09
set
2018
Crítica: “Invocação do Mal”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Invocação do Mal (The Conjuring)

James Wan, 2013
Roteiro: Chad Hayes e Carey W. Hayes
Warner Bros. Pictures

3

Invocação do Mal. Essa franquia que adapta os casos vividos por Ed e Lorraine Warren, os maiores demonologistas de todos os tempos, é, nos dias atuais, uma das mais famosas e intrigantes franquias do terror. E um dos casos mais pitorescos, além da boneca Annabelle e da casa em Amityville, é a casa em que morou a desafortunada família Perron.

Vamos entender melhor.

Roger e Carolyn Perron compraram a casa em 1970. A Fazenda Arnold, tinha quase 81 mil metros quadrados, localizada na estrada Round Top em Harrisville, a casa de campo de 10 cômodos foi construída em 1736.

As filhas, Nancy e Christine Perron compartilhavam um quarto, Cindy e April outro, e Andrea tinha um quarto só para ela. A família percebeu algo estranho desde o primeiro dia na casa. Eles descobriram que oito gerações de famílias viveram e morreram na Fazenda Arnold, incluindo a Sra. John Arnold que, com 93 anos, se enforcou no celeiro.

Além dela, mais vidas foram perdidas na fazenda, incluindo vários suicídios (enforcamentos, envenenamentos), o estupro e assassinato não solucionado de uma menina de onze anos de idade, Prudence Arnold (mais tarde presumiu-se que tenha sido assassinada por um peão da fazenda), dois afogamentos no riacho localizado perto da casa, e quatro homens que misteriosamente congelaram até a morte naquelas terras.

Não demorou muito para que os Perron entendessem por que o vendedor anterior aconselhou-os no dia em que eles se mudaram para a casa, dizendo: “Deixem as luzes acesas durante a noite.”

A princípio, os fantasmas eram inofensivos eles eram descritos como opacos ou pouco sólidos na aparência, havia muitos espíritos presentes na casa. Um fantasma cheirava a flores, enquanto outro ia gentilmente dar um beijo de boa noite nas meninas em suas camas, todas as noites. Outro parecia ser um pequeno e jovem garoto que as meninas viam, empurrando carrinhos de brinquedo pelo quarto impulsionados por uma mão invisível.

Uma aparição, possivelmente um fantasma feminino, era uma presença bem-vinda na casa. Os Perron sempre ouviam o barulho de alguém varrendo que vinha da cozinha. Quando entravam no cômodo, encontravam a vassoura que tinha sido movida para um local diferente de onde costumavam deixar, com um monte de terra varrida no meio do chão, esperando para ser colocado na lixeira.

“Manny”, era outro espírito que as crianças Perron amavam. Acreditavam que Manny seria o espírito de Johnny Arnold, que cometeu suicídio enforcando-se no sótão da casa. Manny aparecia diante das crianças, muitas vezes em pé, assistindo silenciosamente suas atividades diárias, matinha um sorriso torto no rosto, divertindo-se com as brincadeiras das crianças. Se fosse feito contato visual com Manny, ele sumia tão repentinamente como tinha aparecido.

Além dos fantasmas, a família testemunhou muitos fenômenos inexplicáveis, as camas levitavam, um aparelho de telefone flutuou e caiu bruscamente batendo na base do telefone quando alguém entrou na sala e vários objetos flutuavam pela casa. Várias vezes, as cadeiras eram puxadas de repente debaixo de um convidado desavisado e fotografias caiam das paredes. A família relatou ter visto uma vez um sangue alaranjado que vazava da parede e dissolvia no nada.

Porém, nem todos os fantasmas em Harrisville eram bons. Alguns puxavam as pernas e os cabelos das meninas no meio da noite. Outros batiam na porta da frente da casa com tanta força que toda a casa tremia. As portas se fechavam sozinhas, outras permaneciam congeladas no lugar, impossíveis de serem fechadas, não importando quanta força fosse usada. Uma entidade na casa mantinha rotineiramente a família acordada, pois chorava no meio da noite: “Mamãe! Mamããããe!” enquanto outra aparição torturava Cindy de 8 anos de idade dizendo-lhe sem parar: “Há sete soldados mortos enterrados na parede”.

Também tinha um pequeno espírito, que parecia ter 4 anos, que vagava pela casa chorando, chamando pela mãe. Um dos espíritos era tão mal que a família não revelou, até hoje, o que ele fez com eles. Andrea Perron, quando perguntada sobre o espírito durante uma entrevista, ela evitou falar, dizendo ao repórter: “Vamos apenas dizer que havia um espírito masculino muito ruim na casa com cinco garotinhas”.

O fantasma tinha como alvo principal a Sra. Perron. A entidade é, possivelmente, o fantasma de Bathsheba Sherman, que, segundo as más línguas, foi uma bruxa praticante do satanismo, que tinha vivido na casa no início do século 19 e morreu ali depois de se enforcar em uma árvore atrás do celeiro. A família não era religiosa, e essa fragilidade na fé foi, teoricamente, tida como um fator primordial para a natureza particularmente violenta e ativa de Bathsheba com a família Perron. Esta teoria foi reforçada quando se soube que o único morador anterior a não relatar ocorrências estranhas na casa era um pastor de uma igreja local.

Lorraine Warren explicou: “Você só tem sua fé como sua proteção. Eu sempre tive a minha fé. Deus me protegendo me permitiu fazer isso. Naquele momento particular, os Perron não tinham religião e isso foi muito perigoso.”

Bathsheba era uma desprezível e horrenda criatura, descrita como tendo um rosto “semelhante a uma colmeia de abelhas desidratada” coberto de teias de aranha, sem características humanas exceto pelos vermes que rastejavam através de fissuras em sua pele enrugada do rosto. Sua cabeça, redonda e cinza, era “inclinada para um lado”, como se seu pescoço tivesse sido quebrado e um mal cheiro impregnava o quarto quando ela estava presente.

Bathsheba Thayer nasceu em 1812 em Rhode Island e se casou com Judson Sherman em 10 de março de 1844. Quando viva, ela viveu uma vida de solidão. Excluída da comunidade em que vivia depois de ser acusada de matar seu bebê como um sacrifício a Satanás. O corpo do bebê foi encontrado com um objeto pontiagudo espetado na cabeça. Na falta de provas, o caso foi abandonado. Acredita-se que Bathsheba tenha tido outros três filhos, sendo que todos morreram antes de completar 4 anos. Ela também era conhecida por ter brutalizado seus funcionários, deixando-os muitas vezes passando fome e os agredindo por pouca coisa.

Quando ela morreu em 25 de maio de 1885, o médico legista escreveu que nunca tinha visto nada parecido, seu magro corpo tinha se solidificado assustadoramente, aparentemente se transformando em pedra. Bathsheba tinha seus favoritos na casa: ela torturava Carolyn Perron, enquanto cobiçava o Sr. Perron. Sempre que ele estava em casa, aparelhos quebravam com frequência. Roger Perron então levava as máquinas quebradas até o porão para consertar. Enquanto trabalhava no conserto, muitas vezes ele sentia Bathsheba tocá-lo, acariciando seu pescoço ou passando as mãos em suas costas. Porém, enquanto Bathsheba desejava Mr. Perron, ela detestava Carolyn, sua esposa. Era claro que Bathsheba queria Carolyn fora da casa.

Um artigo de agosto de 1977 no jornal local descreveu a aparência de Bathsheba: “A Sra. Perron disse que acordou uma manhã antes do amanhecer e encontrou uma aparição ao lado de sua cama: a cabeça de uma velha pendurada de um lado sobre um velho vestido cinza. Havia uma voz reverberando: ‘Saia. Saia. Eu vou levá-la para fora com morte e tristeza.” No início, ela tratava Carolyn de forma cruel, Carolyn foi beliscada, estapeada, e teve objetos jogados sobre ela. Seu maior medo, fogo, logo foi descoberto pela entidade e usado repetidamente para aterrorizá-la, Bathsheba batia as tochas contra sua cama, enquanto exigia que ela deixasse a casa imediatamente.

Conforme o tempo passava, os ataques ficavam piores. Um dia Carolyn estava deitada no sofá, quando sentiu uma dor aguda na panturrilha. Ela examinou a perna e encontrou um grande ferimento sangrando que parecia “como se uma agulha de costura grande tivesse espetado sua pele”. Mais tarde, após frustradas ameaças para que Carolyn deixasse a casa, Bathsheba tomou um rumo diferente e tentou invadir Carolyn por dentro. Acreditando que Carolyn tinha sido possuída, a família chamou os investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren.

Ed e Lorraine Warren, por vários anos, eles ajudaram a investigar assombrações e possessões demoníacas, em muitos de seus casos, eles foram capazes de convencer o Vaticano a realizar exorcismos dos espíritos que eles encontraram. A família ouviu falar dos Warren após uma de suas muitas palestras públicas e insistiram para eles ajudarem a salvar sua mãe. A filha, Andrea Perron, contou da noite em que o exorcismo ocorreu: “A noite em que pensei que veria minha mãe morrer foi a noite mais terrível de todas. Ela falou com uma voz que nunca tínhamos ouvido antes e uma força que não é deste mundo a jogou a 6 metros de distância em outra sala”.

Infelizmente, a verdadeira história da família Perron terminou diferente da história contada no filme. Na verdade, os Warren não tiveram sucesso na tentativa de libertar a família de seu tormento. Carolyn Perron lembrou da noite terrível e explicou que, apesar das intenções dos Warren serem boas, eles perceberam que as coisas pioraram. Como a situação ficou fora de controle, Roger Perron exigiu que os Warren deixassem o local imediatamente.

O proprietário anterior a família tinha contratado um empreiteiro para reformar a casa. O empreiteiro estava totalmente ativo na reforma da casa, quando de repente ele parou de trabalhar e simplesmente fugiu. Dizem que ele saiu da casa aos gritos deixando para trás suas ferramentas e seu carro. Os proprietários acabaram não se mudando e a casa permaneceu vazia por vários anos antes da família Perron se mudar.

Apesar de todos os fatos horríveis, a falta de dinheiro manteve a família na casa por mais 10 anos. Incapazes de fugir, eles suportaram os espíritos do bem e os malignos. Em 1980, por insistência de Carolyn, os Perron estavam financeiramente bem e eles se mudaram para a Geórgia. Andrea Perron escreveu três livros sobre suas experiências na casa: House of Darkness, House of Light I, II e III. Ela faz várias palestras sobre o tempo em que viveu na casa.

De acordo com Andrea Perron, a atual proprietária Norma Sutcliffe, que comprou a casa em 1983, contou que ela e seu marido Gerry, tiveram experiências paranormais na casa, incluindo a porta batendo no hall de entrada, sons de pessoas conversando em outra sala, o som de passos correndo ao redor da casa, a cadeira de seu marido começou a vibrar na sala de estudos. Eles também afirmam que testemunharam uma luz azul brilhante “disparar através do quarto”, uma “névoa” flutuando pelos cômodos da casa, e vibrações nas paredes tão intensas que sentiam que a casa iria desmoronar. Eles relataram também que viram uma mulher idosa, com coque no cabelo, movendo-se em silêncio por toda a casa.

Agora, que você sabe sobre os Perron, vamos ao filme.

Estamos em 1971. A família Perron, constituída por Carolyn (Lili Taylor), Roger (Ron Livingston) e suas filhas: Andrea (Shanley Caswell), Nancy (Hayley McFarland), Christine (Joey King), Cindy (Mackenzie Foy) e April (Kyla Deaver). Eles se mudam para uma casa em Harrisville, Rhode Island. Todos se adaptam a nova humilde residência, exceto a cachorra, Sadie. Naquela noite, durante uma brincadeira das crianças, uma das filhas encontra a entrada fechada em um porão. Depois que Roger inspeciona o porão com um fósforo, a família vai para a cama. Carolyn expressa preocupação porque a cachorra está latindo do lado de fora, e uma das filhas sente alguém puxando seus pés. De manhã, Carolyn acorda com uma contusão misteriosa e Sadie, é encontrada morta.

Nos próximos dias, várias atividades paranormais ocorrem: as portas abrem e fecham aparentemente sozinhas e Carolyn ouve palmas quando ninguém está. À noite, a jovem filha Cindy entra num estado de sonâmbula no quarto da filha mais velha, onde ela bate a cabeça repetidamente contra um guarda-roupa antigo. A atividade culmina com a filha mais velha sendo atacada por um espírito que parece uma mulher idosa. Carolyn procura a ajuda de Ed e Lorraine Warren, notáveis ​​investigadores paranormais, para validar suas preocupações. Lorraine sente que um espírito malévolo em particular se apegou à família. Eles conduzem uma investigação inicial e concluem que devem se envolver, explicando à família Perron que a casa pode exigir um exorcismo. No entanto, isso não pode ser feito sem mais provas e autorização da Igreja Católica.

O roteiro é bem interessante. Desenvolve bem as personagens e abre várias possibilidades, ao passo que também apresenta casos, envolvendo os Warren e ramificando as possibilidades da franquia que logo viriam a se confirmar como o caso da boneca Annabelle, o Homem-Torto e a freira Valak, etc.

A direção de arte é bem feita. Destaque para o salão de artefatos dos Warren, além é claro, da réplica da caixa onde a Annabelle é guardada e a casa dos Perron. Grande, porém, toda destroçada, esfarrapada. Também é preciso destacar o espirito maléfico que toma conta de Carolyn. Algo selvagem, impedioso e muito assustador. A paleta de cores foca principalmente em tons cinza e preto.

Os jumpscares não são tão assustadores. Alguns te pegam desprevenido, porém, nada muito aterrador. E também são bem óbvios: toda a vez que há algo que possa dar medo, a música abaixa e assim que vem a imagem aterradora, ela sobe até quase estourar seus tímpanos.

As atuações são boas. Vera Farmiga faz um papel muito competente como Lorraine Warren. A sua habilidade sensitiva é muito útil e ajuda a ter um entendimento da história. Patrick Wilson é eficiente como Ed. Acredita no mundo sobrenatural, mas possui um certo cetismo, mas não hesita em agir para ajudar quem necessita. Lili Taylor, a principio, parece ser apenas mais uma dona de casa comum, porém, quando o demônio a toma para si, ela se contorce toda, grita a plenos pulmões. São nesses momentos em que ela brilha. Ron Livingston até possui certa importância, mas não possui um momento chave de grande destaque.

Invocação do Mal é um filme de terror que vem trazer ao mundo os casos reais, pelo quais, Ed e Lorraine Warren passaram ao longo de sua vida. Não é o filme mais aterrorizante que você verá nesta vida, mas, com toda a certeza, dá pra se salvar, visto que, hoje em dia, só preciso sair um pouco de sangue para já ser considerado terror.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.