eddie Campbell num estilo caneta-tinteiro, Do Inferno demorou quase dez anos para ser completado, excedendo a duração de Taboo, sendo amplamente elogiado.

A outra série que Moore começou na Taboo foi Lost Girls, a qual ele descreveu como uma obra de “pornografia” inteligente. Ilustrada por Melinda Gebbie, com quem Moore logo começou a se relacionar, a série se passava em 1913, onde Alice, de Alice no País das Maravilhas, Dorothy, de O Mágico de Oz e Wendy Darling, de Peter Pan – todas de classes e idades diferentes – encontram-se num hotel europeu e deleitam-se com histórias de suas aventuras sexuais. Com este trabalho, Moore queria tentar algo inovador nos quadrinhos e acreditava que criar pornografia em quadrinhos era uma maneira de conseguir isso. Assim como em Do Inferno, Lost Girls excedeu a duração de Taboo e outro episódios foram, mais tarde, publicados irregularmente até o trabalho ser terminado em uma edição completa publicada em 2006.

Depois, ele assumiu a série Supremo, de Rob Liefeld, que era sobre um personagem com várias semelhanças ao Superman da DC. Ao invés de enfatizar um realismo aumentando, como havia feito com seus quadrinhos de super-herói anteriores quando os assumiu, Moore fez o oposto e começou a basear a série no Superman da Era de Prata, introduzindo uma super-heroína chamada Suprema, um supercão chamado Radar e um material similar à kryptonita chamado Supremium, retornado à figura original mítica do super-herói americano. Com Moore, Supreme se tornaria um sucesso de crítica e de público, anunciando que ele estava de volta ao mainstream depois de várias anos de ter se exilado por conta própria.

Quando Rob Liefeld, um dos fundadores da Image, se separou da editora e formou sua própria empresa, Awesome Entertainment, ele contratou Moore para criar um novo universo para os personagens que ele havia trazido da Image. Moore começou a escrever quadrinhos para vários destes personagens, como Glory e Youngblood, bem como uma minissérie de três partes chamado Judgment Day para dar uma base para o universo Awesome.

Jim Lee, na época, sócio da Image, ofereceu a Moore seu próprio selo, o qual ficaria sob o controle da companhia de Lee WildStorm Productions. Moore chamou seu selo de America’s Best Comics, juntando vários artistas e escritores para ajudá-lo nesta empreitada. Lee logo vendeu a Wildstorm – incluindo a America’s Best Comics – para a DC. Lee e o editor Scott Dunbier viajaram à Inglaterra para assegurar Moore de que ele não seria afetado pela venda e não teria de lidar com a DC diretamente. Moore decidiu que havia muitas pessoas envolvidas no projeto para desistir dele e, então, a ABC foi lançada no início de 1999.

A primeira série públicada pela ABC foi A Liga Extraordinária, que trazia uma variedade de personagens oriundos de romances de aventura vitorianos, como Allan Quatermain, de H. Rider Haggard; o Homem Invisível, de H.G. Wells; o Capitão Nemo, de Júlio Verne; Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson e Wilhemina Murray, do Drácula, de Bram Stoker. Ilustrado por Kevin O’Neill, o primeiro volume da série colocou a Liga contra o Professor Moriarty dos livros de Sherlock Holmes; o segundo, contra os Marcianos de A Guerra dos Mundos. Um terceiro volume intitulado The Black Dossier se passava nos anos 50. A série foi bem recebida e Moore ficou satisfeito que um público americano estava gostando de algo que ele considerou “perversamente inglês” e também algo que estava inspirando alguns leitores a se interessar pela literatura vitoriana.

Outro trabalho de Moore pela ABC foi Tom Strong, uma série pós-moderna de super-herói, que trazia um herói inspirado em personagens anteriores ao Superman, como Doc Savage e Tarzan. A longevidade induzida por drogas do personagem permitiu a Moore incluir flashbacks para as aventuras de Strong ao longo do século XX, escritas e desenhadas nos estilos dos períodos, como um comentário sobre a história dos quadrinhos e das revistas pulp. O artista principal foi Chris Sprouse. Tom Strong tinha muitas similaridades com o trabalho anterior de Moore em Supreme.

A série Promethea, que contou a história de uma adolescente, Sophie Bangs, que é possúida por uma deusa pagã anciã, a Promethea que dá seu nome ao quadrinho, explorou vários temas ocultistas, em especial a cabala e o conceito de magia. Desenhada por J.H. Williams III, o quadrinho foi descrito como uma declaração pessoal de Moore, sendo uma de suas obras mais pessoais, e uma obra que abarca um 8sistema de crenças, uma cosmologia pessoal.

Agora, que já falamos um pouco sobre extensa obra, falaremos sobre uma das mais influentes graphic novels da história.

V de Vingança é uma série de quadrinhos escrita por Alan Moore e desenhada por David Lloyd. Se passa numa Londres futurista, no ano de 1997. Publicada originalmente em 1982 e 1983 em preto e branco ainda na Warrior, mas só foi finalizada em 1988, quando Moore havia entrado para a DC. A série virou colorida e publicada sob o selo Vertigo.

Na nesta realidade, Londres está sob constante vigilância, onde o governo contra tudo o que é feito por sua população. A mídia é controlada rigorosamente e censurada, se preciso. A policia prende quem tenta desafiar os controladores do governo.

Nos vemos então a história de Evey, uma garota de 16 anos financeiramente desesperada, que acaba se encontrando com os tais “Homens-Dedo”, agentes da policia secreta. Uma figura soturna encapuzada usando uma máscara de porcelana recitando frases de Macbeth, de William Shakespeare aparece e apanha Evey das mãos dos sujeitos. A figura a leva para o alto dos prédios, ao passo em que as casas do Parlamento são destruídas numa implosão e dela saem fogos de artifícios formando um V gigante no céu da cidade.

Enquanto isso, Eric Finch, um veterano detetive que chefia a força policial apelidada de “O Nariz”, começa a  investigar as atividades terroristas de V. Finch geral comunica-se com outros departamentos do grupo chamado de Fogo Nórdico, incluindo “O Dedo” liderado por Derek Almond, “A Boca”, comandada por Roger Dascombe,”A Cabeça”, “A Orelha” sob a tutela de Brian Etheridge e “A Cabeça” comandada por Adam Susan e o recluso líder do governo, que obsessivamente vigia o sistema de computador do governo Destino.

O caso de Finch engrossa quando V abala mentalmente Lewis Prothero, uma personalidade de rádio que faz propaganda do governo; força o suicídio do Bispo Anthony Lilliman, um padre pedófilo e se prepara para matar Dra. Délia Surridge, uma médica pesquisadora que teve uma vez um romance com Eric. Eric, de repente, descobre a conexão entre os três alvos de V: Eles trabalhavam num antigo “campo de reassentamento” da Fogo perto de Larkhill. Nesta mesma noite, V mata Brian e Délia, mas Délia deixa um diário, revelando que V, um antigo detento e vítima  dos cruéis médicos experimentos de Délia, conseguiu destruir e fugir do campo, e agora, está eliminando os antigos oficiais do campo pelo que fizeram com ele. Finch mostra estas descobertas a Adam, que suspeita que sua vingança pode ser um disfarce para V, que, ele suspeita, possa estar planejando um  ataque terrorista ainda maior.

A máscara do protagonista é inspirada no rosto de Guy Fawkes, um dos participantes da chamada Conspiração da Pólvora. A tal Conspiração da Pólvora ou Conspiração da Traição da Pólvora ou Traição Jesuíta foi uma tentativa de assassinato do rei Jamie VI da Escócia e I da Inglaterra, orquestrada por Robert Catesby, na qual, envolvia explodir a Câmara dos Lordes do parlamento inglês, durante a abertura do dia 5 de novembro de 1605,  já que o Rei Jaime iria instituir um governo católico e sua filha Isabel seria a rainha.

Então Catesby, junto com outros 12 envolvidos, incluindo Fawkes, colocariam barris de pólvora durante a madrugada, mas a conspiração foi revelada para as autoridades em uma carta anônima enviada no dia 26 de outubro a Guilherme Parker, 4.º Barão de Monteagle. Durante uma busca na Câmara dos Lordes por volta da meia-noite do dia 4, Fawkes foi descoberto guardando 36 barris de pólvora e preso. A maioria dos conspiradores fugiu de Londres ao descobrirem sobre a revelação da conspiração, tentando encontrar apoio pelo caminho. Vários enfrentaram o Xerife de Worcester e seus homens na Casa Holbeche; no confronto que se seguiu, Catesby foi um dos mortos. Oito dos sobreviventes, incluindo Fawkes, foram julgados em 27 de janeiro de 1606 e condenados a enforcamento, afogamento e esquartejamento. Ainda nos dias de hoje, o rei ou rainha vai até o parlamento, apenas uma vez ao ano para uma sessão especial, sendo mantida a tradição de se revistar os subterrâneos do prédio antes desta sessão.

Foi feita uma rima que diz assim:

“Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder treason and plot;
I know of no reason why the gunpowder treason
Should ever be forgot.”

A adaptação rimada seria assim:

“Lembro, lembro, do 5 de Novembro
A traição e trama da pólvora;
Não sei de razão por que tal acontecido
Deva ser esquecido.”

Ela foi uma das HQs que acabou passando para o selo Vertigo, uma linha editorial da DC Comics que seria mais focada em histórias voltadas ao publico adolescente e adulto. A história é impactante, já que poucas obras faziam duras criticas a sociedade vigente e V, mesmo sendo anárquico, é bastante carismático e muito bem desenvolvido, algo que é muito difícil ser feito em HQs. Além disso, essa HQ vinha na esteira de outros títulos de grande repercussão como O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, que apresenta um Batman envelhecido, mas muito mais casca grossa do que os leitores estavam acostumados, Watchmen, também da autoria de Moore, na qual, retrata os heróis mais “plausíveis”, com dilemas morais a serem enfrentados, problemas cotidianos, etc.

A arte é inacreditável. Lloyd faz um trabalho magistral, com cenas parecendo filmes noir dos anos 30, fazendo uso do jogo de luz e sombra. As cores são vívidas, muito intensas e bem saturadas, nos ambientes noturnos, o uso de paletas mais frias com azul, roxo é muito notável. Algo que pode ser observado desde Watchmen e seguiria a vida de Moore na DC é que artistas usariam sempre paletas bem chamativas e muito intensas, além do uso do preto, ditando a maior parte do quadrinhos, mas que acabou sendo mudado, devido a decisão da DC por deixar mais sépia as cores da reimpressão da HQ A Piada Mortal.

Filme

Multidão numa das cenas mais iconicas do filme.

O filme era para ter sido lançado no dia em que a Conspiração completaria 400 anos, em 2005, mas acabou sendo lançado em 2006. Alguns alegam que o atraso foi por causa da explosão do metrô que ocorrera no dia 7 de julho daquele mesmo ano. As irmãs Wachowski eram fãs da HQ e, em meados dos anos 1990, antes de trabalhar em Matrix, escreveram um projeto de roteiro que acompanhou de perto o romance gráfico. Durante a pós-produção do segundo e do terceiro filmes, elas revisaram o roteiro e ofereceram o cargo de diretor para James McTeigue. Todos os três estavam intrigados com temas da história original e acharam que eles eram relevantes para o atual cenário político internacional. Ao revisitar o roteiro, as Wachowski começaram a fazer revisões para condensar e modernizar a história, ao mesmo tempo em que tentaram preservar a sua integridade e temas.

O filme segue a HQ como uma cartilha. Cada cena, cada enquadramento é quase como uma verdadeira homenagem a HQ. Apesar disso, o filme não consegue dar aquele ar de “estamos todos sofrendo perante um regime totalitário”, não é tão opressor quanto a obra original, que rompeu barreiras e estabeleceu bases novas para se fazer histórias em quadrinhos. Hugo Weaving consegue fazer um V competente, mas nem de longe tão imponente quanto o desenhado por Lloyd. Natalie Portman, apesar de ser uma jornalista, dando algum tipo de background mais sólido para Evey, parece deslocada, já que seu personagem não parece estar ali naquele mundo de V.

Um bom aspecto é as cenas de luta, que usam e abusam da câmera lenta, com direito a V atirando adagas por todos os lados e a explosão do Parlamento é épica e chocante. Se você leu a HQ, existem poucas diferenças pontuais da HQ para a obra cinematográfica. É interessante, mas o diretor não é ousado e não faz experimentações.

Curiosidades

Muitos dos personagens do romance gráfico passaram por mudanças significativas na adaptação cinematográfica. V é caracterizado no filme como um romântico combatente da liberdade que demonstra preocupação com a perda de vidas inocentes. Nos quadrinhos, no entanto, ele é retratado como uma pessoa cruel, disposta a matar qualquer um que fique em seu caminho.

A transformação de Evey Hammond como a protegida de V também é muito mais drástica no romance do que no filme. No início do filme, ela já é uma mulher confiante, com uma pitada de rebeldia; nos quadrinhos ela começa como uma jovem desesperada e insegura que foi forçada à prostituição. A relação de V e Evey, embora não seja tão óbvia nos quadrinhos, termina no filme com promessas de amor. No final do romance gráfico, ela não só realiza os planos de V, assim como ela faz no filme, como também claramente assume a identidade dele.

No filme, o inspetor Finch simpatiza com V, mas no romance gráfico, ele está determinado a pará-lo, ao ponto de tomar LSD para conseguir alcançar o estado de espírito de um criminoso. Gordon, um personagem muito menor em ambas as adaptações, também é drasticamente alterado. No romance, Gordon é um pequeno criminoso que leva Evey em sua casa depois que V a abandona na rua. Os dois compartilham um breve romance antes de Gordon ser morto por uma gangue escocesa. No filme, no entanto, Gordon é um colega de trabalho bem-educado de Evey, que posteriormente revela-se homossexual. Ele é morto pelos Homens-Dedo depois de tornar seu programa de TV uma ferramenta de paródia política e é cobrado publicamente por manter um antigo exemplar do alcorão em sua casa.

O personagem V foi adotado pelo grupo Anonymous , uma legião que se originou em 2003, representando o conceito de muitos usuários de comunidades online existindo simultaneamente como um cérebro global. Na sua forma inicial, o conceito tem sido adotado por uma comunidade online descentralizada, atuando de forma anônima, de maneira coordenada, geralmente em torno de um objetivo livremente combinado entre si e voltado principalmente a favor dos direitos do povo perante seus governantes.

A mascara do tal personagem foi usada em vários protestos, como o contra a Igreja da Cientologia, já que o vídeo de Tom Cruise vazou na internet e a Igreja pediu o bloqueio do vídeo. O grupo organizou ataques hackers e exigiam que o vídeo voltasse para o ar, dizendo que a remoção é uma censura e que a Igreja iria faturar com os fiéis, e que protestos presenciais iriam acontecer nestas igrejas.

No Brasil, em 2013, ocorreu a chamada Revolta dos 20 centavos, que aconteceu pelo aumento de 20 centavos na passagem de ônibus. Eventos presenciais foram organizados e milhares de pessoas foram as ruas, trajando a mascara, e, na maioria das vezes, sendo dispersadas pela policia militar com o uso de bala de borracha e bombas de efeito moral.

Concluindo

A HQ é muito inspiradora e acabou virando símbolo revolucionário para várias pessoas. Ela é uma obras como poucas. Merece ser apreciada, pelo seu teor questionante e reflexivo, já que propõe ao leitor, que não aceite tudo o que falam a você como verdade. Certamente, ainda será usado em várias manifestações, seja de quaisquer caráter. Mas, se tem algo que pode ser dito, sem duvida, é de que influenciou e vai influenciar as pessoas a quererem sair do marasmo e questionar tudo.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.