07
jan
2018
Crítica: “Eu, Tonya”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Eu, Tonya (I, Tonya)

Craig Gillespie, 2017
Roteiro: Steven Rogers
California Filmes

4

Uma das grandes vantagens do cinema é sua capacidade de evocar determinados sentimentos contando histórias que se vividas na “vida real” provocariam sentimentos quase opostos. É possível, por exemplo, se divertir com a violência na tela mesmo abominando-a fora dela. Não se trata de glamourizar o repulsivo (embora essa questão possa gerar discussões interessantes), mas compreender que o cinema em si vai além dos fatos que está retratando, sendo algo que tem um enorme valor por si próprio.

Onde quero chegar com isso é que este Eu, Tonya poderia ser encarado, em uma visão superficial, como algo de mau gosto. O roteiro conta a história real da patinadora Tonya Harding, que foi condenada por supostamente ter planejado um ataque contra uma adversária de competição. E ao longo do filme, que em nenhum momento deixa de ter um enorme valor de entretenimento, vemos acontecimentos repulsivos que envolvem, dentre outras coisas, violência doméstica, tanto física quanto psicológica.

Porque este é um filme que confia na capacidade do espectador de julgar o que está vendo. E qualquer um com um olhar minimamente perspicaz entenderá que na realidade há na narrativa uma visão extremamente crítica sobre a hipocrisia do “sonho americano”, o que pode ser observada, por exemplo, na ironia de trazer um pôster do presidente Ronald Reagan em um dos cenários. Aliás, é curioso perceber que este é o segundo filme da temporada (o outro foi Lady Bird) a ironizar sutilmente o moralismo do ex-presidente americano – possivelmente já um reflexo de como a desconfiança sobre o atual presidente está influenciando as produções cinematográficas.

Mas além dos comentários políticos (que também ficam claros no diálogo da protagonista com um dos jurados de uma competição), o principal tema deste filme é o próprio cinema.

Adotando uma abordagem estilizada, que dificilmente pode ser classificada como “realista” (embora a história real tenha sua dose de absurdo) o roteiro brinca com a sua própria subjetividade ao conduzir a trama, e adota uma postura quase metalinguística em alguns momentos.

Dessa forma, em certo momento vemos uma personagem comentando que “está ficando de lado na história”, ou então outro em que a protagonista quase pede ao espectador permissão para divagar e contar um acontecimento paralelo. E com pontuais quebras da quarta parede (quando um ator olha para câmera e conversa com a plateia), o filme se diverte ao contar uma história que por não ser 100% esclarecida, precisa naturalmente adotar um ponto de vista limitado. Então quando a personagem vivida por Margot Robbie faz algo em cena e olha para nós e diz “eu nunca fiz isso”, não sabemos no que acreditar. E parte da diversão está justamente nisso.

E se cito Margot Robbie também não posso deixar de elogiar sua atuação que se equilibra muito bem entre a sátira e o drama, seu olhar sugerindo ao mesmo tempo certa ingenuidade e insanidade, mas também uma dor humana por suas decepções. Outra que também merece destaque é Allison Janney, que nunca cai no puro caricatural, sem perder a excentricidade.

Mas é na direção de Craig Gillespie que o filme se torna tão envolvente. Adotando uma abordagem que remete diretamente ao do mestre Scorsese (especialmente no fantástico Os Bons Companheiros), em diversos momentos vemos a câmera se mover rapidamente em direção ao rosto de algum ator, se mantendo em quase constante movimento sem perder seu significado, demonstrando também uma sensibilidade particular na escolha de canções para a trilha sonora. E, além disso, sua opção de brincar com a luz vermelha para sugerir o “inferno espiritual” de seus personagens (reparem nos encontros com o guarda costa que acarretará em um crime) não poderia ser mais “Scorsesiano”.

Tendo uma visão política crítica e consciente, mas sem nunca perder seu alto valor de entretenimento, Eu, Tonya é um ótimo filme, que além das excelentes atuações, envolve pelo puro valor cinematográfico de sua narrativa. É, acima de tudo, um filme de cinema.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael