03
jan
2018
Crítica: “Três Anúncios Para um Crime”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Martin McDonagh, 2017
Roteiro: Martin McDonagh
Fox Film do Brasil

4.5

Alguns filmes desafiam o espectador de tal forma que é quase impossível rotulá-los sob qualquer definição pré-estabelecida. Três Anúncios Para um Crime pode ser uma comédia, mas também um drama, e também um filme sobre o próprio cinema. Ao mesmo tempo, é também um filme de roteiro, mas também de direção, e sem dúvidas também um filme de atores. É, enfim, um filme original dos mais raros.

A trama se inicia quando uma mãe (Frances McDormand) que teve sua filha estuprada e assassinada decide alugar três outdoors para cobrar justiça do xerife local (Woody Harrelson). A partir daí, uma série de eventos se desenrola, e falar sobre eles seria tirar parte da graça do filme.

Uma das coisas que mais me surpreende sobre Três Anúncios Para um Crime é que não se trata de um filme sobre heróis e vilões (e se essa parece uma afirmação clichê, que poderia se aplicar a inúmeras outras obras, garanto que você me entenderá quando assistir ao filme). Em seu início pode parecer que se trata de uma história de injustiça, sobre uma mulher que teve sua vida destruída tentando conseguir justiça em um sistema falho e corrupto. Porém, não demora para o filme humanizar a figura do xerife e retratar ações questionáveis de sua protagonista, e aos poucos percebemos que as ambições do roteiro são muito maiores do que um simples drama de certo e errado.

E se consigo identificar uma mensagem mais ou menos clara ao longo da narrativa é sobre como o ódio apenas alimenta um ciclo vicioso e prejudicial.

Mas há também o humor. E que humor! Este é um filme com senso de humor sujo, que incomoda com a mesma facilidade com que faz rir. Não acho que dê para classificar como “humor negro”, aliás, não acho que dê para classificar de forma alguma. Na verdade, acima de tudo é um humor politicamente incorreto. O verdadeiro humor politicamente incorreto. Não aquele que é usado como desculpa para preconceitos, e sim o que usa de piadas que podem ser consideradas de “mau gosto” para criticar algo maior.

Um pequeno exemplo: em certo momento a personagem de Frances McDormand diz para o policial vivido por Sam Rockwell algo como “então você tortura pretos (niggers)?” e ele responde “atualmente é tortura de pessoas de cor”. É uma piada politicamente incorreta sobre politicamente correto, e é fácil classifica-la como de mau gosto, porém, não é uma piada que ri do oprimido, e sim que usa o “choque” (por falta de palavra melhor) para rir do opressor.

Outra coisa que é curiosa e divertida no filme, ainda que bem discreta e talvez até passe despercebida por alguns, é sua metalinguagem (quando o filme comenta sobre sua própria existência). Gosto principalmente de dois momentos: um é quando um personagem está assistindo a um filme em casa (presumivelmente Inverno de Sangue em Veneza) e comenta com sua mãe sobre como a morte de uma filha sempre é usada como motivação em filmes, sendo que ele próprio está em um filme onde isso é uma das motivações da protagonista; e o outro, mais sutil, é quando uma repórter diz o título o original do filme (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) e diz algo como “será esse o fim desse caso?”, e é logo interrompida pela protagonista que no meio de uma série de palavrões lhe diz que aquele não era o fim – o que é irônico se considerarmos que essa cena está em um ponto onde seria possível presumir que o filme estava acabando, mas alguns eventos levam ainda a pelo menos meia hora de projeção.

E além disso, há diversos outros momentos de piadas inesperadas e por isso mesmo tão eficientes, como quando um personagem diz que “agora vai ajudar as pessoas” e logo em seguida espanca brutalmente um rapaz, ou então quando acompanhamos a leitura de uma carta sobre como o “ódio não resolve nada” ao mesmo tempo em que vemos alguém… bem, fazendo algo movido pelo ódio (para evitar spoilers…).

E esse tipo de riso desajeitado e quase culpado em alguns momentos é um toque que acompanha toda a narrativa. Mas isso não significa que não haja humanidade, e isso também é surpreendente no filme.

Repare, por exemplo, como a trilha sonora evoca uma melancolia mesmo quando a ação não parece explicitá-la, ou então como em diversos momentos mais intimistas o tempo está completamente nublado e a fotografia fica consideravelmente mais pálida e sem cores.

E é para essa humanidade tão fundamental ao filme que os atores se mostram tão eficazes. Frances McDormand vive a protagonista com tal entrega que apenas seu rosto marcado já passa toda sua dor e desesperança enquanto seu olhar perspicaz e às vezes até um pouco indeciso sugerem tanto um sarcasmo que é crucial ao filme quanto um toque de malícia e “vilania” que dentro da narrativa é divertida. Já Woody Harrelson pode viver sua tão conhecida persona cinematográfica, como um xerife durão com senso de humor, mas que também é capaz de fazer o espectador se importar com seus conflitos pessoais. E além de participações pequenas e marcantes dos sempre ótimos Peter Dinklage, Lucas Hedges, John Hawkes e Abbie Cornish, fechando o elenco principal temos o também sempre excelente Sam Rockwell que vive um personagem que nas mãos de outro ator poderia facilmente se tornar desagradável, mas que com ele tem um toque desajeitado que confere certa vulnerabilidade que é fundamental para abrir um pequeno espaço para o espectador se identificar (pelo menos um pouco, a princípio) com suas ações, mesmo que seja responsável por atos repulsivos ao longo na trama.

Mas mesmo com atos repulsivos de quase todos os personagens, Três Anúncios Para um Crime não é um daqueles filmes sobre como a humanidade está perdida e ninguém presta. Tampouco é um drama otimista sobre redenção, mas encontra seu lugar em algum ponto do meio do caminho que não sei se sou capaz de identificar – o que não diminui (ao contrário!) minha admiração por ele.

E ao mesmo tempo em que o roteiro, com seu senso de humor e visão tão única sobre seus personagens, e também os atores, tão competentes vivendo essas figuras tão marcantes, que parecem ser o foco do filme, não tem como deixar de lado a excelente direção de Martin McDonagh, que mesmo deixando de lado todas as qualidades que eu já citei, eu não poderia deixar de me encantar com momentos que encontram sua eficiência pela qualidade puramente cinematográfica: como nas ótimas cenas que envolvem fogo (mais uma vez, não darei detalhes para evitar spoilers) ou então no fabuloso plano-sequência (um take sem cortes onde há mudanças de cenários) que acompanha um personagem em um longo trajeto onde no meio há violência extrema e efeitos visuais práticos fascinantes.

E se ao longo do texto usei tantos adjetivos diferentes para tentar, apenas tentar, decifrar o filme, é porque ele realmente tem algo de especial. Não sei dizer em que lugar se encontra sua maior força, mas sei que no meio de tanta coisa tão eficiente, é possível enxergar um grande filme.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico. "Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito" - Pauline Kael