09
abr
2018
Crítica: “Lemony Snicket – Desventuras em Série” (1ª Temporada)
Categorias: Críticas, Séries de TV • Postado por: Rafael Hires

Lemony Snicket –
Desventuras em Série
(Lemony Snicket – A Series
of Unfortunate Events)

Mark Hudis e Barry
Sonnenfeld, 2017
Roteiro:
Daniel Handler, Emily Fox,
Joe Tracz e Tatiana
Suarez-Pico
8 episódios (42-64 min.)
Netflix

3.5

Você conhece Desventuras em Série? Sabe quem realmente é Lemony Snicket? Se você acha que eu estou falando besteira, segura as pontas que eu vou te contar tudo.

Antes de falar da série, acho necessário falar sobre essa série de 13 livros quase desapercebida pela maior parte do público e explicar de onde surgiu essa ideia tão diferente, bizarra e única.

Lemony Snicket é o autor da série, só que este nome é um heterônimo para o criador Daniel Handler. Handler é filho de uma cantora de ópera e um contador. Ele é parente distante de Hugh Walpole. Handler odiava livros que eram excessivamente sentimentais, preferindo escritores como Roald Dahl, criador de A Fantástica Fábrica de Chocolate.

Ele participou do Wesleyan University, onde começou a escrever poesia. Em 1990, ganhou o Prêmio dos Poetas, da Academia dos Poetas Americanos, em seguida, formou-se Wesleyan, em 1992. Logo depois, ele ganhou uma bolsa de estudos e usou o dinheiro do prêmio para financiar seu primeiro romance, “The Basic Eight“. Ele foi um aluno do Coro de São Francisco. Após a faculdade, se mudou para Nova York para trabalhar como um escritor independente e crítico de cinema.

Handler é atualmente casado com Lisa Brown, uma designer gráfica que conheceu na faculdade. Eles têm um filho, Otto, nascido em 2003, e vivem em uma antiga casa vitoriana em São Francisco.

Três de seus romances foram publicados em seu nome. Seu primeiro, “The Basic Eight“, foi rejeitada por muitas editoras por causa de seu tema e tom (uma visão escura da vida de uma menina adolescente). Handler afirma que o romance foi rejeitado 37 vezes antes de finalmente ser publicado. O tom do seu livro serviu como um impulso para as obras de Lemony Snicket.

Snicket é narrador-personagem dessa série de livros, que narra as aventuras de 3 crianças, chamadas de irmãos Baudelaire, que um dia perdem sua casa e seus pais num terrível incêndio, informadas pelo contador da família Sr. Poe. Logo, eles são levados para o seu novo tutor, um primo distante denominado Conde Olaf, um homem cruel que tem, como objetivo principal, roubar a fortuna deixada pela família.

Não conseguindo seu objetivo na primeira tentativa, ele passará a perseguir os órfãos onde quer que eles estejam, sempre trajando disfarces cada vez espalhafatosos e toscos. As crianças são inteligentes e não facilmente influenciáveis como a maioria dos adultos acaba por se tornar. Cada tutor por onde as crianças passam são excêntricos, meio amalucados e um tanto peculiares.

O trio é composto por Violet, a mais velha, uma inventora de mão-cheia e muito talentosa, Klaus, um leitor voraz e Sunny, uma bebê que possui alguns dentes mais afiados sempre dispostos a morder, esmigalhar qualquer coisa. São dotados de humor um tanto negro e piadas ácidas. Enquanto a história vai avançando, eles descobrem que o tal incêndio não foi algo acidental como as autoridades antes presumiam e que seus pais escondiam segredos deveras intrigantes.

Em 2004, a série recebeu uma adaptação para os cinemas intitulada Desventuras em Série. A trama conta a história dos 3 primeiros livros, mas sua força-motriz é o primeiro livro, onde o final de ambos é similar, havendo algumas adaptações. No elenco, havia grandes nomes como Jim Carrey, Emily Browning, Jude Law, Timothy Spall e Meryl Streep. Devido ás criticas mistas e uma bilheteria nada animadora, os projetos foram cancelados.

Eis que a dona de tudo e todos surpreende em 2016 anunciando que a série teria uma sobrevida, lançando em janeiro do ano passado a primeira temporada que adaptaria os primeiros 4 volumes da série.

A série começa com as crianças curtindo um dia nublado na praia, enquanto Lemony (Patrick Warburton) diz o que está acontecendo a cada momento. Até que o Sr. Poe (K. Todd Freeman) vai de encontro á elas e diz que seus pais morreram num trágico incêndio. Então, elas são levadas até a mansão do Conde Olaf (Neil Patrick Harris), que vive ao lado da Juíza Strauss (Joan Cusack).

O Conde é um ator de última categoria, que mora num lugar sujo, destruído e mal cuidado. A juíza parece ser sua única esperança nesses tempos difíceis, mas Olaf se intromete na relação deles a cada vez que percebe a aproximação das crianças com qualquer outra pessoa um pouco mais gentil e tenta cortar quaisquer elos formados. E junto de uma trupe de figuras peculiares, infernizam a vida do trio. Até que eles percebem qual é o plano dele e tentam de todas as formas impedir que o mesmo ocorra.

O roteiro é interessante. Nos 2 primeiros episódios, já possível identificar uma espécie de parâmetro que se seguirá na temporada inteira: as crianças são inseridas num ambiente novo, o Conde e a trupe vem para infernizar as crianças, eles descobrem o plano, desmascaram o Conde e são levadas a um novo lugar. É um tanto repetitivo, mas não acaba por se tornar algo maçante e sem propósito. O maior problema são os últimos minutos da temporada, onde se inicia um número musical, sem propósito algum e que não acrescenta nada em sua experiência.

A direção de arte é bem feita. Em cada lugar onde as crianças são levadas, veremos locais de todos os estilos: da mansão desolada e destruída, cheia de entulho, ratos e madeiras quebradas do Conde Olaf, uma casa abarrotada de répteis de todos os tamanhos formas e cores na casa do tio Monty (Aasif Mandvi), a casa rachada e um tanto perigosa da tia Josephine (Alfre Woodard) até a serraria que mais parece um símbolo de dominação e alienação.

As atuações são muito bem feitas. As crianças tem aquela malícia que havia sido mencionada, Patrick aparece quando necessário, a fim de fazer um comentário seja sarcástico ou contenha uma crítica a algum tipo de comportamento seja dos coadjuvantes ou em relação ao mundo, fazendo um papel mais competente que o de Jude Law. Neil Patrick Harris como Olaf possui uma abordagem diferenciada em relação a Jim Carrey. Enquanto que, no filme, Carrey é meio bobão, sempre precisando recorrer ao humor físico e expressões visuais um tanto caricatas, o humor de Neil possui essa mesma vibe, mas existe algumas nuances advindas do seu olhar que fazem o personagem possuir alguma espécie de mistério rondando-o.

A paleta de cores é bem diversificada. Ela pode ir do acinzentado com alguns tons de preto para os primeiros episódios até cores mais vividas quando as crianças vão para a Sala dos Répteis, onde quase tudo é muito saturado, quase num tom kitsch.

Um dos pontos mais interessantes é a canção-tema. Ela possui o mesmo tom autodepreciativo da série, parecendo até uma marcha fúnebre. Mas ela consegue grudar em sua mente com facilidade. Não é difícil se pegar recitando alguma estrofe.

O CGI em algumas cenas é inconsistente. Quando não é necessário muitos truques visuais, até harmoniza, mas, quando é necessário, parece precário e pouco desenvolvido.

Desventuras em Série é um programa feito para aqueles que gostam de histórias mais adultas (nem tanto) e uma pegada de humor negro e crítico. A alternância do ritmo pode se tornar um tanto confusa. É uma série feita para você assistir em doses homeopáticas, a fim de não soar monótona. Se você pretende maratonar, ela pode se tornar irritante e pouco desenvolvida. Indicada apenas para quem já tenha lido um dos livros ou tenha visto o filme.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.