26
jul
2018
Crítica: “Ilha dos Cachorros”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs)

Wes Anderson, 2018
Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman e Kunichi Nomura
20th Century Fox

4.5

Cachorros, cães, catioros, au-aus, cãezinhos, cachorrinhos. Esses seres de orelhas arqueadas, quatro patas e rabos compridos são a epítome da diversão quando estão por perto. Você certamente já recebeu de alguma amiga(o), tia(o),avó(ô), até dos pais alguma foto engraçada ou vídeo desse simpático animalzinho fazendo alguma proeza.

Porém, nem todos tem a sorte de ter esse bichinho por perto. Pelo menos, não os habitantes da cidade de Megasaki, no novo filme de Wes Anderson Ilha dos Cachorros.

Há algum tempo atrás no arquipélago chinês, a dinastia Kobayashi, um clã de adoradores de gatos, acabou por quase erradicar os pobres cães. Porém, um garoto samurai decapita o chefe do clã Kobayashi, porém os mesmos sempre ficaram possessos com essa atitude e nunca esqueceram (provavelmente nunca viram o Seu Madruga recitando sua imortal frase: “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”).

Séculos depois, estamos na cidade de Megasaki. Devido a um surto de febre canina e o aumento exagerado na população de catioros, o agora Prefeito Kobayashi (Kunichi Nomura) sanciona um decreto de mandar todos os cães para a Ilha Lixo, um local de quarentena cercado de lixo. O primeiro cão ser levado para lá Spots (Liev Schreiber) pertence ao sobrinho de Kobayashi, Atari (Koyu Rankin). Porém o Professor Watanabe (Akira Ito) crê que os cães podem ser curados. Passado algum tempo, a ilha está cheia de cães. Dentre eles, Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Duke (Jeff Goldblum), Boss (Bill Murray) e Chief (Bryan Cranston), o líder.

O quinteto luta para pegar uma sacola de um outro quinteto de poodles e consegue, enquanto veem Atari voando num avião em queda na ilha. Atari está a procura de Spots e agora os cães irão o ajudar na busca.

Depois de ter realizado um trabalho magistral em O Fantástico Sr. Raposo, Wes Anderson mostra que ainda tem muito a fazer em animação em stop-motion. Indo no contraponto do que a indústria de animação faz hoje, este filme não aposta em roteiros batidos, momentos engraçados a fim de fazer crianças gargalharem e fazerem todos sorrirem.

Essa é uma animação para adultos com conteúdo, diferentemente de Festa da Salsicha, onde a única coisa de adulto presente são piadas de duplo sentido com comida ou uma orgia colossal entre as comidas. Aposto que Wes deve ter visto muitas obras do Studio Ghibli, já que este estúdio de animação sempre prefere a pegada adulta de trama, além é claro da presença de sangue, algo inconcebível para o estúdio do Mickey.

O roteiro aproveita para fazer uma série de alfinetadas em regimes totalitários (quem dera isso fosse coisa do passado) e como a informação consegue se modificada e a população ser facilmente convencida de que os cães são cruéis, através de discursos cheios de ódio ultra inflamados por um líder tirano e implacável (apenas mais um dia normal no mundo).

Quem conhece Wes Anderson sabe quais são suas características. Porém, vale reforçar a aqueles pouco aventurados no mundo particular do cineasta: enquadramentos precisos, sempre buscando a simetria perfeita, um cenário recheado de elementos, a teatralidade nas falas de uma maneira geral e uma paleta de cores pastéis e bastante saturadas. Aqui o destaque vai para o marrom, o amarelo, o preto, o vermelho e até o cinza.

Algo interessante a se pontuar é a incomunicabilidade. A maioria dos humanos falam em japonês, salvo algumas exceções em que a fala em inglês vem de dispositivos eletrônicos ou de uma interprete (Frances McDormand) e Tracy Walker (Greta Gerwig), enquanto o dialogo dos cachorros é todo em inglês. Uma escolha inteligente de retratar o fato de que humanos não entendem os animais, muito menos os mesmos entendem os humanos.

A direção de arte é caprichadíssima. Os cenários são muito espaçosos, cheio de elementos ao seu redor. Seja um pequeno bar ruim ou mesmo um lixão com toneladas de dejetos a se perder de vista. Tudo foi trabalhado nos mínimos detalhes. Os prédios possuem arquitetura no estilo japonês tradicional, cheias de venezianas de divisórias, evocando o passado feudal daquela localidade.

Isso também pode ser visto na trilha sonora. Desde um simples assovio de Atari, até a parte instrumental, cheia de tambores ritmados e potentes, tudo evoca o espirito do Japão.

A animação está espetacular. Seja um simples olhar do personagem até cenas mais complexas como as brigas que os personagens irão se meter, a cena de luta de sumô, até a preparação de uma refeição. Tudo é muito vivido e plástico, parecendo até CGI em alguns momentos de tão perfeito. Se você tinha se impressionado com animações como A Fuga das Galinhas, O Estranho Mundo de JackJames e o Pêssego Gigante, prepara-se para ver um nível acima de perfeição.

As atuações são excelentes. O humor todo peculiar de Wes Anderson dá a tônica do que se verá em tela. Os destaques vão para Bill Murray é o piadista; Edward Norton é o que mais quer ajudar Atari; F. Murray Abraham atua como narrador e conselheiro dos cães, sempre sensato; Bob Balaban faz o papel do cachorro astro de comerciais que não sabe lidar com queda de sua importância; Bryan Cranston é a linha carrancudo de bom coração que se afeiçoa ao garoto (não podia faltar); Scarlett Johansson é o interesse romântico de Cranston; Greta Gerwig é a típica revolucionária que quer derrubar o tirano; Koyu Rankin é a criança intempestiva atrás de seu cão e Jeff Goldblum age como a internet hoje em dia: espalha boatos sem verificar a fonte, Liev Schreiber é o fiel amigo do homem, porém está dividido e Kunichi é o ditador sem freio.

Infelizmente, nem todos os personagens são bem aproveitados. Harvey Keitel é tido como o líder de uma tribo de cães canibais, porém tem pouco tempo de tela. Tilda Swinton quase não possui falas, sendo usada como oraculo para os eventos vindouros da trama já que vê TV e entende o que é dito, Akira Takayama seria uma espécie de alimentador de ódio, porém é pouco explorado e Yoko Ono só está para ser a viúva sofredora.

Ilha dos Cachorros é uma divertida sátira a realidade. Mostra que somos facilmente manipulados e espalhamos coisas falsas sem verificar a veracidade. Tudo aliado a um roteiro bem orquestrado, uma trilha sonora que ficará na sua mente e personagens irreverentes.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.