12
jan
2018
Crítica: “O Destino de Uma Nação”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2018 • Postado por: João Vitor Moreno

O Destino de Uma Nação (Darkest Hour)

Joe Wright, 2017
Roteiro: Anthony McCarten
Universal Pictures

3

O Destino de Uma Nação é uma espécie de desafio cinéfilo. É ao mesmo tempo um filme eficiente, mas também uma experiência incômoda. Saber até que ponto esse incômodo é proposital e conseguir aproveitar as virtudes em meio a uma narrativa bastante densa e aborrecida é o que determina sua qualidade.

O roteiro escrito por Anthony McCarten (A Teoria de Tudo) acompanha o primeiro ministro britânico Winston Churchill durante um período da Segunda Guerra Mundial, focando principalmente em sua manobra de retirada das tropas aliadas da praia de Dunquerque, que salvou milhares de soldados.

Este é um filme sobre política, muito mais do que um filme político. Não que isso seja um demérito, é claro, mas há uma diferença considerável.

A direção do britânico Joe Wright (do ótimo Desejo e Reparação) é uma incógnita. Por um lado, conduz com segurança uma narrativa densa, muito baseada em longos diálogos sobre assuntos não tão interessantes, por outro, parece errar a mão em seus artifícios para criar identidade.

A opção de em vários momentos trazer planos aéreos, com a câmera virada em 90 graus completos, é interessante por assumir o ponto de vista de Churchill, que em uma posição de poder observa tudo “de cima”. E ao filmar o próprio personagem em alguns momentos sob esse mesmo ponto de vista mostra que o filme tenta vê-lo da forma como ele vê o mundo, o que é interessante.

Além disso, há momentos onde as composições de quadros são empolgantes pelo puro valor estético, como nas cenas passadas no parlamento com dezenas de figurantes em movimento.

Porém, o excesso de planos fechados durante toda a projeção pode até ser eficiente para passar a pressão e a urgência experimentada pelo personagem e pelo próprio país, mas inevitavelmente fica cansativo e repetitivo, prejudicando a própria proposta do filme quando tenta incluir alívios cômicos e discursos marcantes.

A fotografia do ótimo Bruno Delbonnel também tem seus momentos inspirados, tanto quando aposta em recursos mais comuns, como mergulhar um personagem em luz vermelha para criar tensão, quanto em ideias mais sofisticadas, como no belíssimo quadro que traz a secretária de Churchill digitando em uma máquina de escrever iluminada por uma luz quente de uma sala, ao mesmo tempo em que o próprio Churchill está atrás dela iluminado por uma luz mais fria que vem de fora do aposento.

Já o roteiro desliza ao negligenciar a personagem da secretária, que a princípio parece que seria o principal ponto de identificação para o espectador, mas durante boa parte do filme é apenas uma mera coadjuvante, além de ter alguns momentos particularmente cafonas como no monólogo que diz que “o Novo Mundo irá salvar o Velho” (quase parafraseando a mesma falha do recente Dunkirk), onde parece que só está preocupado em agradar o público americano para a temporada de premiações, e também na cena chave onde Churchill anda de metrô pela primeira vez e tem contato direto com seu povo, em um momento que mesmo bem executado não deixa de soar implausível e óbvio.

E se o trabalho de maquiagem merece aplausos por se mostrar impecável mesmo quando os atores estão em primeiríssimo plano, Gary Oldman não deixa o visual fazer seu trabalho sozinho, já que impressiona tanto pela segurança com que conduz longos monólogos que poderiam facilmente soar artificiais, quanto também pela postura física expressiva e pelos tiques imitados do personagem real, como o movimento rápido com os lábios quando não está falando. A minha única ressalva ao trabalho de Oldman é que apesar de tecnicamente impressionante, é uma performance que justamente pelo excesso de caracterização e tiques, somados ao fato de o filme ser filmado boa parte em planos fechados, acaba por gerar um incômodo crescente que parece ultrapassar a proposta da narrativa.

Tendo também uma ótima trilha sonora, que se equilibra bem entre o grandioso e o discreto, sendo eficiente mesmo sem chamar muito a atenção para si, O Destino de Uma Nação não é um filme com um grau alto de entretenimento, na realidade é uma experiência bastante incômoda e desconfortável. Parte disso se deve a suas virtudes, e outra parte a seus defeitos.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael