24
dez
2017
Crítica: “Detroit em Rebelião”
Categorias: Críticas, Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

Detroit em Rebelião (Detroit)

Kathryn Bigelow, 2017
Roteiro: Mark Boal
Imagem Filmes

4.5

Particularmente, me considero um espectador forte. Não costumo me incomodar no cinema mesmo com cenas de violência mais gráfica ou tortura. Porém, este Detroit em Rebelião, novo trabalho da diretora Kathryn Bigelow, foi um dos casos que eu tive que me render como espectador e torcer para o filme acabar logo não por sua baixa qualidade mas, ao contrário, por sua eficiência.

O filme acompanha os eventos que ocorreram em Detroit em 1967, onde uma operação policial não autorizada deu origem a uma série de protestos violentos, que criaram uma verdadeira zona de guerra na cidade. Mais especificamente, se foca no incidente que ocorreu no Algiers Motel, onde um grupo de policiais torturou física e psicologicamente um grupo de jovens negros, resultando em mortes e depois absolvição para os policiais.

Talvez o mais impressionante no trabalho de Kathryn Bigelow seja evitar o puro maniqueísmo, sem que com isso tenha que “humanizar em excesso” os agressores. E sua já conhecida capacidade de criar tensão e desconforto atingem aqui um novo nível.

Mesmo ao manter a câmera quase sempre em movimento constante, como que sem saber o que vai acontecer em seguida, a diretora consegue evitar com que a mise-en-scène fique muito confusa, com uma montagem muito dinâmica que estabelece os elemento e geografia das cenas sem que com isso precise perder ritmo. E a longa sequência que se passa no motel e acompanha as torturas praticadas pelos policiais merece crédito especial pela coreografia perfeita mesmo em um espaço reduzidíssimo.

O trabalho de som também merece destaque por conseguir incomodar mesmo sem utilizar elementos mais óbvios de trilha sonora e por fazer com que os sons de tiros disparados pelos policiais se destaquem e se diferenciem tanto em meio a todos outros ruídos, acentuando assim o peso daquela ação para os personagens.

Utilizando violência gráfica de forma chocante e às vezes até inesperada, mas sem nunca poder ser acusado de estilização desnecessária, Detroit em Rebelião pode até não ter grandes arcos dramáticos em seus personagens, mas é uma experiência intensa e muitíssimo competente em sua proposta. No fim, incomoda, revolta e frustra, mas paradoxalmente, por sua qualidade técnica, também agrada.

  • Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2017.


Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael