20
jan
2018
Crítica: “Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2018 • Postado por: João Vitor Moreno

Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi (Mudbound)

Dee Rees, 2017
Roteiro: Dee Rees e Virgil Williams
Diamond Films

4

Mudbound é um filme contido, contemplativo, às vezes até um pouco devagar demais. É também um filme sobre guerra, História, e personagens. Encontra alguns tropeços pelo seu caminho, e em alguns momentos parece tender para um maniqueísmo excessivo, mas acaba contando sua história com uma fluidez interessante, e alcança um nível de “choque” muito alto em seu clímax justamente por ser tão contido durante boa parte do tempo.

O roteiro segue uma família branca de americanos no sul dos Estados Unidos antes, durante, e depois da Segunda Guerra Mundial, e também suas relações com uma família negra que mora na região e o racismo recorrente dessa parte do país.

A direção de Dee Rees toma algumas decisões interessantes, que se baseiam muitas vezes em algum contraste para alcançar seu objetivo: como ao manter quase sempre a câmera inquieta, com leves movimentos, ao mesmo tempo em que seus atores se movem de forma bem lenta e calculada.

O roteiro, escrito pela própria diretora em parceria com Virgil Williams, combina múltiplas narrações em off para dar voz a vários personagens, inclusive os que são mais introspectivos. Adotando com isso uma abordagem bem mais contemplativa do que focada na ação, o filme consegue falar muito sobre guerra, e seus efeitos no psicológico individual e coletivo, mesmo tendo poucas cenas que se passam realmente no campo de batalha.

Optando também por evitar grandes momentos catárticos, o filme flui em uma série de eventos mais cotidianos, que mesmo às vezes se mostrando um pouco arrastados, conseguem convergir para um clímax que, aí sim focado mais no exagero (mas muito crível e real), choca muito mais por ter sido precedido por uma narrativa calcada no sutil.

Mas também há problemas no roteiro, especialmente na falta de um protagonista que seja essencialmente a figura central dos acontecimentos. Por mais que não faltem personagens interessantes e complexos, na ausência de um protagonista com mais tempo de tela, falta ao filme um coração mais pulsante. A personagem de Carey Mulligan, por exemplo, em alguns momentos parece desempenhar essa função, mas fica deixada de lado por boa parte da projeção, e uma de suas principais características humanas (seu gosto pela música) também é negligenciada e apenas citada em poucos momentos pontuais.

Contando também com um excelente trabalho técnico, Mudbound tem uma belíssima fotografia, assinada por Rachel Morrison (também responsável pelo excelente Fruitvale Station), que constantemente aposta em luz de velas para dar um tom amarelado ao filme, e também uma delicada trilha sonora composta por Tamar-kali, que opta pela discrição, com belos temas curtos tocados em cordas.

Impressionando pela parte técnica e pela força de sua trama e personagens, Mudbound é um ótimo filme apesar de seus eventuais deslizes. Consegue contar uma história sobre seu país, seus indivíduos, sobre suas feridas e seus preconceitos. É um filme grandioso mesmo que sutil, que não desaba sob o peso de sua grande ambição.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael