02
jan
2018
Crítica: “Bright”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Bright

David Ayer, 2017
Roteiro: Max Landis
Netflix

2.5

O choque entre duas visões distintas que dificilmente são relacionadas poderia ser um problema crucial para Bright. Ironicamente, esta é uma de suas principais qualidades, o que não apaga seus outros inúmeros defeitos.

O que o filme tem de melhor é sua imaginação em criar um universo que por juntar duas visões já tão conhecidas acaba se tornando original. O exercício inventivo que o filme faz é imaginar como seria se um mundo medial fantástico evoluísse (assim como o mundo medieval “real”) para a civilização que conhecemos hoje. Por consequência, temos um mundo violento, desigual, divido por raças onde, por exemplo, elfos são ricos e poderosos e os orcs são marginalizados.

As implicações alegóricas e o comentário social do filme são inegáveis até por sua sinopse, e o filme acompanha uma dupla de policiais formada por um humano (Will Smith) e um orc (Joel Edgerton), que acabam tendo que proteger uma varinha mágica que desperta sentimentos maniqueístas em todos que a cercam.

Um orc policial renegado por sua tribo se une o um humano e um elfo para proteger uma varinha e fugir de um grupo misterioso com motivações místicas – há nessa ideia uma tolice inegável. O que não é necessariamente um problema! Há grandes filmes que não se levam a sério e possuem ideias completamente “bobas”.

Os melhores momentos do filme são seus minutos iniciais, enquanto somos apresentados àquele universo, que é interessante mesmo possuindo duas visões um tanto quanto conflitantes: enquanto a abordagem do diretor David Ayer, experiente em filmes policiais, puxa o filme para um lado mais sujo, rápido, e enérgico, há claramente elementos que evocam uma aura mais mística, deslumbrante, e fantasiosa. Porém, a graça de tudo está justamente nesse conflito, e por isso o começo do filme é tão eficiente, pois não precisamos nos preocupar com a história ou os personagens e podemos apreciar apenas a peculiaridade daquele universo paralelo. Sem contar que há um valor irônico e divertido em ver imagens como um orc em um uniforme policial, ou então elfos dirigindo carros de luxo – ao pegar criaturas que estamos acostumados a ver em um ambiente medieval e transportá-las para um mundo “atual”, o filme ganha uma excentricidade interessante.

Porém, não tem como dizer que tudo se encaixa no universo do filme. O conflito de filme policial com filme de fantasia pode ser interessante, mas o mesmo não se aplica às conotações religiosas presentes ao longo da narrativa, que além de destoarem do restante do filme, pecam pela obviedade e por parecerem realmente acreditar que são sutis.

Além do nome do personagem orc (Jackoby, uma clara referência ao nome bíblico Jacob – ou, em português, Jacó), as várias referências ao longo do filme sobre coisas acontecidas “há 2.000 anos”, ou então a promessa de um salvador que voltará… tudo é muito óbvio, e não se encaixa no filme.

Isso para não falar dos artifícios mais absurdos de roteiro, que são igualmente preguiçosos e implausíveis: como quando o personagem de Joel Edgerton, em um momento crucial, reencontra um personagem que havia ajudado completamente por acaso anteriormente, ou então a “pista” ridiculamente óbvia de quando dois personagens estão conversando sobre os “brights” e um diz algo como “mas podem existir um bright humano!” e o outro diz “é muito raro!”, e o diálogo acaba aí e qualquer um que tenha o mínimo de experiência cinematográfica já sabe o que eventualmente o filme revelará, e o fato de o roteiro trazer essa relação em um ponto tão importante e como algo supostamente inesperado, só prova como subestima a capacidade do espectador.

Mas talvez uma das maiores fraquezas do filme seja algo que pode ser atribuída a seu diretor (que já fez bons filmes ao longo de sua carreira, como Marcados Para Morrer e Corações de Ferro, além de ter roteirizado Dia de Treinamento), que é a falta de humanidade com seus personagens secundários. Há alguns momentos mais sensíveis no filme (principalmente envolvendo o personagem vivido por Joel Edgerton, como comentarei no parágrafo seguinte), mas me espanta a incapacidade do diretor de apresentar e conduzir personagens que além de tudo são importantes para a história. E me surpreendi quando percebi em certo momento que já estava acompanhando uma nova personagem na trama (personagem que de certa forma é o título do filme!) sem que o diretor tivesse reservado um único plano de mais de 5 segundos para simplesmente mostrar a personagem em tela! Sempre que a vemos são em momentos fragmentados e somados ao grande número de sequências de ação onde os personagens quase ficam em segundo plano, temos então uma personagem fundamental que pela displicência do diretor é incapaz de gerar empatia.

Por outro lado, o filme é muito beneficiado por ter um ator tão competente quanto Joel Edgerton, que mesmo sob uma pesada maquiagem que o torna praticamente irreconhecível, consegue apenas com o olhar projetar uma vulnerabilidade tocante, adicionando humanidade a um personagem que poderia ser apenas uma figura visualmente interessante. Sem contar que um filme protagonizado por Will Smith sempre vai ter pelo menos uma dose de carisma, o que também é importante.

Tendo sua principal força em seus minutos iniciais e em seu universo peculiar e original, Bright acaba falhando por focar em uma aura religiosa que não condiz com suas outras virtudes. Tendo também um roteiro mal estruturado e sendo compensado um pouco pela sua excelência técnica (tanto na maquiagem quanto no design de produção – gosto principalmente das imagens que acompanham os créditos iniciais), como um todo é um filme bastante decepcionante, embora não totalmente descartável.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael