21
jun
2018
Crítica: “Desobediência”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Desobediência (Disobedience)

Sebastián Lelio, 2018
Roteiro: Sebastián Lelio e Rebecca Linkiewicz
Sony Pictures

3.5

Todos nós em algum momento de nossas vidas, já nos apaixonamos por alguém. Não, esse não é um texto atrasado pro Dia dos Namorados, porém até que cairia bem. O problema mesmo é você se apaixonar por quem já está comprometido ou mesmo que não pode ter por causa de certos preceitos religiosos.

E é sobre isso que Desobediencia irá tratar, sendo uma espécie de Romeu e Julieta, ás avessas dos dias de hoje.

O rabino Rav Krushka (Anton Lesser) está fazendo seu habitual sermão na sinagoga, porém, acaba sofrendo de um mal súbito na frente de todos e morre. Ronit Krushka (Rachel Weisz), filha do ex-rabino, que mora em Nova York, acaba recendo a noticia do falecimento de seu pai e parte para o Reino Unido, a fim de prestar homenagem.

Mas todos a recebem com certo cetismo, apreensão e um tanto de afastamento. Os únicos que a tratam como uma igual são Dovid Kuperman (Alessandro Nivola), ex-discípulo de Rav e ex-amigo de Ronit e Esti Kuperman (Rachel McAdams), ex-amiga de Ronit e agora esposa de Dovid.

Apesar de todo esse mal estar inicial, Dovid convida Ronit a passar a semana na sua casa, enquanto os preparativos para o velório estão sendo feitos. Mas não pensem que, a partir de agora, a coisa será fácil para Ronit.

O filme coloca todas as suas fichas em momentos intensos, claustrofóbicos e opressores. Devido a partida de Ronit para outro local fora daquela comunidade, todos a tratam de maneira um tanto rude, de forma a isolar a mesma, deixando-a com poucos possíveis parceiros de interação. Tanto que, em vários momentos, você se pegará tendo um mal estar psicológico.

O roteiro aposta em tramas paralelas muito bem feitas. Seja o tal descobrimento dos preceitos de seu pai conservador que aconselhou Esti a se casar com Dovid, seja as pessoas que circundam os locais por onde o trio protagonista passa, com discursos que podem fazer os mais frágeis se sentirem mal.

Existe um caráter sensual e sexual no filme, mas já aviso aos mais puritanos: a nudez não é explicita, você não verá closes nas genitálias, tanto das mulheres quanto dos homens. Tudo é feito num contexto mais poético do que propriamente tecendo uma alegoria ao pecado da carne propriamente dito.

A paleta de cores aposta em tons bastante dessaturados, principalmente na cor preta. Isso pode remeter ao luto pelo qual as pessoas passam por terem perdido tal grande orador, porém a relação é mais intima, já que isso remete a uma revelação feita muito mais adiante no filme, que, infelizmente, não posso contar aqui, já que não quero estragar a surpresa.

As atuações são boas. Rachel Weisz faz uma personagem que acaba por ser um contraste, perante a unanimidade daquela comunidade, o que faz com que o clima de opressão a ela seja algo impactante, pois é possível sentir na pele aquilo que as pessoas demonstram para com ela. Rachel McAdams, de imediato, parece mais uma simples dona do lar, submissa ao caprichos do marido e sempre tendo de obedecer a sociedade onde se encontra a fim de se encaixar, porém, toda vez que está ao lado de Weisz, a química entre elas é explosiva. Alessandro Nivola é a representação nua e crua do patriarcado, esculpido em carrara, imponente, severo e pouco flexível. Parece inicialmente que este personagem seria um grande estereotipo, mas quando chega no final, vemos uma “espécie” de redenção ao mesmo.

Desobediência é uma trama adulta, bem construída, cheia de tensão, que pode se tornar incomoda ao mais sensíveis ou religiosos, porém é uma obra muito válida nos dias de hoje, visto que os acontecimentos retratados aqui não são coisas raras de acontecer em nossa sociedade. P.S: Pretendo ler o livro no qual foi inspirado. #Fikdik



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.