26
dez
2017
Crítica: “Gatos”
Categorias: Críticas • Postado por: Mateus Reginato

Gatos (Kedi)

Ceyda Torun, 2017
Oscilloscope Laboratories

3.5

No Antigo Egito, eram seres sagrados. Para o Budismo, representam espiritualidade, paz e união. Estima-se que mais de 150 mil gatos vivam em Istambul, cidade mais populosa da Turquia. O documentário Gatos (Kedi, no original), segue a rotina de sete gatos das ruas de Istambul: Sari, Duman, Bengü, Aslan Parçasi, Gamsiz, Psikopat e Deniz.

Assim como os humanos, os gatos são diferentes uns dos outros. Têm vidas e hábitos diferentes. Os gatos são os protagonistas, mas o filme vai além deles. A partir da “ótica felina”, a diretora turca Ceyda Torun explora a cultura da cidade e formas de se lidar com o outro. Em Kedi percebemos diversos nuances da cultura de Istambul e a maneira como os moradores da cidade encaram a vida.

A diretora nos convida a enxergar o mundo pelos olhos dos gatos. Em grande parte do filme, a câmera está próxima ao chão, no mesmo plano dos felinos. Às vezes simulando a visão deles ou seguindo-os de perto. O filme nunca coloca os gatos abaixo de nós, humanos, em um plano plongée, por exemplo. Pelo contrário, Kedi chega a fazer uso de planos em contra-mergulho para exaltar os verdadeiros donos da Istambul. O documentário alterna panorâmicas pela cidade, planos abertos mostrando gatos interagindo com o ambiente, planos fechados nas ações dos felinos e os tradicionais planos médios, em entrevistas.

Filmar gatos e criar uma narrativa a partir disso não é uma tarefa fácil. Mas Gatos consegue cumprir essa missão. Destaque para a briga entre dois gatos, ilustrada como em antigos filmes de faroeste. O próprio clássico Três Homens em Conflito, estrelado por Clint Eastwood, é citado durante o filme. A trilha sonora do filme, apesar de repetitiva, ajuda a manter o tom de simplicidade que Kedi leva a Istambul.

Dividindo espaço com os gatos, os humanos próximos aos sete protagonistas do documentário – nunca donos – narram o dia-a-dia dos bichanos. Ao contrário dos gatos, os entrevistados nunca são nomeados durante o filme, ressaltando mais uma vez os personagens principais do filme. Um dos pontos mais interessantes do longa é a diferença na relação homem – animal em Istambul e em outros lugares do mundo. Como Kedi mostra, os gatos não são “propriedade” de alguém nem vivem abandonados às ruas. Os felinos são da cidade. É um dilema, como diz uma das entrevistadas: ao mesmo tempo em que eles não podem mais ficar soltos pela cidade; se ficam em casa, esquecem como é ser um gato.

Em Gatos, Ceyda Torun entrega uma narrativa delicada sobre a relação homem – animal, além de explorar as diferenças entre a cultura de Istambul e de outras partes do mundo. Também sobra tempo para refletirmos sobre o impacto dos espaços urbanos nos animais e no próprio homem, além de levantar questões importantes sobre a domesticação – ou não – de animais. Kedi é sobre liberdade. Apesar de os gatos serem protagonistas, é um filme humano.

Kedi é uma produção original do Youtube Red, versão paga do site de vídeos, e o primeiro longa de Torun. O documentário foi o líder de indicações no Critics Choice Documentary Awards deste ano, com quatro indicações. Melhor Documentário, Melhor Diretor, Melhor Primeiro Documentário e Documentário Inovador, saindo vencedor na categoria Melhor Primeiro Documentário.



Histórias bem contadas possuem a habilidade de criar universos e novos mundos. Seja no cinema ou em livros. Até em músicas e jogos. Minha preferência pela ficção, principalmente terror, vem por admirar a criatividade e a capacidade de escritores, diretores e roteiristas em moldar o sentimento dos espectadores da maneira desejada. Uma boa história sempre começa com uma pergunta. "E se...?".