27
dez
2017
Blade Runner 2049 – O que é ser humano?
Categorias: Especiais • Postado por: João Vitor Moreno

O que mais me encanta neste novo Blade Runner é sua capacidade de ser tão original ao mesmo tempo em que é tão coerente e reverencial ao seu predecessor. Sua trama é completamente diferente de tudo o que vimos no filme anterior, mas em nenhum momento duvidamos de que esteja acontecendo no mesmo universo.

E essa coerência é evocada tanto pela ambientação quanto por suas discussões temáticas.

Adotando uma abordagem muito mais contemplativa do que o esperado em grandes produções hollywoodianas, o diretor Dennis Villeneuve parece sempre estender os planos alguns segundos a mais do que o normal, fazendo com que o espectador possa refletir por si mesmo sobre as discussões propostas e também apreciar a pura beleza plástica do filme.

E quando falamos de beleza plástica, não tem como não admirar as imagens fotografadas pelo sempre excelente Roger Deakins, como os locais banhados em luz amarela e cheios de reflexos d’água. E por mais que não faltem personalidade e criatividade na fotografia, também não falta coerência com o clássico de 82, já que os locais aqui vistos, especialmente as locações urbanas, remetem a um visual tanto futurista quanto noir, com muitas sombras, mas também muitas cores, que contrastam com o ambiente poluído e sujo.

Da mesma forma, a trilha sonora composta por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch adotam ideias marcantes da trilha original, como as notas longas de sintetizadores, que refletem a própria natureza artificial e impessoal daquele universo, sem perder a sensibilidade em momentos pontuais, utilizando a música muito mais como algo evocativo e atmosférico do que para simplesmente comentar o que já estamos vendo.

Há também momentos onde as referências ao Blade Runner clássico podem ser percebidas de formas mais sutis, como na rima visual que envolve uma luta onde eventualmente algum dos personagens atravessa uma parede (em uma coreografia que remete a algumas cenas de ação do original), ou então quando vemos uma cena tensa acompanhada de uma panela fervendo (no filme anterior também havia um momento similar). E o fato de o clímax do filme trazer a água como elemento importante tem ao mesmo tempo um caráter simbólico e reverencial (como não lembrar do famoso monólogo sobre “lágrimas na chuva”?).

E há, é claro, a principal questão temática de Blade Runner: o fato de os replicantes serem muito mais humanos do que os próprios humanos. Aqui, uma das principais personagens humanas, vivida por Robin Wright, é uma figura extremamente fria, que busca a ordem mesmo que por repressão, e parece quase “robótica”. Já os replicantes demostram muito mais humanidade e sentimentos, como o personagem vivido por Dave Bautista, que apenas leva uma vida pacata no campo, ou então na personagem de Ana de Armas, uma espécie de “namorada holográfica”, que é vivida pela atriz com uma doçura encantadora, trazendo apoio emocional ao protagonista que tenta leva a vida com frieza.

Mas a principal questão deste novo filme, e o que o torna tão forte, é sobre a natureza de nossas memórias, e como estas nos definem.

E justamente por sermos muito definidos por coisas que estão no passado, e por essas memórias serem sempre muito subjetivas e “imperfeitas” (nunca vamos nos lembrar de algo exatamente como aconteceu, mas com um filtro subjetivo que se altera com o tempo, acentuando ou excluindo alguns detalhes), até que ponto podemos valorizar apenas o que de fato aconteceu? Já que é a percepção subjetiva dos fatos que ficará na nossa memória e os dará significado.

Da mesma forma, se somos definidos por nossas memórias, se essas memórias não forem “reais” (ou seja, não aconteceram de fato), o que isso significaria para nossa própria existência?

Assim, o filme acaba comentando sobre o que significa “ser humano” de fato.

 Afinal, somos definidos por coisas que são subjetivas por natureza. Então um replicante com memórias implantadas, mas para quem essas memórias são completamente reais, pode não ser tão diferente assim de um ser humano “de verdade”. Principalmente quando consideramos a humanidade de suas ações.

E justamente por ser um filme sobre ideias complexas que podem ser debatidas sem nunca chegar a uma única resposta definitiva Blade Runner se tornou um clássico, e é uma satisfação imensa ver sua continuação tomar o mesmo caminho.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael