27
dez
2018
Crítica: “YOU” (1ª temporada)
Categorias: Netflix Radioativa, Pipoca Seriados • Postado por: Ana Gambale

YOU

Sera Gamble e Greg Berlanti, 2018
Roteiro: Sera Gamble, Greg Berlanti, April Blair, Michael Foley, Neil Reynolds, Adria Lang, Amanda Zetterström, Caroline Kepnes e Kelli Breslin.
10 episódios (40-50 min.)
Netflix

Os últimos anos têm sido importantes para várias questões sociais, e, como não podia deixar de ser, o cinema e a tv vêm abordando esses assuntos de diversas maneiras. É ótimo ver uma série ou filme retratar um problema como o relacionamento abusivo. É melhor ainda quando essa abordagem vem num formato inovador. YOU é um thriller psicológico sobre um homem, Joe (Penn Badgley), que se apaixona por uma moça, Beck (Eizabeth Lail), e rapidamente se torna obcecado por ela. Mas não só isso. A história toda é contada pelo ponto de vista do Joe. Apesar de isso diminuir o tom sombrio, não é uma ferramenta da série para justificar as ações dele. Pelo contrário, a primeira metade da temporada é recheada de cringe moments que fazem o protagonista de cara ser detestável. Esse é o apelo. Você assiste pra saber qual é a próxima coisa absurda que ele vai fazer.

YOU é uma série que usa de vários recursos cinematográficos como câmera subjetiva, analogias literárias e forshadowing. O mais importante deles, entretanto, é a narração do personagem principal conversando com a Beck, seu objeto de desejo. Através dela o público entende as motivações por trás de cada ação de Joe, e mostra como ele acredita que tudo que faz é altruísta, é pela Beck. Também é através da narração que é introduzido outro elemento narrativo: a metalinguagem. Todas as razões que Joe tem pra querer se livrar das pessoas na vida de Beck são os mesmos motivos pelos quais ela está em perigo com ele. “Honesty, Beck. You’re lucky to have me.” Ele diz pouco antes de atacar à amiga, Peach, no parque. Ele a vê rodeada de pessoas tóxicas sem perceber que é o pior de todos.

A série brinca com momentos onde Joe aparenta ser uma pessoa normal, que realmente só quer o bem da Beck enquanto eles estão juntos, e que tenta se distanciar dela depois que terminam, e isso agrega uma forma de identificação com o público, e isso é importante, pois faz um paralelo com a realidade, e mostra que um psicopata pode aparentar ser uma pessoa amável e carinhosa. E ele é. Mas isso faz com que o comportamento dele seja aceitável? Não, e a série também te mostra isso, quando rapidamente Joe se torna novamente obcecado em ser o “homem certo” para Beck. Em sua cabeça, é amor verdadeiro, e tudo vale por amor verdadeiro.

Os episódios finais da temporada dispensam a dualidade, e mostra a verdadeira face do protagonista, tanto com a revelação da história da Candace, quanto com o desfecho do plot do Paco. Esse último, por sua vez, traz três perspectivas diferentes de uma história paralela com a de Joe: o Paco, como alguém que perpetua a personalidade de Joe, que por sua vez também veio de uma relação abusiva com Mooney. O Ron, padrasto de Paco, que traz para o público um ângulo externo da história do homem abusivo. E Claudia, o olhar realista de uma mulher que tem a clareza de que é presa numa relação assim, em oposição a Beck, que não tem ideia de com quem está e se perde nos discursos que Joe usa não só consigo mesmo como com ela.

Apesar de todas essas camadas baseadas no ponto de vista do protagonista, YOU sabe trabalhar bem os outros personagens, o que traz um ótimo momento de transição entre a perspectiva de Joe e a entrada da narração da Beck, Peach como uma personagem muito interessante e com profundidade, e, por fim, Candace, que foi mencionada durante toda a temporada e pouco apareceu, mas que trouxe o gancho que provavelmente guiará a próxima temporada, já confirmada pela Netflix. Essa talvez tome um rumo bem diferente da abordagem vista no primeiro ano da série, e potencialmente tem a chance de explorar ainda mais o assunto de formas bastante criativas, mas também pode trazer decepções pra uma história que, de certa forma, já teve um desfecho.



Maratoneira oficial. Doida das séries e dos musicais. Apaixonada por Disney e apreciadora do terror fantástico. Tudo o que me fizer sair das leis da realidade eu to aceitando. Estudo cinema 7 dias por semana. Ainda há de chegar o dia que terei criatividade com palavras.