12
abr
2018
Crítica: “Baseado em Fatos Reais”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Baseado em Fatos Reais
(D’après une Histoire Vraie)

Roman Polanski, 2018
Roteiro:
Olivier Assayas e Roman
Polanski
Paris Filmes

1

Quantas vezes nós já vimos ou ouvimos a frase “Baseado em Fatos Reais” usados em algum tipo de obra? Mesmo, na maioria dos casos, sendo usada só pra fins promocionais, muita gente compra essa ideia, não importa qual seja ela. Para fins de concordância linguística: o certo é baseado em fatis. Fatos reais é um pleonasmo tanto quanto “subir pra cima”, “descer pra baixo”, “conclusão final”, etc.

Mas, calma que este não é um desses exemplos. Mas quem dera que fosse. Baseado em Fatos Reais conta a história de Delphine (Emmanuelle Seigner), uma escritora que, recentemente, lançou um best-seller um tanto quanto pessoal. Eis que, ela passa a receber cartas anônimas de pessoas que consideram o seu romance invasivo e expositor. Ao mesmo tempo, ela conhece Elle (Eva Green): uma mulher misteriosa, linda, inteligente, decidida e poderosa.

Nesse momento, Delphine passa por um bloqueio criativo e decide começar a ouvir os relatos de Elle na esperança de que sua chama criativa se acenda.

Devo dizer que Roman Polanski já teve seus dias de vacas gordas, sendo O Bebê de Rosemary uma de suas melhores películas de todos os tempos. Aqui vemos uma espécie de Louca Obsessão só que pouco inspirado, nada angustiante e fácil de esquecer.

Delphine sempre está com uma cara de paisagem, como se o tédio por não ter boas ideias a estivesse correndo e esta fosse a única expressão capaz de ser transmitida por ela. Elle, no entanto, consegue ser um contraponto interessante devido ao seu modo particular de agir e todas as suas tentativas frustradas de levá-la ao limite que Delphine consegue aguentar.

Existe um par romântico para Delphine, mas ele é quase inútil em toda a trama e depois que o vemos no primeiro ato, ele só volta aos cinco minutos finais, o que o torna um personagem facilmente dispensável para o entendimento do todo.

Mas o grande problema é que as tais desavenças são um conflito que tem uma importância só naquele determinado momento e logo depois, as duas estão tomando café e conversando como se fosse as melhores amigas do mundo 3 segundos depois, levando isso a um grave erro de roteiro, onde a consistência se perde já nesse instante.

A trilha sonora faz questão de ressaltar que Elle é misteriosa já na primeira cena e que algo irá se desenvolver. É tão inteligente quanto a redundância de pontuação feita em Baywatch. No resto do filme, não qualquer outro momento em que ela se torne relevante.

A mente de Delphine tem delírios maiores que os de Rosemary, mas lá a subjetividade imperava, a fim de deixar o espectador desamparado e sem respostas. Aqui, a subjetividade dá lugar ás reações exageradas, frias e premeditadas. O espectador não sente o mesmo clima presente em O Bebê. A fórmula de mostrar o conflito ao invés de flertar com o clima de dubiedade é gratuita, desmedida e sem inspiração. Mesmo Elle se esforçando para tentar fazer o clima ficar tenso, a química entre ela e Delphine é fraca, pobre e sem algo mais profundo.

Baseado em Fatos Reais tá longe de ser o melhor de Roman Polanski que já teve sua cota de filmes bons e hoje, só preenche tabela pra continuar ganhando grana e, muito menos, é o melhor filme de pessoas influenciadas por agentes externos. Polanski, se não dá mais, não força a barra.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.