04
out
2018
Crítica: “Venom”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Venom

Ruben Fleischer, 2018
Roteiro: Scott Rosenberg, Jeff Pinkner, Kelly Marcel e Will Beall
Sony Pictures

3

Venom. Esse personagem ultra violento conseguiu em um curto espaço de tempo uma popularidade monstruosa. Seu comportamento altamente destrutivo, que por onde passa, faz uma carnificina impressionou vários leitores e hoje, se configura como personagem icônico da cultura pop. Mas, pergunto, você sabe como começou a trajetória de sucesso de nosso amigo simbionte?

Nosso querido amigo simbionte não começou da mesma maneira que a maioria dos heróis/vilões tradicionais. Na verdade, foi um fã da Marvel que teve uma ideia. A Casa das Ideias precisava dar um up nos seus heróis, por isso, pediu aos fãs que enviassem ideias novas. Uma das ideias foi enviada por Randy Schueller onde ele queria que o Homem-Aranha usasse um uniforme preto, que fosse feito por Reed Richards, o Sr. Fantástico e usasse a mesma tecnologia das roupas do Quarteto, se adaptando as necessidades do Teioso. Logo, o editor da Casa, Jim Shooter, viu que a ideia tinha algo de especial e pagou 220 dólares a Randy.

Aproveitando esse embalo, a Marvel decidiu mudar radicalmente a ideia do traje e o incluiu no arco Guerras Secretas. A estreia dessa nova aparência do Teioso foi na edição 8 desse arco, em dezembro de 1984. Nessa edição, o uniforme do Aranha ficou picotado, devido a uma intensa batalha no Planeta de Batalhas. Hulk e Thor dizem a Peter que tem uma máquina que pode reparar o traje do Teioso, apenas se concentrando, porém, ele acaba indo na máquina errada e logo, o Aranha toca numa bola preta que se prende a sua roupa e vai se unindo ao traje cada vez mais, mudando por completo, a roupa do Aranha. Com esse novo uniforme, suas habilidades haviam sido aprimoradas e Peter logo começa a ter uma relação de amor com esse uniforme. Porém, nem tudo saiu como ele gostaria.

O traje preto havia criado uma espécie de dependência e por isso, todas as vezes que Peter ia dormir, o uniforme criava consciência e toma o corpo de Peter. Logo, o Teioso foi até Reed para entender o porquê dele estar desse jeito e Reed revela que o uniforme de Peter foi tomado por um parasita. Peter tenta se livrar de seu novo traje, porém de nada adianta, até que Reed usa uma arma sônica que consegue separá-lo. Reed aprisiona o simbionte que agora estava com ódio de Peter. Porém, o parasita escapa e uma intensa luta entre o simbionte e o Aranha começa. Peter usa os sinos da igreja para acabar com o parasita e o vence momentamente.

Eis que, um homem chamado Eddie Brock surge na história. Eddie foi criado por David Michelinie e Todd McFarlane na Amazing Spider-Man #299, de abril de 1988. Eddie é um jornalista que havia feito uma matéria sobre um serial killer, conhecido como Devorador de Pecados para o Clarim Diário. Mas, algum tempo depois, descobriu-se que a matéria de Eddie era falsa, já que o Aranha havia descoberto o verdadeiro Devorador. Eddie, então é mandado embora do Clarim com uma mão na frente e outra atrás. Pra piorar a sua situação, sua esposa o deixa e ele recebe a noticia de que está com câncer (pobre Eddie). Eddie culpa o Aranha pelo seu fracasso e também fica com ódio dele. O ex-jornalista começa a pensar em suicídio, mas devido ao seu catolicismo fervoroso, o mesmo abandona essa ideia e vai para a Igreja. Lá, o simbionte encontra Eddie e ambos se fundem para formar Venom que agora tem o desejo de matar o Aranha.

Conforme os anos foram passando, a origem do simbionte foi mudando. Hoje, o simbionte é pertencente a raça Klyntar, uma raça alienígena que se junta a outros para se tornarem guerreiros perfeitos. Porém, se os mesmos se aliarem a um outro alien, esses seres se corromperão e serão cruéis em seus atos. E quando eles se corrompiam, passavam a se alimentar de seus hospedeiros. Porém, o simbionte Venom não queria se alimentar de seus hospedeiros, ele queria viver junto de um guerreiro. Os outros simbiontes achavam isso uma afronta e decidiram acabar com Venom, mas Venom consegue fugir e vai parar no Mundo de Batalhas.

Depois de uma série de histórias atormentando a vida do pobre Peter Parker, a estrela do simbionte começou a brilhar mais do que a do próprio protagonista, levando a Marvel Comics a criar uma série solo para Venom. Chamado de “O Protetor Letal”, Venom começou a combater o crime na cidade de San Francisco em uma série de eventos onde enfrentou o Fanático, um exército de simbiontes e até mesmo se tornou um agente do Governo.

A década de 90 foi uma época estranha e depois de uma série de aventuras alternando entre herói e vilão, o simbionte decidiu que precisava de um novo hospedeiro. O ex-inimigo do Homem-Aranha, Mac Gargan, o Escorpião, teve sua chance de ser o homem por trás dos dentes e depois de enfrentar o cabeça de teia em diversas situações e se tornar um membro dos Vingadores Sombrios,a era de Gargan, como Venom, também teve seu fim.

Mais recentemente, o simbionte decidiu habitar o corpo do amigo e ex-bully de Peter Parker Flash Thompson, que decidiu usar seus poderes para o bem! Trabalhando em missões para o governo depois de perder suas pernas no Oriente Médio, Thompson teve sua chance de brilhar e até mesmo entrou para os Vingadores Secretos.

Durante os próximos anos, vários outros simbiontes viriam a surgir como Carnificina, Grito, Agônia, Toxina, Revolta, Açoite e Phage (mas isso fica para um outro dia).

Agora, que você já conhece o Protetor Letal, vamos ao filme.

Uma nave pertencente a Fundação Vida cai na Malásia, trazendo alguns exemplares de novas formas de vida. Esses exemplares são trazidos a São Francisco ao quartel-general da Fundação. Uma das formas de vida toma conta de uma das responsáveis e sai andando por aí com ela. Em São Francisco, o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy) faz reportagens investigativas e está prestes a entrevistar Carlton Drake (Riz Ahmed), o CEO da Fundação Vida. Porém, o mesmo descobre no computador de sua namorada Anne Weying (Michelle Williams) documentos sigilosos revelando que a Fundação Vida está usando pessoas pobres nos seus experimentos.

Quando Drake é questionado por Brock, o mesmo logo fica apreensivo e cancela a reportagem. Mas ao falar com o seu editor-chefe sobre a veracidade de suas fontes, Brock é demitido. Anne fica sabendo que Brock mexeu no seu computador e logo acaba com o seu noivado. Seis meses se passam e Dora Skirth (Jenny Slate) aborda Brock sobre as irregularidades da Fundação. Ela o leva para o local onde as experiências com simbiontes e lá Brock é atacado por Donna Diego. Donna transfere o simbionte dentro de si para Brock que sai causando destruição. Brock começa a ficar cada vez mais transtornado com o simbionte e logo Drake fica sabendo que Brock possui um simbionte dentro de si.

O roteiro é problemático. Já começa com o fato de que o simbionte diz que entende tudo o que se passa na mente de Brock, quase como um elo entre ambos. Porém, em um dado momento Anne liga para Brock e Venom pergunta para Eddie quem é a garota. Quando Venom se instala no corpo de Brock, o mesmo diz que ele é apenas um veículo, porém, depois de um tempo, inexplicavelmente o simbionte considera ele como parte fundamental. Essas incoerências, além de diálogos enfadonhos, tornam o filme muito infantil e despropositado.

Outro grande problema é o ritmo. No inicio, parece que estamos presenciando um filme de terror. Porém, logo vira uma trama de ação desenfreada, graças as perseguições de carros, cenas de luta recheadas de efeitos visuais que acabam por não gerar uma uniformidade no ritmo, tirando a atenção do espectador.

A paleta de cores é quase inteira focada no preto. Tanto que, até em cenas diurnas, parece que a correção de cor decidiu deixar o preto em evidência.

A direção de arte é bem competente. O visual da criatura é um misto de líquidos com uma pegada mais viscosa, tornando o visual da criatura único. Imponente, ameaçador e bruto, o Venom aqui consegue fazer o que Homem-Aranha 3 falhou em tentar. Mas não pensem que isso livra a barra da produção.

A direção é confusa. Uma hora, vamos estar sobre a visão de drones capturando os movimentos de Eddie, na outra, vemos Eddie transformado em Venom, através de uma mira de arma, numa visão que parece ter saído de um jogo de Game Boy, tudo em preto-e-branco.

Os efeitos visuais são competentes. A forma como os simbiontes se movimentam, parecendo as tais areias magnéticas é bem plástica. Porém, quando vários tentáculos começam a pipocar, principalmente na cena de perseguição de Brock é abrupta e nada orgânica.

Mas o maior crime foi terem retirado a violência. O personagem em determinado momento, até come a cabeça de um homem, mas nada de sangue ou vísceras é mostrado. Isso se deve a readequação pela qual o filme passou para poder ser visto por mais pessoas.

As atuações são medianas. Tom Hardy antes de virar Venom é boa praça, sempre de bem, tudo tranquilo. Porém, ao entrar em contato com o simbionte, acaba enveredando para a paranoia, sempre se contorcendo para todos os lados. Mas que, com o uso de efeitos visuais, mal é possível entender sua motivação ou mesmo a sua interpretação. Michelle Williams é mal aproveitada. Apesar de se importar com Brock, sua Anne tem poucos momentos bons, incluindo a cena em que o simbionte se apodera dela. Riz Ahmed é o típico vilão de filmes de herói. Direto, simples e unidimensional, só falta ter música tema para pontuar sua entrada e saída de cena. Nem quando o simbionte Riot o envolve consegue ser convincente.

Há a presença de duas cenas pós créditos. Uma que pode fazer com que haja uma continuação, caso a arrecadação desse filme consiga ser eficiente e outra ligando ao futuro filme Homem-Aranha no Aranhaverso que será uma espécie de crossover (choque de universo) de todos os Homens-Aranha já criados até então (também fica pra outro dia essa história).

A trilha sonora conta uma música composta pelo rapper Eminem, que só toca nos créditos. Porém, não empolga ou mesmo será memorável.

Venom é só mais um filme de personagem de quadrinhos sem expressão. Não é o pior filme da história, porém está longe de ser um filme que deve ser visto com necessidade. Mesmo tendo apresentado uma origem interessante e alguns dos efeitos serem bacanas, não é um filme que você deve ver para ampliar sua visão quanto a filmes de personagens de quadrinhos. Ele deve ser encarado como diversão de 2h e só.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.