20
maio
2018
Crítica: “3%” (2ª Temporada)
Categorias: Críticas, Séries de TV • Postado por: Rafael Hires

3%

Pedro Aguilera, 2017
Roteiro:
Denis Nielsen, Pedro Aguilera, Ivan Nakamura, André Sirangelo, Juliana Rojas, Guilherme Freitas e Teodoro Poppovic
10 episódios (38-48 min.)
Netflix

3

3%. A 1ª série brasileira do serviço de streaming mais famoso, irreverente e eclético da história. O que poderia parecer uma nova novela, com elenco (quase) desconhecido, uma trama muito similar a distopias envolvendo jovens como Jogos Vorazes e Maze Runner, consegue fazer uma analogia ao modo de como o governo e o povo são falhos em sua natureza.

Apesar de ter tido um primeiro ano um tanto fraco e quase sem carisma, tenta redimir os seus “pecados” nesta 2ª temporada. Mas será que conseguiu?

Passasse um ano desde o processo onde Michele (Bianca Comparato) e Rafael (Rodolfo Valente) passaram para o Maralto, uma sociedade utópica, aparentemente perfeita, onde há fartura, prosperidade e possibilidades inexploradas. Já na sua contraparte, o Continente, está assentado sobre um barril de pólvora, onde as condições são extremamente precárias, onde parece ser uma das maiores favelas da história.

O maior responsável pela Causa foi preso e, em poucos dias, será realizado o processo nº 105. Michele ainda deseja tirar seu irmão André do Centro de Tratamento, onde Michele esteve durante o ultimo ano e provar que o mesmo não matou ninguém.

Em meio a isso, Fernando (Michel Gomes) acaba, querendo ou não, se aliando a Causa, junto de Joana (Vaneza Oliveira). Enquanto isso, Rafael tenta contato com a Causa, a fim de ajudá-los a acabar com o Processo de uma vez por todas. Entra em cena, Marcela (Laila Garin), a chefe de segurança que desconfia de todos, principalmente de Ezequiel (João Miguel) e que fará de tudo para não interromper o andamento do Processo.

Se na primeira, o tom era o conformismo e “jogar conforme as regras”, aqui é revolução e não aceitação do status quo.

O roteiro aposta em tramas paralelas, até instigantes, como o jogo de gato e rato entre quem está mentindo e quem diz a verdade, fazendo o telespectador ter cortar um dobrado a fim de acompanhar a resolução dos fatos ou mesmo as revelações de fatos até então inexplorados que podem alterar radicalmente o comportamento dos personagens.

Mas, ainda assim, existem algumas que não há como perdoar como Fernando tentando convencer sua amiga Glória (Cynthia Senek) a desistir de entrar no Processo, Marco (Rafael Lozano) virando um chefes da milícia do Continente, matando Gerson, a obsessão de Ezequiel com Julia, que já estava morta, etc. Uma tentativa de levar a trama adiante, mas se torna mais como empata o caminho.

Apesar de ter tido um orçamento maior para poder fazer algumas cenas em 4K, principalmente nos planos abertos, a fim de preencher a tela com mini drones feitos em CGI sobre uma paisagem imensamente arborizada ou povoada com prédios, nem sempre elas são usada de forma competente, parecendo uma espécie de mini propaganda tosca sem uma finalidade justificada.

Isso é compensado, em partes, pela direção de arte, que consegue ser funcional. Na cena onde é realizado uma espécie de mini carnaval antes do Processo, as esculturas todas cheias de fitas, feitas com madeiras, similar aos bonecos de Olinda é bem caprichada, embalada ao som da cantora transexual Liniker. Aliás, ainda segue a temática da serie em usar títulos com nomes de objetos que serão úteis ao desenvolvimento e isso é visto de maneira mais convincente no último episódio.

As cenas de ação não possuem um impacto onde gere um grande envolvimento e/ou torcida por parte do espectador, mas, em sua maioria, são funcionais ao que se propõem. O sangue aqui jorra com profusão, seja numa morte ou em alguma parte onde será necessário o derramamento.

3% não é a série brasileira mais brilhante da história, muito longe disso. Mas, certamente, é uma série que vale a pena ver, devido aos questionamentos que traz consigo, em relação a preservação dos recursos naturais, ideais filosóficos inalcançáveis e uma utopia impossível de ser concretizada, fugindo do padrão convencional das séries realizadas aqui no País do Futebol (nem dá mais pra usar esse nome).



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.