03
jul
2018
Crítica: “Hereditário”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Hereditário (Hereditary)

Ari Aster, 2018
Roteiro: Ari Aster
Diamond Films

4

Família. Do latim família, seu significado seria um agrupamento de pessoas com algum tipo de ancestralidade em comum ou laços afetivos vivendo sob o mesmo teto, isso significa inclusive ter de aturar de tudo um pouco o que tais pessoas fazem ou deixam de fazer. Porém, nem sempre é fácil conviver.

E é isso que Hereditário vai mostrar a você.

A avó de uma família que vive isolada em uma floresta longe da cidade morre. Annie (Toni Collette), a matriarca, esculpe dioramas em miniatura de variadas formas, desde a casa em que vive até alguns acontecimentos em sua vida. Charlie (Milly Shapiro), a filha do casal, é distante da família, já que a avó acabava por estar do lado dela por muito tempo e a mesma diz que a avó queria que ela fosse um menino.

Annie vai até seu escritório, onde começa a ver fotos num álbum da família, porém a mesma é assombrada por uma alucinação macabra de sua mãe morta. No dia seguinte, Charlie está na escola, porém uma pomba bate com força na janela da sala onde a garota está. Após isso, Charlie vai até o arbusto onde está o pássaro morto, corta a cabeça do mesmo com uma tesoura e guarda a cabeça no bolso do casaco. Ao longe, vemos uma mulher acenando para Charlie.

Steve (Gabriel Byrne) recebe a noticia de que o corpo da falecida mãe de Annie fora desenterrado, porém não fala sobre isso a ela.

O filme não tem jump-scares ou os famigerados sustos surpresa que decidem acontecer de uma hora para outra. Ele aposta numa atmosfera mais contemplativa, de observar o cenário e as situações que estão acontecendo, ao invés de entregar um susto logo após o outro, sem causar impacto ao espectador.

O roteiro vai usar dos segredos que todos escondem para deixar o clima ainda mais pesado e soturno, seja Annie, seja a avó morta ou mesmo Charlie.

O design de produção foi muito inventivo. Usou dos dioramas em miniatura de forma a construir em algumas cenas uma sensação de claustrofobia, além de propiciar um elemento diminuto, onde faz o espectador se sentir pequeno, diante do que é mostrado em tela.

A direção de fotografia também aposta na escuridão, onde nas cenas mais intensas, são vistos poucos focos de luz, deixando o tom de macabro envolvendo o ambiente e os personagens.

Existe no filme uma alegoria sobre o luto e como cada personagem irá processar isso, no entanto, uma característica inerente a todos será o distanciamento de cada um dos membros da família, seja voluntário ou involuntário.

Existem cenas deveras perturbadoras e chocantes no filme, mas não pensem que as mesmas são completamente gratuitas ou sem propósito.

A trilha sonora é impactante. Ela pode soar bastante pontuada em vários momentos, porém ajuda no suspense crescente na trama.

Existe uma subtrama envolvendo ocultismo. Mesmo sendo bem explorado, ainda deixa varias perguntas em aberto do tipo como ninguém havia notado algo incomum nos álbuns de família ou as vestes que a avó usava, a tal amiga da avó que decide aparecer quando a vida da família parece estar desmoronando e que nunca havia sido vista nas fotos. São coisas que muito dizem que se for muito analisado, desmerece o filme, porém é necessário apontar essas incongruências quando vemos.

As atuações estão bem feitas. Toni Collette entrega uma mulher perturbada por ter de lidar com uma mãe um tanto demenciada por possuir transtornos psíquicos. Alex Wolff faz o melhor papel de sua carreira, como o filho que possui uma culpa gigantesca, já que é irresponsável e decidiu fazer o que bem entende. Gabriel Byrne faz o papel do pai, centrado, servindo de bussola moral numa família desestruturada e Milly Shapiro em seu primeiro longa-metragem, mostra que está em pé de igualdade, perante a essa trupe de atores, com o papel da garota deslocada, alheia ao mundo ao redor e com um tique peculiar que imprime medo e tensão toda a vez que é escutado.

Hereditário é um filme inteligente, efetivo em construção de ambiente aterrorizante e faz um flerte entre divino e profano que só os espectadores mais atentos irão perceber. Certamente irá ficar na história com um filme de terror altamente recomendado.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.