04
abr
2018
Crítica: “Um Lugar Silencioso”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Um Lugar Silencioso
(A Quiet Place)

John Krasinski, 2018
Roteiro:
Bryan Woods, Scott Beck e
John Krasinski
Paramount Pictures

4

Poucas pessoas valorizam o silêncio. Num mundo cada vez mais barulhento e completamente desorientador, são poucas as pessoas que decidem tirar um tempo para apreciar o quanto a calma e a quietude valem a pena.

E em Um Lugar Silencioso, essa máxima é levada ao extremo. Em alguns anos no futuro, algum tipo de experiência que deu errado acabou criar algumas criaturas desformes. Cegas, rápidas e letais. Uma família que ainda está numa pequena cidade a procura de mantimentos, remédios faz de tudo para achar esses itens, todos sem sapato, caminhando na ponta dos pés, falando por linguagem de sinais ou muito baixo.

Não encontrando nada útil, decidem retornar para a sua casa, bem afastada na floresta, até que um garotinho (Cade Woodard) que havia pego um foguete de brinquedo com luz e som o liga e a tal criatura vem ao seu encontro e o destroça.

Agora, você deve estar se perguntando: “Mas como é possível uma criatura cega saber onde o moleque tá?” E eu respondo com outra pergunta: “Você já ouviu falar em ecolocalização?” Se não, eu explico.

A ecolocalização é um tipo de capacidade existente em morcegos, baleias e golfinhos que, através de ondas sonoras emitidas na água ou no ar, conseguem detectar posição, distância, obstáculos ou outros animais, não importa onde estejam, até que as mesmas ondas transmitidas voltem na forma de eco. Essa técnica seria uma espécie de sonar biológico. Mesmo havendo sido postulada pelo padre Lazzaro Spallanzani, o primeira a mostrar uma experiência com morcegos foi Jonas Ansel.

Um ano se passou e mais um novo filho está prestes a nascer. Todos se culpam pela morte do mesmo, mas quem parece estar sofrendo mais é a irmã mais velha (Millicent Simmonds), já que se sente um pouco distante do pai (John Krasinski). Mesmo assim, a família permanece unida. Enquanto o pai e o filho (Scott Beck) vão sair, ela e a mãe (Emily Blunt) ficam em casa, cuidando dos afazeres. Mas, até eles voltarem estarão por conta própria e terão de lidar com as criaturas, caso as mesmas apareçam.

Um jogo que muitos amam, chamado The Last of Us, possuem zumbis advindos de um fungo mutante que transforma os infectados em monstros cegos que utilizam exatamente o mesmo principio. Aqui, nós vemos uma abordagem muito mais prática. Existem peculiaridades que o filme aborda que o jogo nem pensou. A família não usa sapato, os locais por onde andam são cobertos por uma espécie de areia que evita a propagação de som, o que o torna um pouco mais realista.

O desenho de som desse filme é primoroso. As criaturas emitem um espécie de estalo, similar ao The Last of Us, o que faz com que o grau de aflição seja consideravelmente maior que em outras produções do gênero, onde o súbito aumento do volume da trilha sonora fazia o público se arrepiar. Em um dado momento, surge uma situação onde a ecolocalização tem um uso igual ao dos animais marinhos. Isso é capaz de fazer o mais emotivo roer as unhas e ficar na beira do assento.

A direção de fotografia é bem interessante. O preto, cor predominante do longa, é usado de maneira eficaz e inteligente, onde a escuridão torna tudo ainda mais tenso e complicado. Isso pode ser evidenciado em uma cena onde a mãe sobe em um cômodo e está completamente acurralada. O corredor escuro e a criatura se fundem no cenário e só vemos um foco de luz na mãe, e o estado psicológico até do menos impressionável entra em pânico, fazendo você torcer pela sobrevivência da mesma.

A direção de arte é bem construída. As lâmpadas que rodeiam a casa inteira e trocam de cor para avisar qualquer situação, a fim de evitar sons ainda mais altos e/ou gritos, são sutis e bem elaboradas. A casa está coberta de pegadas do tal pó branco e assim, todos sabem onde pisar para evitar os rangidos de madeira.

John Krasinski é um pai zeloso, protetor, mas também amoroso. Emily Blunt rouba todas as cenas onde está, suas caras e bocas fazem todos se emocionar em algum nível. A sua tensão nos conflitos é mostrada de maneira eficaz e faz todos se questionarem se conseguem suportar algo daquele tipo. Millicent, por ser surda, acaba dando credibilidade em suas cenas e toda a vez que se envolve em perigo, sentimos essa sensação. Em um dado momento, a estática em seu aparelho auditivo acaba sendo crucial e quando ela sente dor ao estar “ouvindo”, isso logo é apresentado ao espectador, que sente a dor.

O roteiro é bem construído, mas, devido ao fato de que a maioria dos personagens não sofre qualquer tipo de risco a vida, na maior parte do tempo, a tal realidade proposta não é tão fácil assim de se identificar. Não que isso torne a trama ruim, mas a faz ser menos crível.

Um Lugar Silencioso é um filme tenso, muito perturbador e que consegue abalar qualquer o mais inatingível. As personagens conseguem fazer o público se importar com o que é retratado e de forma magistral. O grau de tensão apresentado o faz ser um dos filmes de terror mais impressionantes e que não necessita de jump-scares na maior parte do tempo. Espero que a safra de horror desse ano prometa filmes tão promissores quanto o que aqui é introduzido. Um bom pontapé, visto que ano passado, depois de um jejum de quase 20 anos, outra produção do gênero volta a concorrer ao Oscar. Acompanhemos com muita atenção.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.