13
dez
2017
O que Auggie Pullman tem a nos ensinar?
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Matheus Benjamin

Antes de começar esse texto, preciso comentar sobre a minha relação com essa história. Conheci Extraordinário em 2013, logo quando a editora Intrínseca o trouxe para o Brasil. Comprei no lançamento; inclusive, tenho a primeira edição, aquela com a capa branca. Essa edição esgotou e depois a editora trouxe uma versão com capa azul, que em minha humilde opinião não superou a primeira. Lido, emprestado, passado pra frente em forma de presente e depois relido. Geralmente não anseio por adaptações de livros para o cinema, fico o mais distante possível pra não criar expectativas, mas com a trama criada pela R.J. Palacio, de certa forma, houve uma certa comoção. O anúncio do elenco, as imagens divulgadas e o próprio trailer (que eu sempre evito de assistir antes de ver os filmes) caíram no meu colo sem nem me dar conta. Pronto, expectativa criada. Será que foram atendidas?

Livro: Extraordinário, de R.J. Palacio. Intrínseca. 320 páginas. Onde Comprar.

Filme: Extraordinário, por Stephen Chbosky (2017). Roteiro de Steven Conrad, Lionsgate.

O Livro

R.J. Palacio é a progenitora de August Pullman, um garoto que tem por volta de 10 anos e que está prestes a frequentar uma escola pela primeira vez. Palacio utiliza um pequeno grande artifício na trajetória de seu protagonista para discutir temas muito relevantes para todas as faixas etárias. Com uma narrativa fácil e fluida, a autora possivelmente tenta aproximar jovens leitores à sua trama, tão bem construída e desenvolvida. O conflito de Auggie (como é docemente chamado) é sua face. Ele teve de passar por diversas cirurgias quando nascera, para corrigir alguns problemas biológicos. Essas cirurgias o deixaram com cicatrizes e com uma aparência diferente que atrai olhares curiosos e muitas vezes incômodos, o que deixa o garoto inseguro e triste por ser tratado de tal forma.

Na escola, o garoto conhece seus colegas de turma e desenvolve amizade com um deles, mais tarde descobrindo tratar-se de uma farsa (ou não tão assim). À medida que a narrativa avança pode-se perceber o interesse e a curiosidade dos demais, que se entrelaçam à cativante personalidade de Auggie; algo que contagia até mesmo o diretor da escola, o Sr. Buzanfa (sim, esse é o nome dele!). E percebem? Esses também são artifícios bastante consideráveis na escrita de Palacio, que faz cada vez mais a aproximação ao leitor se tornar, assim como a presença de Auggie, algo natural.

O que facilita muito a leitura são os capítulos bem curtinhos e também divididos em pontos de vistas diferentes, um Efeito Rashomon* bastante construtivo na história, que avança de forma bastante crescente. Isso também fornece ao leitor mecanismos consistentes para se conhecer a fundo cada um dos personagens e suas atitudes com suas justificativas; dessa forma, os personagens podem ser perdoados em suas insignificâncias de início para se tornarem atraentes. O desenvolvimento desses personagens é bastante cuidadoso, sobretudo seu protagonista, que tem seus pensamentos transpostos para as páginas. Palacio também é feliz na mudança de tom de seus narradores, que trazem suas pequenas particularidades em palavras. Um bom exemplo, também do uso gráfico, é a narrativa do personagem Justin ser toda em letra minúscula; podendo também evidenciar certos aspectos sentimentais e/ou mentais dele.

As páginas amareladas e a diagramação também contribuem para o bom andamento e conforto visual da leitura. Durante a troca de ponto de vista, há uma página com um desenho do próximo narrador e um preceito que o define; aliás, preceitos são bastante curiosos e dizem muito sobre essa história, afinal de contas, uma das aulas da turma de Auggie é sobre pensar criticamente sobre preceitos, aquelas famigeradas frases que podemos tirar lições e refletir sobre nossos atos. Essa é uma história que, em um primeiro momento, pode ser direcionada para o público infanto-juvenil a julgar pelos seus personagens centrais, mas, no entanto, serve de exemplo para se discutir um tema muito pertinente e sério de nossa convivência em sociedade. Principalmente, porque Extraordinário é uma obra que executa com maestria a questão da alteridade, a questão do olhar para o outro. Cada um de nós, independente de nossa aparência enfrenta um desafio diferente a cada dia. E como diria Auggie Pullman, todos merecem ser aplaudidos de pé pelo menos uma vez na vida, pois todos nós vencemos o mundo.

O Filme

O diretor Stephen Chbosky é famoso pelo livro e filme As Vantagens de Ser Invisível (2012); um livro irregular e um filme considerável. Nesse novo projeto, ele fornece elementos muito consistentes no que tange à sua direção. A partir do roteiro de Steve Conrad, Chbosky desenvolve a narrativa com narrações em off, que contribuem para a fluidez da história. Mesmo que em certos momentos, isso soe redundante, as emoções dos atores em suas performances com seus pensamentos narrados deixam um tom melancólico em cena que favorece à trama. Aliás, o elenco é bastante entrosado, com destaque para Owen Wilson e Julia Roberts, que interpretam os pais de Auggie. É notável ressaltar a expressividade de Roberts na composição de uma mãe delicada e ao mesmo tempo enérgica. Sua preocupação com as mudanças na vida do filho são algo tocante ao espectador, assim como em seus próprios momentos de destaque na tela, como quando está prestes a realizar o seu sonho. Já Wilson desempenha um pai curioso, tímido em alguns momentos, mas bastante brincalhão, contrastando com o tom da mãe, acalentando no que precisa seus filhos.

O arco narrativo de Via dá à sua intérprete Izabela Vidovic elementos bastante interessantes para se trabalhar. A melancolia em suas expressões dá um tom tímido e ao mesmo tempo aconchegante para o espectador. Via é uma menina bastante compreensiva no que diz respeito à sua família. Embora alguns diálogos possam parecer muito redundantes para a trajetória de seu irmão, Auggie, Via tem passagens bastante profundas e cheias de alteridade. E se a família do protagonista, que também inclui uma participação de Sônia Braga, já traz atuações bem construídas, os colegas de Auggie também demostram boas escolhas da equipe de produção. Destaque para Noah Jupe (Jackie) e Bruce Gheisar (Julian), que cativam o espectador mesmo desempenhando antagonistas. Com relação à adaptação, Chbosky peca no desenvolvimento de Summer (Millie Davis) e a cachorrinha Daisy. Suas passagens se tornam vazias, pois suas construções não são elaboradas da maneira correta, embora o diretor opte por fazer planos médios de Summer observando Auggie de longe durante a hora do lanche em diversos momentos. Mesmo com seu pouco tempo reservado de tela, Millie Davis apresenta uma atuação cautelosa e delicada.

E se as atuações e roteiro já são tornam o filme bastante satisfatório, a trilha sonora de Marcelo Zarvos acalenta os personagens em seus momentos mais íntimos, seja aliado ao competente design de produção que remete a diferentes tons azulados para narrar Auggie ou à fotografia que trabalha com diferentes planos abertos estáticos. Em determinados momentos, há também a construção de planos subjetivos que deixam ainda mais próximo do espectador a visão do personagem em questão. É de se ressaltar, também, os elementos visuais utilizados para retratar a imaginação de Auggie. O astronauta que o personagem gostaria de ser está presente em quase todos os momentos da história. Uma das melhores utilizações desse artifício é quando o personagem é reconhecido pelos colegas e um astronauta saltita explodindo felicidade pelos corredores da escola. E, por ser fã Star Wars – puxando mais uma vez a normalidade inerente do protagonista – Chewbacca, um personagem bastante peculiar da franquia, anda de mãos dadas com Auggie em sua imaginação.

Para finalizar, é preciso mencionar a vivência de Jacob Tremblay, que aliado à competente maquiagem, transforma-se em August Pullman, sem qualquer dúvida. A sequência inicial que mostra o personagem pulando na cama com um capacete de astronauta característico já mostra que Tremblay foi a escolha mais acertada que a produção poderia ter dado. E o diretor utiliza esse utilitário de cena com bastante competência, deixando o espectador curioso para quem estivesse por trás desse capacete. E Auggie o utiliza como seu esconderijo, no qual ele está com ele mesmo. Uma característica que evidencia uma porta de entrada para a identificação do público com o seu protagonista, afinal Auggie Pullman nos ensina que todos somos extraordinários e que merecemos respeito, independente de nossas peculiaridades.

*Efeito Rashomon é um efeito cinematográfico criado a partir do filme homônimo de Akira Kurosawa, no qual o cineasta desenvolve uma narrativa repleta de pontos de vista de um mesmo fato, evidenciando a experiência pessoal de cada um.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba" e produzi outros tantos, entre eles "Alice.", pela Pessoas na Van Preta.