25
dez
2017
Crítica: “Projeto Flórida”
Categorias: Críticas, Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

Projeto Flórida (The Florida Project)

Sean Baker, 2017
Roteiro: Sean Baker e Chris Bergoch
Diamond Films

4.5

Há na pequena obra de Sean Baker uma preocupação constante com os excluídos e marginalizados, assim como um enorme carinho com seus personagens. Seus filmes mostram o lado obscuro do “American Dream”, mas longe de moralismos, está mais preocupado em encontrar humanidade no dia a dia difícil de quem se submete a humilhações em prol de um sistema falho: a relação quase maternal entre uma atriz pornô e uma senhora de idade é o ponto central de Uma Estranha Amizade, enquanto os pequenos gestos de afeto entre duas amigas transexuais que ganham a vida como prostitutas são o grande diferencial de Tangerina.

E em Projeto Flórida ele segue a mesma linha e realiza seu melhor filme até aqui. O foco agora é na infância, uma menina de uns 7 anos que vive com a jovem mãe em quartos minúsculos em um condomínio nos subúrbios de Orlando.

A ambientação não poderia ser mais significativa: a trama se passa toda quase que literalmente à sombra da Disney, um mundo de sonhos que não pode ser compartilhado pela jovem protagonista.

O filme encontra uma inocência infantil delicada, que cria um contraste dolorido com as dificuldades dos adultos daquele mundo. O visual é colorido, mas melancólico: o roxo berrante do prédio onde vivem os personagens é o oposto da vida destes, e as placas vistas ao longo do filme não deixam de ter sua ironia trágica (“continue no futuro”, diz uma, enquanto outra indica um local chamado “Sete Anões”).

E é nessa ambiguidade entre inocência infantil e fatalismo generalizado que o filme encontra sua força, conseguindo emocionar puramente pela humanidade e carinho com que trata seus personagens, permitindo também momentos quase catárticos, que deixam clara sua visão crítica ao consumismo e ao “American Way”, como na sequência que traz algumas crianças se divertindo destruindo uma casa abandonada, ou na cena final (que, obviamente, não darei detalhes) onde, assim como nos filmes anteriores de Sean Baker, ele encontra uma força dramática enorme e possibilita algo à sua protagonista que nos deixa em um misto de alegria e melancolia.

Contando ainda com uma performance absolutamente fantástica da jovem Brooklynn Prince (de apenas 7 anos!), o filme também encontra momentos de humor muito competentes e diverte com a mesma competência com que emociona.

  • Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2017.


Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael