09
out
2018
Crítica: “A Primeira Noite de Crime”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

A Primeira Noite de Crime (The First Purge)

Gerard McMurray, 2018
Roteiro: James DeMonaco
Universal Pictures

3

A franquia Noite de Crime é na vibe 8 ou 80. Ou você gosta, ou detesta. No meu caso, eu digo e repito, tem uma ideia muito interessante, porém, não é tão bem explorada como deveria, já que o potencial é grande. Ainda assim, sequencias e mais sequencias seguem sendo feitas. E, no caso, o mais recente capítulo dessa saga vai retratar como isso aconteceu.

Você acha que já conhece como aconteceu: criminalidade aumentando, economia indo pro buraco, rebeliões se multiplicando, população aumentando e os mais pobres sofrendo, como sempre. Eis que então um grupo chamado NPFA (Novos Pais Fundadores da América) entra na jogada e decide fazer um experimento sociológico: durante uma noite, você estará liberado para fazer o que quiser, sem sofrer qualquer tipo de consequências. Porém, a NPFA para garantir que esse experimento terá adesão, decide premiar quem decidir se registrar e ficar no local (desta vez, a pequena comunidade de Staten Island) com 5 mil dól. Quem matar, receberá recompensas ainda maiores e usará lentes de contato ultra tecnológicas, permitindo a gravação de tudo o que ocorre com o participante.

Esse experimento foi ideia da Dra. May Updale (Marisa Tomei). Enquanto isso, vamos acompanhar duas histórias diferentes. Nya (Lex Scott Davis) e Isaiah (Joivan Wade) são irmãos que moram num conjunto habitacional, considerado o mais importante símbolo do local. Enquanto a garota vai protestar, Isaiah está matando aula, vendendo droga para Dmitri. Porém, Skeletor (Rotimi Paul), um viciado e lunático da vizinhança começa a perturbar Isaiah, que corta seu pescoço. Ao voltar para casa, Nya vê sangue no chão e logo deduz que o irmão trabalha para Dmitri (Y’lan Noel). D diz a garota que nem sabia que seu irmão traficava e diz que se importa com ela. Nya recusa a ajuda de D e sai. Uma hora antes do Expurgo, Nya vai até a igreja se abrigar junto com alguns outros moradores. Outros cidadãos fogem da ilha de ônibus, barcos ou mesmo dirigindo. A noite começa e claro Skeletor é um dos participantes. Outro participante é Isaiah, sem sua irmã saber, que quer se vingar de Skeletor.

Dmitri fica na cidade em seu esconderijo e seu braço direito Capital A (Christian Robinson) manda duas garotas vistas anteriormente, porém mal ele sabe que elas foram subornadas por ele para mata-lo. O primeiro que mata alguém é Skeletor e logo a NFFA pega o vídeo e o joga na internet. A NFFA fica possessa, pois há poucos focos de homicídio acontecendo.

O roteiro é o mais politizado de todos. Mostra que nem todos aceitam a noite, porém pouco focam nos protestos e mais na corrupção do sistema, onde o plano da organização é se livrar do maior número possível de pessoas pobres, pois não há como cuidar de todos. É interessante, porém não mostra, como foi realmente organizada essa ideia, sendo algo que surge de um suposto estudo que ninguém ouviu falar.

O figurino é bem feito. Não em questão das roupas usadas pelos civis, mas sim das vestimentas usadas pelos participantes. Aqui, vemos desde participantes usando vestes similares aos usados pelo grupo racista extremista americano Klu-Klux-Klan, como também vemos bandeira do sul americano separatista e uma possível menção ao boneco Billy da franquia Jogos Mortais, já que, em determinado momento, vemos um participante com uma máscara branca e seus olhos vermelhos por causa da lente high tech. Não fosse apenas isso, Skeletor veste luvas com seringas afiadas, fazendo uma óbvia referencia a Freddy Krueger, o vilão icônico de A Hora do Pesadelo.

Há presença de jumpscares, porém, nem um deles é bem aproveitado.

Alguns eventos do filme extrapolam o limite da ficção e fazem críticas afiadas a eventos reais. Tais como o massacre na igreja em Charlottesville, o comportamento repreensível do presidente Donald Trump (no Brasil, não estamos muito longe não), etc.

Mesmo assim, o filme ainda escorrega ao colocar clichês como donzela em perigo, pessoas reféns de um grupo fortemente armado e personagens rasos sem desenvolvimento.

As atuações são boas. Lex Scott Davis é uma ativista contra o Expurgo fervorosa, sempre disposta a se colocar na linha de tiro. Joivan Wade a principio, parecia apenas mais um desesperado no meio da multidão quando o Expurgo começa, porém ao se arrepender, seu personagem cresce. Rotimi Paul é o vilão mais ameaçador da franquia. Sua paranoia e seu modo de agir o tornam um dos assassinos mais intimidadores, pois possui a capacidade de se infiltrar em bandos. Y’lan Noel é o personagem de maior tempo de tela. Suas cenas de ação são dignas de aplausos, pois o mesmo acaba por virar, a partir do inicio do 3º ato, uma versão de Rambo para as classes oprimidas, invertendo o papel do traficante vilão, o tornando um anti-herói humanizado. Marisa Tomei mesmo sendo a idealizadora do projeto, não possui cenas estonteantes.

A Primeira Noite de Crime é o melhor de todos os filmes. Não por qualidade de cenas de ação ou mesmo por personagens icônicos, mas sim por ser um reflexo da realidade ao abordar um tema bastante espinhento como a superpopulação e a criminalidade como forma de resolver as desigualdades sociais. Houve abordagens assim nos filmes anteriores, porém não tão bem feitas. Se houver uma sequência, que mantenha um discurso tão impactante como o apresentado aqui.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.