29
dez
2017
Crítica: “Lady Bird”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Lady Bird

Greta Gerwig, 2017
Roteiro: Greta Gerwig
Universal Pictures

4

A irreverência e constante disposição para rir de si mesmo é o que torna Lady Bird um filme tão adorável. Não trata-se de um filme muito inovador, mas isso não o impede de contar uma história que surpreende pela empatia que evoca para seus personagens.

A trama se passa em 2002 e acompanha uma jovem que está terminando o ensino médio em Sacramento, Califórnia, e quer fazer faculdade em Nova York, contrariando a vontade da mãe. Ao mesmo tempo, passa por descobrimentos da vida adolescente enquanto estuda em uma conservadora escola católica.

A opção de ambientar o filme em um passado relativamente recente pode parecer uma simples afetação, mas se mostra muito mais significativo conforme percebemos suas implicações. Contar uma história de rebeldia juvenil em um dos momentos mais conservadores da história recente de seu país já é algo que por si só tem seu interesse, mas há também uma ironia quase trágica em vermos uma personagem querendo se “libertar” em um país que, hoje sabemos, tinha ainda 6 anos de desastrosa administração Bush.

Isso para não falar, é claro, dos ecos que isso encontra no mundo atual. Se 2002 tinha um país moralista liderado por um governo conservador, 2017 traz… bem, basicamente a mesma coisa. E basta ver a cena em que alguns personagens descobrem e riem de um quadro patriótico particularmente cafona de Ronald Reagan para não restar dúvidas quanto ao comentário “liberal” (no sentido americano) do filme.

Mas é em sua irreverência que Lady Bird encontra sua principal virtude. Não há no filme um “moralismo reverso” ou qualquer lição de moral política. O espectador é capaz de entender por si mesmo.

Dessa forma, resta ao filme se divertir, como ao criar interlúdios musicais com canções pops enquanto acompanha rituais religiosos, ou ao preencher quase todos os cenários com cruzes que não impedem a rebeldia da protagonista.

Uso o termo rebeldia provavelmente de forma inadequada, já que o que há na personagem vivida tão bem pela talentosa Saoirse Ronan (que com 23 anos já se encaminha para sua terceira indicação ao Oscar) não é bem uma rebeldia, ou inconformidade. É apenas uma juventude que aos poucos vai descobrindo como o mundo funciona e como encontrar seu próprio lugar nele. E o olhar sempre curioso e divertido de Ronan comove mais pela inocência do que por uma obstinação.

Refletindo a vontade de sua protagonista de querer buscar coisas novas e sempre estar em movimento em seus frequentes interlúdios musicais acompanhados por imagens em movimento pela janela do carro (que não deixam de ser uma convenção de gênero nesse tipo de filme, mas que funcionam pela eficiência), Lady Bird é um filme difícil de não gostar. Não apenas conta uma história delicada sobre amadurecimento e realizações, como o faz de uma forma simultaneamente tão descontraída e delicada, que ao chegar a seu clímax, surpreende o espectador pelo envolvimento emocional ali investido.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael