27
maio
2018
Crítica: “Dear White People” (1ª Temporada)
Categorias: Críticas, Séries de TV • Postado por: Rafael Hires

Cara Gente Branca (Dear White People)

Justin Simien, 2017
Roteiro:
Justin Simien, Chuck
Hayward, Njeri Brown,
Jack Moore, Leann Bowen
e Nastaran Dibai
10 episódios (21-35 min.)
Netflix

5

Provavelmente em alguma época da sua vida, você já se sentiu isolado, distante, quase um estranho no ninho. Se não, bom pra você. Mas saiba que existem muitos que se sentem assim, seja num bairro novo, numa casa nova, numa escola nova, num local de trabalho, enfim. Mas creio que ninguém sofre tanto quanto as minorias, em especial os negros. Eu, sob hipótese nenhuma, posso dizer que entendo a segregação, já que não pertenço às minorias, mas o sentimento de não pertencimento nos ronda a todo momento, mesmo numa roda de conversa de bar com pessoas que não nos conhecem.

Em 2014, um filme financiado coletivamente decidiu falar sobre o racismo, jogando na cara de todos que assistem de que o mesmo ainda está presente, mesmo que, de forma velada, em certas ocasiões. O filme conta a participação de nomes relativamente conhecidos como Tessa Thompson e Tyler James Williams, o eterno Chris da série Todo Mundo Odeia o Chris, onde, na universidade onde estudam, uma festa blackface acontece e isso serve de estopim para uma sequência de eventos rolarem.

Caso você, que não esteja familiarizado com o termo, deixai que vós te explicai-vos. Blackface é termo na qual, uma pessoa branca pinta a cara e/ou o rosto de negro de forma a inferiorizá-las e zoar simplesmente pelo fato de ser negra e, em grande parte das vezes, até sexualizando-a como objeto. E, talvez, o filme tenha pego uma inspiração advinda de um caso bastante similar ocorrido recentemente nos EUA, na Universidade de San Diego. Resultado: ninguém da festa real foi punido.

A trama da série segue exatamente a mesma do filme. Adolescentes brancos, sem mais nada na vida pra fazer de útil numa universidade muito prestigiada, decidem fazer uma festa blackface em resposta a um programa de rádio de certa popularidade chamado carinhosamente de Cara Gente Branca, onde a estudante negra Samantha White (Logan Browning) faz críticas ácidas ao comportamento dos brancos e o meio deles contra-atacarem é através da revista Pastiche, tentando desmerecer o discurso de Sam, com cartazes inflamados, acusando-a de cercear a liberdade de expressão.

Outro ponto muito importante para que a série não se tornasse cansativa, como a maior parte das produções do serviço é a escolha de fazer episódio de 30 min, ao invés dos habituais 45 ou 60, o que elimina em 99% dos casos, as tais tramas paralelas desinteressantes, que só servem, na grande maioria dos casos, para encher linguiça.

O roteiro foca em quatro personagens: Sam, Troy (Brandon P Bell), o filho do reitor que tem um futuro muito promissor, sendo levado mesmo que a força por seu pai para que o mesmo se torne um dia presidente, Coleandra/”Coco” (Antoinette Robertson), uma garota muito ambiciosa que quer mudar de vida, Reggie (Marque Richardson), um dos alunos mais inteligentes da universidade, que servirá de epicentro para um dos acontecimentos de maior impacto e Lionel (DeRon Horton), um garoto gay que trabalha no jornal da universidade que tem uma queda por Troy, seu colega de quarto.

As atuações são muito boas. Logan na pele de Sam é inteligente, sagaz e não aceita levar desaforo pra casa e sempre impõe seus pensamentos, mesmo que isso desagrade as pessoas. Coco pode até soar um tanto chata ao ser ambiciosa, mas defende quem necessita e, é nestes momentos que sua personagem brilha e até nos momentos mais sutis, onde ninguém numa festa decide passar a noite com ela, reforçando o velho preceito de que brancos só ficam com brancos. (acertou, mizeravi)

Marque Richardson tem o papel de maior destaque, já em um dado momento numa festa, uma discussão entre Reggie e outro aluno ocorre e os ânimos se exaltam. E desse momento em diante, veremos que a série alça seu ponto culminante em toda a sua crítica: o preconceito é profundo e atinge todos os níveis da sociedade, mesmo que os negros tenham conseguido o seu espaço, ainda são tratados com desconfiança e são sempre os primeiros a serem questionados. Sad, but true.

A direção de arte é primorosa. Acerta em cheio em todos os momentos, sejam nos cartazes feitos por Sam e seus companheiros, seja pela “tentativa” de resposta da Pastiche em relação ao que é veiculado no programa de rádio de Sam e na pseudo série Difamação, onde negros se submetem a lascívia dos personagens brancos ou nos devaneios de Gabe pensando na possível traição de Sam.

O desenho de som também é bem feito. Os efeitos de som que Sam coloca no programa são muito bem pensados e reforçam a mensagem de maneira sutil e bem ponderada. A trilha sonora instrumental também é de grande destaque. Seja em partes melancólicas como Reggie chorando em seu quarto, devastado pelo que acabou de acontecer, seja em partes mais suaves como Lionel descobrindo ainda mais sua sexualidade. São momentos de um primor bem realizados.

Existem referências, sejam sutis ou escancaradas a fatos e pessoas, como Sam falando de casos recentes como os assassinatos de Philip Castile, Trayvon Martin, Sandra Bland, além de citar diversos ativistas negros. Mas o mais legal foi ver citando Ta-nehisi Coates, o escritor da nova fase dos quadrinhos do personagem Pantera Negra na Marvel. Além de alguns pôsteres e fotos do Partido dos Panteras Negros, um partido que visa direitos iguais para os negros e respeito a vida dos mesmos.

Mesmo tendo em seu DNA, vários elementos de comédia, advindos do filme original, não quer dizer que se trate de uma comédia pastelão. Ela é séria e traz reflexões necessárias num mundo onde todo mundo decide falar que tudo é mimimi. Mas quando ele é justificado, principalmente num país que há pouco menos de dois séculos atrás promovia um massacre generalizado para com os negros recém libertados (o nosso também não tá muito longe disso), então o mínimo que se espera é que os “críticos” parem de ser hipócritas e ouçam com o mínimo de atenção.

Dear White People vem trazer um questionamento muito importante para uma geração de pessoas, muitas delas extremamente acomodadas e façam elas refletirem se as atitudes que ela anda tendo para com as minorias, que a mesma se colocasse no lugar da outra e avaliasse se o que ela faz, também vale para ela.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.