07
dez
2017
Crítica: “The Crown” – 1ª Temporada
Categorias: Críticas, Séries de TV • Postado por: Pedro Bonavita

The Crown – 1ª Temporada

Peter Morgan, 2016
10 episódios de aprox. 60min
Netflix

4,5

Retratar biografias em produtos audiovisuais talvez seja uma das tarefas mais difíceis e controversas, tanto para roteiristas, quanto para diretores. Imagina então para os atores que precisam interpretar personagens reais, muitas vezes mais celebridades do que eles mesmos. A eterna busca pela verdade muitas vezes podem não funcionar narrativamente e, portanto, é muito natural que ocorram passagens com licença poéticas, que acabam (ou não) incomodando familiares próximos, o próprio público ou então historiadores, como no caso de The Crown, onde uma relativa romantização da história da coroação da Rainha Elizabeth acabou não soando bem aos olhos de alguns profissionais da história, principalmente britânicos. Fato é que, apesar de realmente existir certa romantização em passagens histórias, The Crown ainda assim funciona como um instrumento para conhecermos um pouco mais da personalidade da rainha mais famosa do mundo, sem deixar de lado um estudo da sociedade do século XX.

The Crown, série original da Netflix e vencedora do Globo de Ouro como melhor série dramática em 2017, conta, em sua primeira temporada, a história de Elizabeth Alexandra Mary Windsor desde seu casamento com o príncipe Filipe da Grécia e Dinamarca, até o momento em que se torna a Rainha Elizabeth II do Reino Unido. É interessante perceber o desenvolvimento do roteiro em apresentar e construir cada personagem em tela: a própria Rainha (obviamente), seu marido, seus pais, sua irmã, o amante e futuro marido de sua irmã, e também um dos políticos mais controversos da história daquele reino: Winston Churchill. Aproveitando do formato do seriado, os roteiristas aproveitam para discutir cada personagem com um tempo suficiente para que o espectador consiga pegar empatia com ele, isso é, cada um deles (com exceção da protagonista) tem um tempo de tela maior em um determinado episódio, trazendo histórias paralelas que em nenhum momento faz com que o espectador perca o foco no fio condutor principal.

Dessa maneira, o elenco consegue trabalhar de maneira mais minimalista na construção da personalidade de suas personagens. Nesse sentido destaco três atores: Claire Foy, Matt Smith e John Lithgow. Claire consegue dar vida a uma Elizabeth que te conquista apenas com o olhar, que parece doce na maior parte do tempo, mas que consegue transparecer uma fortaleza quando necessário. E não à toa a atriz foi uma das mais festejadas da temporada de premiação, já que conseguiu além de ter uma semelhança física com a jovem rainha, trazer para a tela também trejeitos muito parecidos com a personagem retratada sem que em nenhum momento sua atuação parecesse uma caricatura da rainha. Matt Smith conseguiu com seu jeito todo desengonçado de ser, trazer verdade ao interpretar o marido da Rainha, trazendo em suas expressões um constante desconforto na posição em que ficou perante uma sociedade machista, que não aceitava tão bem o fato de um homem estar “abaixo” de sua esposa no que diz respeito a sua carreira, ainda que conseguisse transmitir carisma com sua fuga cômica em determinado momento. Mas, quem realmente dá show na tela da Netflix é John Lithgow: dando vida à Churchill, o controverso primeiro-ministro britânico que serve como uma figura parecida com Getúlio Vargas pra gente, já que em toda sua história política podemos listar diversas posições controvérsias em suas atitudes e palavras. Mas o que chamou realmente atenção na interpretação de Lithgow é como conseguiu retratar um Churchill cansado da vida política, já no alto dos seus mais de 80 anos, e é interessante prestar atenção no trabalho corporal do ator, que anda curvado na maior parte do tempo, demonstrando não só o cansaço natural da idade de sua personagem, mas também como carregava nas costas todo o peso de ser o primeiro-ministro britânico em um momento turbulento para o país, enquanto nos momentos de maior triunfo: como por exemplo o casamento da futura rainha ou então quando vence sua eleição, é possível perceber Churchill andando com a postura ereta, mostrando todo o seu ar de superioridade.

The Crown ainda conta com um estudo de sociedade muito interessante, principalmente do ponto de vista da direção, já que a maneira como algumas passagens importantes são dirigidas mostra um certo humor desconfortável que serve como uma severa crítica ao conservadorismo, machismo e imperialismo britânico. Exemplos disso não faltam: o desconforto de Elizabeth em seu casamento, onde precisa repetir os votos ditos pelo padre e como ela evita ao máximo dizer que obedecerá seu marido durante o matrimônio. Nesse momento a fotografia cola a câmera em seu rosto, trazendo ainda mais da interpretação da atriz que chega a tremer em determinado momento, trazendo todo o desconforto da situação, não só dela, como também de seu futuro marido. Ainda durante o casamento, é possível perceber por sons e pela quantidade de figuração o alvoroço que se tem em torno da família real britânica e como de certa maneira essa devoção acabou moldando o conceito de celebridade da atualidade. Já durante a comitiva da (ainda) princesa pelos países representados pelo reino a gente percebe a crítica em torno do imperialismo britânico, principalmente durante a passagem pelo africano Quênia, onde podemos perceber a população local totalmente desconfortável com as vestimentas “reais” da banda que recepciona a comitiva, como a distância mantida pela família real e pela câmera do povo daquele local, sem deixar de lado é claro o humor presente no texto, novamente através do príncipe Filipe, quando ele comenta sobre as vestes tradicionais daquele povoado.

Em termos técnicos, a série não traz nada de muito novo, porém apesar disso tudo funciona muito bem narrativamente: a fotografia é linda e funcional, trazendo tons mais sombrios nos momentos mais densos, principalmente quando se retrata a doença do Rei George, ao tempo em que traz cores vivas e solares nos momentos felizes vividos pela rainha no início de seu casamento. A direção de arte consegue trazer uma ambientação perfeita da época: seja pela decoração das casas, pelos aviões ou simplesmente pelo figurino, traz ainda pequenos detalhes que de tão singelos ficam lindos em tela, como por exemplo, a maneira como a cortina do escritório de George é disposta em formato de coroa. Já a montagem funciona muito bem durante a primeira passagem de tempo, conseguindo intercalar com imagens feitas pela câmera Super 8 que Elizabeth ganha de seu pai, mas o destaque fica para o momento em que George falece, onde a montagem consegue dar uma agilidade que faz com que o espectador fique tenso como as personagens em tela.

The Crown é mais do que um retrato da família britânica inglesa. Serve também como um estudo de sociedade, como o início do Século XX conseguiu moldar o que somos hoje (em termos de sociedade), além de trazer discussões interessantes, como por exemplo, o feminismo (presente na Inglaterra desde as Sufragistas), já que a direção faz questão de mostrar o incômodo de todos os homens com a soberania da Rainha.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.