22
mar
2018
Crítica: “Círculo de Fogo”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Círculo de Fogo
(Pacific Rim)

Guillermo del Toro, 2013
Roteiro:
Guillermo del Toro e Travis Beacham
Warner Bros. Pictures

3.5

Tokusatsu. Um gênero de filmes e séries que já foi explorado a exaustão pelos nossos queridos amigos nipônicos. Mas você sabe o que quer dizer esse termo? Tokusatsu, traduzido do japonês tokushu kouka satsuei é filme com efeitos especiais.

Por exemplo, existe nas prateleiras de livros, filmes, séries, games e etc, gêneros que os caracterizam (drama, comédia, terror, ficção cientifica, religião, aventura, ação), certo? No Japão, a cartilha é exatamente a mesma, só que aí é que entra o pulo do gato. Lá tem todos esses mesmos gêneros com a adição do tokusatsu.

As primeiras experimentações do gênero aconteceram com o aparecimento do mais famoso monstro do cinema: Godzilla ou Gojira. Depois disso, o que se seguiu foi uma revolução completa.

Novas franquias ou subgêneros começaram a surgir como Kamen Rider, Sentai/Super Sentai, Metal Hero e Ultraman. Kamen Rider são heróis que usam roupas similar a de um inseto e possuem motos.

O Sentai, o gênero mais prolifico de todos, se resume a um grupo de 3 ou mais integrantes em uniformes coloridos que possuem robôs pequenos que se unem para formar um robô ainda maior. Alguns exemplos são Esquadrão Relâmpago Changeman, Comando Estelar FlashmanDefensores da Luz Maskman Power Rangers, criada por Haim Saban.

Metal Hero é um único herói com uma armadura que luta não contra monstros ou aliens, mas contra o cotidiano: crimes, corrupção, etc. Diversos heróis saíram daí como Jaspion, Jiraya, Sharivan, Spielvan, Metalder, Solbrain, Jiban e Esquadrão Especial Winspector.

Por último, mas não menos importante, Ultraman, onde um alien gigantesco toma posse de um corpo humano e combate seres extraterrestres dispostos a destruir nosso planetinha.

Agora, você me pergunta o que tudo isso tem a ver com este filme? Se você acompanhou bem a explicação e já viu uma, algumas ou várias dessas produções, sabe que essa explicação não é por mero acaso.

Círculo de Fogo é uma das maiores homenagens aos tokusatsus de todos os tempos. A trama se inicia sob o ataque intenso de monstros gigantes invadindo nosso mundo, no ano de 2013. No Oceano Pacifico, uma espécie de abertura que leva para uma nova dimensão. Os militares tentam dar cabo das criaturas chamadas de Kaijus, mas nem todo o poderio bélico é suficiente para conter o avanço. Então como ultima resposta, são criados os chamados Jaegers, robôs imensos controlados por uma pessoa, mas que prova ser desafiador demais.

Então um novo modelo, agora com duas pessoas, a fim de balancear o esforço, é colocado e é bem sucedido. Mas quando o monstro acaba por ser mais poderoso que o robô, o projeto Jaeger é colocado em cheque. Agora, passados 12 anos desde o inicio da guerra, a esperança da humanidade é que o muro que está sendo construído consiga impedir o avanço das criaturas. Mas, nem mesmo o tal muro é capaz de tal façanha. Agora Raleigh (Charlie Hunnam), o piloto que há 5 anos levou uma coça federal de um desses monstros terá de voltar a fim de exterminar essa ameaça para sempre.

O roteiro é como se fosse uma espécie de tokusatsu, só que num nível bem menos artificial que a maioria das produções. Ela trata o problema de maneira muito enfática e realista, mas o problema é a questão das tramas paralelas: eles começam a abordar uma espécie de raça que cria os tais monstrengos querendo ser os colonizadores do nosso planeta, mas nós nunca vemos exatamente como são criadas essas aberrações, como elas consegue se auto modificar, tanto que uma das criaturas possui uma espécie de dispositivo PEM, mas nunca é abordado como os monstros sabem que os robôs são constituídos de partes eletrônicas.

Quando as pessoas fazem a chamada neuroconexão, dizem que ambas podem acessar os pensamentos, lembranças do parceiro, mas ninguém coloca isso em questão. Seria interessante ver pessoas argumentando sobre as opiniões divergentes e elas tendo que passar por essas peculiaridades.

Outro problema em relação ao roteiro, é que existem personagens que, aparentemente, tinham uma certa importância, mas são descartados muito rapidamente e nunca mais são mencionados em qualquer outro momento do filme, como as tais equipes campeãs em destruir monstros: todas ou quase todas são destruídas ainda nos primeiros 15 minutos de projeção, fazendo surgir aquele sentimento de que todos são dispensáveis e que ninguém está ali para se fazer importante.

O design de produção tanto das criaturas como dos robôs não existe nada a ser colocado como defeituoso. As criaturas parecem organismos bem vivos, principalmente quando estamos em trechos bem escuros, se olharmos com atenção, vemos luzes por todo o corpo do animal. Os robôs são enormes, corpulentos e possuem peso. As partes onde vemos a cabine de controle parecem iguais a Power Rangers, só que com muito mais tecnologia e refinamento.

A direção de arte conseguiu fazer um ambiente tecnológico muito vivido, cheio de leds e luzes coloridas. As cenas de ação são bem executadas, são mostrados alguns cortes, mas nada que prejudique o andamento da cena e que possa dificultar o entendimento da geografia da mesma.

Nas atuações, o único em que pode se confiar é Idris Elba. Seu Marechal consegue ser um general forte, imponente, um tanto teimoso, mas se faz presente. Fora isso, temos Charlie Day, um fanzoca de monstros que tem delírios de grandeza, já quer tentar se conectar ao cérebro de uma das criaturas e Burn Gorman, outro cientista responsável pela predição dos acontecimentos futuros. Quando ambos estão juntos, é só para motivos cômicos, principalmente com Charlie. Mesmo sendo forçado, é difícil não rir quando estão em cena, seja com as piadas ou pelo humor corporal.

Raleigh é um herói que não consegue empolgar. Ele não possui um carisma que possa o diferenciar, nem mesmo seu trauma emocional é o bastante para torná-lo agradável. Diferentemente de Rinko Kikuchi, que com seu passado sofrido, consegue dar uma camada necessária de tensão inicial para com o soldado, fazendo ela evoluir consideravelmente na trama.

Círculo de Fogo é uma homenagem, honesta, a um dos gêneros mais prolíficos de todos os tempos. Possui vários defeitos em suas subtramas, muitos personagens colocados só para encher linguiça, protagonista nada carismático, secundários responsáveis por ter de carregar o peso do filme inteiro. Poderia ter sido melhor aproveitado se tivesse deixado o cargo de protagonista com o Idris Elba, pois ele se sobressai entre todos os personagens. Possui cenas de ação muito bem feitas, mas nem só de ação, um filme como esses consegue sobreviver.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.