08
jan
2018
Crítica: “Viva – A Vida é uma Festa”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2018 • Postado por: Pedro Bonavita

Viva – A Vida é uma Festa (Coco)

Lee Unkrich e Adrian Molina, 2017
Roteiro: Adrian Molina
Disney/Pixar

5

Dia 2 de novembro no Brasil é um feriado que costuma ter uma áurea completamente fúnebre, já que é “Dia de Finados”, aquela data em que muitos vão aos cemitérios chorar (mais uma vez) a partida de seus entes mais queridos. No México a data é conhecida como “Dia de Los Muertos”, onde seguindo a tradição dos índios do local a população não chora àqueles que já partiram e sim os honram de maneira que se torna uma das datas mais festivas da região. Na tradição mexicana os vivos deixam oferendas para os mortos, celebram sua memória, afim de que eles tenham uma ótima vida pós-morte, acredita-se também que nessa data o espírito dos falecidos vem buscar as oferendas, deixando não só a data como festiva, mas também como uma festa para se curtir em família.

Viva – A Vida é uma Festa, o mais novo filme da Disney/Pixar usa a data que se festeja os que se foram como pano de fundo para a história de Miguel, um garoto de 12 anos que sonha em ser músico em uma família de sapateiros que proíbe todos os membros de pensar/ouvir/tocar música. Sonhando também em participar do concurso de calouros de sua pequena cidade, Miguel foge de casa, rouba o instrumento de seu ídolo, o cantor falecido Ernesto de La Cruz e acaba sendo transportado para o mundo dos mortos.

O roteiro escrito pelo estreante Adrian Molina, que divide a direção com o experiente Lee Unkrich (responsável pelo maravilhoso Toy Story 3) é muito bem desenvolvido em tela, trazendo a construção de personagens e narrativa no tempo certo, dando espaço ainda para um daqueles famosos “plot twist”, mas o mais interessante no roteiro é a maneira como ele consegue tratar de um tema tão forte como a morte de uma maneira lúdica e leve, muito por conta do tom didático que existe no começo da animação, que faz com que aqueles que ainda não estão familiarizados com aquela cultura se contextualizem e dessa forma o longa deixa de ser para um nicho específico, o tornando universal, assim como a música.

Trazendo em seu tema central um assunto mais “adulto”, é importante perceber como a direção faz questão de ao mesmo tempo em que deixa uma mensagem interessante para os mais velhos, consiga também ludibriar os mais novos com piadas visuais que soam completamente críveis dentro daquele universo. Então, por exemplo, quando Miguel é transportado para o mundo dos mortos, o movimento de câmera da sequência consegue gerar inquietação pelo sentimento de Miguel, ao mesmo tempo em que as caveiras retratadas de maneira divertida trazem um alívio para a cena, deixando claro o recado que o filme quer passar, de que a vida tem que ser celebrada, mesmo quando morto. E nada disso seria possível se não fosse a fotografia belíssima do longa. É impressionante o cuidado técnico do estúdio e seus diretores. O trabalho de Matt Aspbury e Danielle Feinberg, diretores de fotografia, tem destaque desde os minutos iniciais, quando somos apresentados à história da família do nosso protagonista através das bandeirinhas, que mudam de cor conforme a história vai andando, chegando ao frio cinzento do tempo chuvoso no seu momento mais triste. Ainda sobre a fotografia do longa, é interessante perceber o tom sépia que tem nos flashbacks e impressiona os takes aéreos que mostram a cidade dos mortos, principalmente aqueles que mostram o contraste da parte rica e da periferia do local, assim como do estádio lotado à espera do show de La Cruz.

Mas é impossível falar de A Vida é uma Festa sem citar seu belíssimo design de produção. Impecável como sempre a Pixar mostra porque é o estúdio mais famoso de animação do mundo. Os detalhes são tão incríveis que chegam a parecer real em 99% das vezes. A modelagem dos personagens é espetacular, exemplos não faltam: o rosto da bisavó Inês (Coco no original) com todas as marcas da vida que levou, as rugas de seu rosto tão reais que chegam a ser palpáveis. A certeza de qualidade é tão grande, que os diretores não se envergonham de por algumas vezes mostrar o personagem central mostrando sua covinha apenas de um lado do rosto para firmar o talento daqueles que fazem a modelagem. Impressiona também o detalhe da criação dos cenários, não só pelas casas típicas de um vilarejo mexicano, mas também pelo contraste perfeito que existe do mundo real para o mundo dos mortos: se ambos são coloridos, o primeiro é completamente realista ao mostrar pinturas gastas, pedras irregulares no chão e toda a ambientação da praça central, enquanto o segundo, completamente lúdico mais parece uma cidade futurista, onde as formas não precisam respeitar completamente a geometria e tão pouco a geografia.

É interessante perceber ainda como o filme faz questão de retratar a questão da desigualdade. Infelizmente nosso planeta vive um problema gravíssimo (desde sempre) de distribuição de renda que faz com que alguns ganhem muito mais do que outros e que esses outros que ganham muito menos que todo mundo sejam “condenados” a uma vida sub-humana, não tendo muitas vezes condições básicas de se viver. Como retratar isso no mundo dos mortos? Partindo do pressuposto que após a morte você não precisa mais de dinheiro, a desigualdade que rola naquela lúdica e colorida cidade é uma área quase monocromática onde vivem aqueles que estão sendo esquecidos pelos vivos e que portanto não conseguem fazer a travessia para pegar suas oferendas, que são a forma de se decorar aquele universo. E com isso o longa passa uma mensagem muito bonita e que de certa forma foi retratada em Extraordinário recentemente, onde o pequeno Auggie diz que todo mundo merece ser aplaudido de pé uma vez na vida. Aqui em Viva a mensagem é de que ninguém merece ser esquecido.

Trazendo ainda uma trilha sonora muito gostosa de se ouvir, principalmente pelo acréscimo de instrumentos típicos do México, ícones da cultura pop local como as lutas de mascarados e Frida (e é engraçado a piada que se faz de que ela está presente em todas suas obras e como ela domina parte da cultura pop mundial, atualmente) e também um recado de que os animais são nossos guias espirituais e que portanto merecem todo nosso carinho, Viva – A Vida é uma Festa é uma ode à vida. É um dos filmes do ano e não choca absolutamente ninguém.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.