11
jan
2018
Crítica: “The Square – A Arte da Discórdia”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2018 • Postado por: Pedro Bonavita

The Square – A Arte da Discórdia (The Square)

Ruben Östlund, 2017
Roteiro: Ruben Östlund
Pandora Filmes

4.5

Arte; 1. aplicação do saber à obtenção de resultados práticos, sobretudo quando aliado ao engenho; habilidade; 2. ofício que exige e passagem por uma aprendizagem; 3. conjunto das técnicas para produzir algo; técnica especial; 4. expressão de um ideal estético através de uma atividade criativa; 5. conjunto das atividades humanas que visam essa expressão; 6. criação de obras artísticas; 7. conjunto das obras de um determinado período ou lugar; 8. capacidade; dom; jeito; 9. artimanha; astúcia. Segundo o dicionário, os significados de arte são esses. Mas vou além, é muito complicado você dar significado a algo que soa tão subjetivo. Em 2017 as redes sociais e rodas de conversas no Brasil foram inundadas por uma discussão repleta de argumentos rasos do que seria arte. Do que pode/deve ser considerado arte. Acredito que arte é toda e qualquer expressão de um ideal. Confunde-se quem pensa em arte apenas como algo belo aos olhos. O que incomoda também é arte. O feio é arte. Beleza e arte não são sinônimos. Engana-se também o outro lado, que acredita ser arte somente aquilo que te faz pensar. Se um dos propósitos de uma expressão artística é esse, não é o único. Arte é arte. Ponto. No novo longa do diretor sueco Ruben Östlund – e que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2017 – existe essa discussão, levando em consideração a arte contemporânea, que acaba sendo uma das formas artísticas que mais incomodam/causam estranheza na sociedade atual, fazendo-me refletir que sempre foi assim. Em todas as eras a arte já foi contemporânea, e em todas as eras a arte incomodou.

Christian (Claes Bang) é o recém-empossado curador chefe de um dos principais museus de Estocolmo e tem como seu primeiro desafio promover a exposição de uma obra de arte de uma artista argentina. Enquanto precisa lidar com a pressão profissional, Christian é vítima de um assalto que lhe roubam sua carteira e celular; se envolve em um relacionamento casual com a jornalista Anne (Elizabeth Moss) e se vê perdido ao ter que resolver tudo isso e ainda lidar com conflitos internos de sua personalidade.

O roteiro, também escrito por Ruben é hábil ao apresentar a personagem e desenvolver sua história e personalidade durante os 142 minutos de exibição. Assim como em seu filme anterior, o maravilhoso Força Maior, o sueco consegue trazer para a tela, através de seu texto ou de sua direção, o riso causado pelo desconforto. E é notável como ele consegue êxito em sua narrativa através da construção de personagem do seu protagonista. Logo nos primeiros minutos de projeção, Christian nos é apresentado como uma pessoa que ao mesmo tempo em que é egocêntrica, não consegue lidar muito bem com situações cotidianas do cargo que ocupa, por exemplo, ao estar desconfortável ao conceber uma entrevista, ou então quando está ensaiando as falas para um discurso sobre a exposição que está organizando. Então, ao incluir em seu protagonista tais características, alguns elementos de sua narrativa se tornam orgânicos ao mesmo tempo que passam a incomodar ainda mais o olhar do espectador.

Momentos de incômodo não faltam, seja pelos tempos dados pela montagem, onde silêncios são constantes e é interessante perceber como nesses momentos ações podem acontecer ao fundo, ou então elementos que soam estranhos ao ambiente são colocados, por exemplo, um macaco ao lado da personagem de Moss enquanto essa tenta contato telefônico com Christian ou então um bebê chorando durante uma reunião importante no museu. Mas os momentos que me chamaram mais a atenção na construção narrativa do longa foram aqueles em que há uma crítica social ferrenha, já que constantemente, nas sequências ambientadas em locais externos os personagens e figurantes cruzam com mendigos que pedem ajuda, ou então, naquele momento antes dele ser assaltado, onde uma pessoa pergunta a quem passa na rua se eles querem salvar uma vida.

The Square é o nome da obra de arte em que Christian trabalha no lançamento. Trata-se de um quadrado com as bordas iluminadas, dentro desse quadrado as pessoas devem se tratar de maneira igualitária, um ajudar o outro e principalmente um respeitar o outro. E aqui é mais um ponto onde o desenvolvimento brilhante de personagem está presente, já que Claes Bang cria um Christian egocêntrico (e a fotografia ajuda e muito ao centralizar ele em praticamente todos os takes em que aparece), pensando no poder como um dos seus trunfos e que pode usufruir dele pra conquistas amorosas, por exemplo, mas que ao mesmo tempo soa extremamente sincero ao defender a mesma causa que a artista responsável pelo “quadrado” defende. Sua atuação que consegue ser explosiva nos momentos corretos, ao mesmo tempo em que é minimalista durante grande parte da projeção é um dos destaques da temporada. Já Elizabeth Moss merecia mais reconhecimento por esse trabalho, já que ela funciona como mais um alívio cômico da trama e protagoniza uma das minhas sequências favoritas do longa, onde mais uma vez o sueco decide ir pelo caminho do riso incômodo quando ele podia escolher pelo lado sensual da transa. E, se durante a transa a gente sai da nossa zona de conforto com a câmera balançando constantemente, o diretor logo quebra essa sensação ao nos colocar diante de uma discussão de quem vai jogar a camisinha usada fora.

Se The Square – A Arte da Discórdia tem em sua temática uma discussão interessante sobre a arte, o que mais chama a atenção é a discussão sobre o ser humano. Em determinado momento o espectador chega a acreditar que o longa fala sobre a hipocrisia humana, no final fica totalmente claro que o plot principal é discutir as atitudes do homem em situações extremas (já havia discutido isso em seu longa anterior), como por exemplo, na sequência em que um artista incomoda os convidados ao interpretar um macaco e como tudo se desenrola dali em diante; e a nossa constante evolução e como devemos sempre enfrentar os nossos conflitos internos. Então, se em um primeiro momento o que incomoda Christian é o fato dele ter sido assaltado e descobrir que seus pertences estão em um bairro de classe mais pobre, é emocionante acompanhar a personagem chegando a conclusão de que o incomoda é o preconceito que ele tem e que acreditava não ter. Essa é nossa luta diária. Enfrentar nossos conflitos e tentar, sempre, evoluir como seres humanos.

Saio da sessão extremamente incomodado, principalmente pelas risadas que dei. Mas com a certeza de que o diretor atingiu o seu objetivo. Fil-ma-ço.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.