22
dez
2017
Crítica: “O Dia Depois”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

O Dia Depois (Geu-hu)

Hong Sang-soo, 2017
Roteiro: Hong Sang-soo
Pandora Filmes

3.5

Diversos cineastas encontram fórmulas que tornam seu modo de produção mais prolífero. E não há dúvidas de que o sul-coreano Hong Sang-soo é um desses. Produzindo constantemente mais de um filme por ano (apenas em 2017 foram três!), o cineasta tem uma fórmula que o permite moldar rapidamente qualquer trama em um formato que inevitavelmente encontrará seu público, especialmente no circuito de festivais.

Não que isso seja um grande problema, já que vários cineastas fizeram carreira trabalhando com fórmulas, e de qualquer jeito, não há como não admirar ao menos a disposição de Sang-soo de finalizar um projeto e já engatar outro na sequência – um processo que inevitavelmente pode se tronar cansativo para qualquer artista.

E aqui em seu mais recente trabalho, O Dia Antes, podemos ver mais uma vez tudo que já havíamos visto em seus últimos milhões de filmes. O que não significa que seja um filme ruim. Ao contrário, eu diria até que se encaixa entre seus melhores.

Falando primeiramente do que já sabemos e esperamos: temos aqui a maioria das cenas sendo filmadas em um único plano, que alterna zooms manuais e movimentos de câmera que tentam dar a impressão de improviso e espontaneidade. Os personagens conversam longamente se repetindo e se estendendo sobre assuntos já abordados por tantos outros filmes.

Porém, há algumas novidades: a que mais chama a atenção, obviamente, é a fotografia em preto e branco. Sendo diferente de todos os últimos trabalhos do diretor, o que por si só já é algo bem-vindo, o preto e branco é perfeito para esta história, uma vez que traz uma tristeza que, equilibrada pela vivacidade dos atores, dá um tom apropriadamente melancólico (sem exageros) à narrativa.

Além do mais, há dois momentos em que o sofrimento de algum personagem é acompanhado por uma trilha musical, que surge de forma quase inesperada, e justamente por conta disso se torna tão eficiente.

Há também alguns enquadramentos que destoam do padrão de Sang-soo, e que são igualmente bem-vindos: gosto principalmente da imagem que traz o protagonista e sua amante em frente a um muro, e outra personagem do lado deles, que não está à frente do muro, ficando deslocada no quadro, e separada (visualmente e emocionalmente) deles.

São momentos pequenos, mas que diferenciam o filme em meio a tantos outros similares feitos pelo mesmo diretor. Particularmente, devo admitir que não sou um dos admiradores da obra de Hong Sang-soo, mas é sempre um pequeno prazer ver um filme que aqui e ali tenta se diferenciar e consegue se comunicar diretamente com o espectador.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael