13
jan
2018
Crítica: “A Forma da Água”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2018 • Postado por: João Vitor Moreno

A Forma da Água (The Shape of Water)

Guillermo del Toro, 2017
Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor
Fox Film do Brasil

5

Só mesmo uma mente com a de Guillermo del Toro para produzir um filme tão criativo e cativante quanto A Forma da Água, um conto de fadas adultos, mas com magia e encantamento infantis.

Ambientada nos anos 60, durante a Guerra Fria, a trama acompanha uma zeladora muda (Sally Hawkins) que se apaixona por uma criatura aquática que está sendo estudada em segredo pelo governo americano.

O tom de fábula e fantasia pode ser sentido desde os primeiros minutos de projeção nos lindos temas musicais de Alexandre Desplat, e a pretensão adulta também fica clara desde o início quando ao som de melodias fabulescas vemos a protagonista em momentos que jamais estariam presentes em um filme infantil.

E a direção do sempre ótimo Guillermo del Toro conduz o filme de forma tão envolvente que chega a ser comovente. Observe, por exemplo, como a câmera flutua pelos cenários de forma quase apaixonada, remetendo até ao movimento em baixo d’água, conseguindo ser relevante tanto estética quanto tematicamente.

Além disso, ao constantemente criar raccords entre uma cena e outra, o diretor faz o filme fluir de forma impressionante – como quando corta de um timer para um relógio, ou de uma água em um banheiro para um recipiente de água fervendo ovos, ou então quando o som de uma cama balançando aos poucos se transforma em outro tipo de ruído que se mantém constante na cena seguinte.

E ao “ligar” as cenas umas nas outras, del Toro também encontra espaço para encaixar um humor negro discreto, como quando uma personagem está segurando um saco de papel com dedos decepados dentro, e um segundo depois está com uma embalagem bastante semelhante despejando cereais em uma tigela.

O design de produção é fantástico, conseguindo criar um interessante contraste entre as locações sujas do laboratório, onde tudo parece úmido e ameaçador, e os outros cenários que são sempre muito bem decorados com uma ambientação anos 60 que parece coisa de propaganda. Mas mesmo nos cenários mais hostis o filme não se esquece das cores, o que impede a narrativa de se tornar muito desconfortável, e até mesmo as cenas mais incômodas ganham um toque envolvente.

E nesse sentido os figurinos também merecem destaque, já que além da reconstrução de época, ajudam a contar a história ao mudar as cores das roupas da protagonista conforme ela vai se apaixonando e se entregando ao seu amor: enquanto no início ela veste roupas verdes e frias, aos poucos passa a ostentar acessórios vermelhos (uma cor constantemente ligada à ideia de paixão) até seu figurino ser completamente tomado por essa cor.

O elenco também não fica nem um pouco para trás. Sally Hawkins conduz o filme sem dizer uma única palavra, cativando pelo olhar inocente, mas sempre sugerindo uma malícia não muito abaixo da superfície. Michael Shannon, que é um dos meus atores preferidos, aqui oferece mais uma atuação visceral, sem medo de excessos, divertindo e assustando justamente por causa disso. Já Richard Jenkins vive uma das figuras mais complexas do roteiro, transmitindo vulnerabilidade e humor muito mais por sutilezas. E mesmo Octavia Spencer, uma atriz que costuma não me agradar muito pelo excesso de maneirismos, aqui funciona muito bem tanto como alívio cômico quanto pela sua amizade tão sincera com a protagonista.

Contando também com um excelente trabalho de maquiagem na criação da criatura marinha, e um trabalho corporal expressivo do sempre competente Doug Jones, A Forma da Água é um filme apaixonante. É inocente sem ser inconsequente, tem uma complexidade adulta ao mesmo tempo em que se baseia em um encantamento infantil. E não tem vergonha de ser do jeito que é, emocionando tanto justamente por ser tão honesto.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael