01
mar
2018
Crítica: “A Maldição da Casa Winchester”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

A Maldição da Casa
Winchester (Winchester)

Michael Spierig e
Peter Spierig, 2018
Roteiro:
Tom Vaughn, Michael Spierig e Peter Spierig
Paris Filmes

1.5

Não sei se muitos de vocês conhecem a lenda por trás dos rifles Winchester, então lhes apresentarei. No ano de 1862, uma mulher chamada Sarah Pardee se casa com William Wirt Winchester, dono da fábrica de rifles. William desenvolveu um rifle que, na época, foi considerado o mais rápido de todos e a família rapidamente prosperou.

Então, o casal teve uma menininha, chamada Anne, mas a criança acabou falecendo pouco tempo depois. Sarah entra em depressão e fica inconsolável por 10 longos anos. Para piorar ainda mais a situação, no dia 7 de março de 1881, seu marido William morre, vitima de tuberculose. Sarah volta para o seu estado de depressão.

Pouco tempo depois, ela começa a ouvir gritos ensurdecedores, barulhos e batidas pela casa e isso ocorre durante vários dias. Agora, desesperada, Sarah busca ajuda de uma médium que disse que William estava ali e com uma mensagem. Todos os espíritos da casa a rodeavam, vagando perdidos ao seu redor e com ódio mortal. E segundo William, essas almas teriam sido responsáveis pela sua morte e pela morte da pequena Anne. Ele aconselha que ela se mude a fim de evitar uma morte premeditada.

A médium diz que William a guiaria, indicando a melhor casa a ser comprada. Sarah chega a San José e vê uma casa de 6 cômodos ainda em construção e a compra e então começa seu martírio. Quartos e cômodos eram construídos e destruídos a torto e a direita; construía escadas, que, por muitas vezes, davam acesso a nenhum lugar; portas para vãos vazios, quartos com passagens secretas; armários que quando abertos, mostravam paredes, labirintos e outras peculiaridades.

Tudo era feito para despistar os espíritos ruins que ali adentrassem e as obras não cessavam. Os trabalhadores se revezavam 24h por dia para que se ouvisse os martelos e ferramentas. Sarah nunca tinha um projeto ou planta, pois isso poderia alertar os espíritos. O chefe de obras chegava pela manhã e Sarah dava as instruções do que queria naquele momento, sendo que no dia seguinte, ela poderia demolir o que fora feito no dia anterior e reconstruir de outra forma. Foi construída uma sala chamada de quarto azul, onde ninguém jamais entrou, enquanto Sarah ainda era viva. Somente ela entrava ali, para suas sessões espíritas e reza a lenda que o quarto foi construído como uma passagem para o outro mundo, e ali ela recebia os espíritos durante as sessões.

Aquela altura, a casa já tinha sete andares, inúmeros cômodos, várias lareiras e incontáveis janelas, quando em 1906, um terremoto destruiu parte da casa e jogou os três últimos andares no chão. Os cômodos destruídos foram selados e novos quartos foram construídos ao redor deles, isso porque ela acreditava que os espíritos que ali estavam no momento do terremoto ficariam aprisionados para sempre. Mas as obras não cessaram. Por 36 anos, inúmeros carpinteiros e trabalhadores construíam, aumentaram, destruíram e reconstruíram até em 1922, depois de uma sessão espírita no quarto azul, Sarah foi dormir e morreu durante o sono aos 83 anos de idade, deixando uma casa com aproximadamente 160 cômodos, 47 lareiras, mais de 10.000 janelas, incontáveis escadas e portas e finalmente, as obras foram encerradas.

Algum tempo depois, um grupo de investidores comprou a casa, pois queriam torná-la uma atração turística. A casa hoje é aberta a visitações, existe até um site com inúmeras informações sobre o local. Na primeira contagem dentro da casa, divulgaram que ela possuía 148 cômodos. Mas já em uma segunda contagem, o número foi para 160. A cada contagem se chegava a um número diferente. Era impossível saber o número de cômodos que a casa possuía. O lugar era tão confuso e tão cheio de labirintos que os trabalhadores demoraram mais de 6 semanas para retirar a mobília da casa. Hoje ela é registrada como a maior casa da Califórnia, com número desconhecido de cômodos. Contudo, ainda hoje, visitantes e funcionários afirmam ouvir vozes e presenciar aparições estranhas dentro da casa. Isso pode indicar que os espíritos não cessaram totalmente.

E é nessa lenda que o filme se baseia. A sobrinha de Sarah (Helen Mirren) chama um psiquiatra (Jason Clarke) que pede a ele que faça um diagnostico que possa dizer se ela está lucida ou não. Inicialmente, o psiquiatra é mostrado como um alcoólatra e mulherengo (que novidade), mas logo começa a se inteirar dos problemas que rondam a casa.

A primeira vez que vemos Sarah em cena dá um ar promissor em relação a trama, mas logo essa presença é ofuscada perante a quantidade absurda e injustificável de jump-scares, desde os mais ridículos e óbvios até os mais despropositados e sem graça. O suspense tenta se construir, mas toda vez, ele é descartado e o espectador fica descrente com o que é apresentado.

Helen Mirren é uma mulher muito talentosa, visto que seu papel em A Rainha lhe rendeu seu (até agora) único Oscar, interpretando a monarca Elizabeth II em uma atuação magistral. Porém, aqui ela parece muito distante da produção e sua personagem parece um elemento a par, que não se justifica perante os acontecimentos do filme. Jason Clarke não é um dos meus atores favoritos, e inicialmente é difícil de simpatizar com o sujeito. Mas a gota d’água acontece quando vemos que ele será o responsável por ser alvo da maioria dos jump-scares, seja indo a lugares que não deveria, investigando os sons bizarros (já virou clichê).

O design de produção é bem competente, consegue fazer uma representação até bem fiel a casa. As vestes de Sarah oferecem um clima gótico, fantasmagórico, maldito muito similar a velha senhora de Sobrenatural. Os quartos são cheios de detalhes, peças, armários e outras decorações opulentas. Mas, infelizmente, nem todos os adereços são bem trabalhados. As vestes de Eric são pouco detalhadas e não mudam nem um fio, só em cenas mais bruscas é que vemos a poeira invadir o tecido.

O som segue a fórmula já batida da maioria dos filmes de terror: inicialmente, a música começa baixa e quando o susto acontece, a trilha sobe a fim de estourar os tímpanos e pegar o espectador desprevenido. Mas não adianta: os sustos não causam o impacto desejado.

Os empregados da família atuam no modo robô: ninguém questiona nada, ninguém fala quase nada, todos são gratos demais e quando vemos um único arriscando a falar mais que a maioria, sabemos de cara que este sujeitinho será mais um do endiabrado grupo de espíritos que vem atormentar a família. Um dos empregados que, teoricamente, até tinha relevância e decide se armar, logo perde sua importância e morre da forma mais ridícula e forçada de todas. Tá difícil de te defender, hein, filme!

A Maldição da Casa Winchester se mostra como sendo apenas mais um filme de casa mal assombrada como a maioria deste subgênero é. Apesar de contar com pessoas até bem conceituadas no quesito atuação, nenhum deles fica na média. Com uma direção completamente monótona, sustos a dar e vender fraquíssimos e uma trama que não empolga, isso o torna tão interessante quanto Amityville – O Despertar, filme horroroso caça-níquel da pior categoria da palavra, mas não tão desastroso quanto Amityville, onde ali nada se salva.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.