04
jan
2018
Crítica: “Artista do Desastre”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Artista do Desastre (The Disaster Artist)

James Franco, 2017
Roteiro: Michael H. Weber e Scott Neustadter
Warner Bros.

4

O filme The Room, de 2003, é popularmente conhecido como o pior filme da história do cinema. É claro que essa afirmação é impossível de considerar como definitiva, porém, não há como negar que trata-se de um filme pavorosamente ruim em absolutamente todos os seus aspectos.

Curiosamente, também é um filme que ganhou status de cult com o tempo e até hoje é apreciado como pura comédia, embora seus propósitos sejam dramáticos.

Mas há um motivo maior para a fama desse filme. Não é apenas porque é um filme ruim que acidentalmente é engraçado, mas sim porque é inegável sua ingenuidade, o que de certa forma é um pouco… diria até tocante.

Não é um filme picareta, que insulta a inteligência do espectador, ou que incomode pela “ruindade”. É um filme que realmente acredita no que está fazendo, e o fato de fazê-lo tão mal, paradoxalmente o torna interessante.

Não digo que seja um filme bom! Acho que ninguém em sã consciência e que tenha o mínimo de experiência cinematográfica poderia afirmar isso. Porém, há no filme uma inocência que o torna tão engraçado que é compreensível que se mantenha popular 15 anos depois de sua estreia.

Mas o que nos interessa aqui é o novo trabalho dirigido por James Franco, Artista do Desastre, que conta a história da produção de The Room.

E este, ao contrário do longa que o inspirou, é um ótimo filme.

O roteiro escrito por Michael H. Weber e Scott Neustadter, baseado no livro de Greg Sestero e Tom Bissell tem alguns artifícios mais óbvios e algumas imperfeições: a relação do personagem de Dave Franco com sua namorada é retratada de forma vaga e pouco convincente, mas naquele que é seu foco principal o texto se sai muito bem.

E esse foco é a amizade entre Greg Sestero (Dave Franco) e Tommy Wiseau (James Franco), que foi o responsável por escrever, produzir (com dinheiro do próprio bolso), dirigir e estrelar The Room.

Mas talvez o que torna Artista do Desastre um filme tão eficiente seja sua inocência e sensibilidade ao retratar seus personagens, especialmente o próprio Tommy Wiseau. Assim como The Room é um filme que é interessante pela ingenuidade, aqui James Franco não está interessado em ridiculariza-lo, nem tampouco defende-lo (isso seria impossível). O que importa para ele é humanizar seu personagem, que apesar de ser uma figura excêntrica, não deixa de ser um ser humano.

Não que o filme não tenha humor. Na realidade, este é uma de suas maiores forças. E curiosamente, o humor vem muitas vezes da própria inocência de Tommy. Por mais que o filme não seja completamente ingênuo em seu retrato (fica claro, por exemplo, como ele agia de forma egoísta com os membros da equipe, chegando até a humilhar sua colega de elenco durante uma cena), também consegue se divertir com a excentricidade de seu personagem resgatando o humor do filme original de forma deliberada.

E como não se divertir e se importar com uma pessoa que quando uma mulher mais velha questiona sua idade dizendo ironicamente que ela “acabou de completar 14 anos”, responde com um simples “feliz aniversário”? Ou então que decide batizar um de seus personagens como Mark em homenagem à “Mark Damon”, de O Talentoso Ripley?

Além disso, a sensibilidade de James Franco com a figura que está retratando fica também clara na trilha sonora instrumental, que longe de ser uma trilha engraçada de comédia, constantemente traz melodias melancólicas, que comentam as decepções de seu personagem, sem que precise perder o humor para isso.

E nesse sentido, a atuação de James Franco também é fundamental, já que além do timing cômico impecável e da impressionante imitação dos trejeitos e sotaque de Tommy Wiseau (e quem está com The Room mais fresco na memória certamente irá se divertir ainda mais), consegue inserir humanidade ao personagem sem que para isso precise perder sua excentricidade. E a dinâmica criada entre ele e o personagem vivido por Dave Franco é tão eficiente que confesso que me emocionei em um momento específico do terceiro ato que traz à tona a amizade dos dois.

Comentando a própria sede de seus personagens de fazer cinema na forma apaixonada e envolve com que conduz sua narrativa, Artista do Desastre é tanto uma comédia eficiente quanto um filme humano sobre sonhos, amizade e cinema. Consegue divertir por sua inocência e, ao contrário do filme que o inspirou, também por sua qualidade.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael