30
jan
2019
Crítica: “Bohemian Rhapsody”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2019 • Postado por: Ana Gambale

Bohemian Rhapsody

Bryan Singer e Dexter Fletcher, 2018
Roteiro: Anthony McCarten
20th Century Fox

Não há dúvidas de que Queen é uma das maiores bandas de toda a história da música. Uma banda que quase 30 anos após o seu término não só ainda tem os fãs originais como adquire novos o tempo todo. Um filme biográfico é algo que só tende a aumentar o apreço que as pessoas têm à banda e ao seu vocalista, Freddie Mercury. É exatamente a isso que Bohemian Rhapsody veio. O filme conta 15 anos da história da banda, exaltando alguns dos momentos mais icônicos.

Rami Malek (Mr. Robot) interpreta Farrokh Bulsara, mais conhecido como Freddie Mercury, no que talvez seja o papel mais importante de sua carreira (mesmo porque garantiu pra ele um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar, não é mesmo?) faz um trabalho sólido, assim como os intérpretes dos outros membros da banda, e consegue passar a personalidade excêntrica do cantor, ainda que careça de um nível maior de entrega nas cenas das performances, que são recriadas exatamente como se vê nos registros originais. Se você for procurar os shows da banda na internet – o que não é muito difícil – e comparar, você pode notar as diferenças nas expressões faciais. Não que isso desmereça tanto assim o trabalho de Malek, porque um performer como o Freddie Mercury não pode ser a tarefa mais fácil e não é de se estranhar que só o próprio Mercury poderia reproduzir, já que ele era exaltado por um motivo (mesmo assim, tacar uma água pra fazer o suor na cara do ator não custava nada)

Apesar da inclinação para o drama de espetáculo que esse filme carrega, a interpretação da Lucy Boynton como Mary Austin não foi convincente. O que aconteceu foi uma tentativa de uma atuação visualmente agradável mas que teve uma entrega rasa na carga emocional. As aparições da atriz no longa chegaram a ser um tanto irritantes.

Um ponto alto do filme foram as sequências que mostravam a criação das canções e os números musicais da banda, que foram as partes de mais expectativa para os fãs do trabalho do Queen no cinema. Cada um queria ver a sua música preferida ter o seu momento de destaque no filme. Todos os maiores sucessos tiveram atenção no filme, seja mostrando motivo da canção ter sido pensada, ou tocada no ato final: a reencenação de um dos maiores – senão o maior – show já feito pelo grupo. São a esses momentos também que se deve a indicação na categoria de Melhor Montagem no Oscar desse ano. Essa montagem é composta de elementos com toda uma estética que trouxe ainda mais a nostalgia do que era a banda Queen e porque ela estava sendo celebrada através deste filme.

Essas sequências, porém, mesmo sendo um ponto positivo, evidenciam o principal defeito do filme: ele conta somente parte da história. Esse foi o principal motivo que tornou a vitória em Melhor Filme de Bohemian Rhapsody no Globo de Ouro consideravelmente polêmica.

Os conflitos e controvérsias do grupo foram então interrompidos pelas montagens cheias de cores e movimentos que acompanham as músicas. Portando elas estão ali para servir esses dois propósitos: cortar os momentos não aprovados pela família e integrantes ainda vivos e trazer o sentimento para os fãs. Isso ajuda ainda mais a fazer o filme ter a função de homenagem mais do que uma biografia de fato.

O terceiro ato se compõe quase inteiramente do concerto da banda no Live Aid, um show beneficente que teve a participação dos maiores artistas britânicos da década de 80 e ficou marcado como um dos maiores shows que o grupo fez, sendo transmitido pela TV e acompanhado por cerca de 1,5 de pessoas em mais de 100 países. Nessa cena em especial, a atuação de Malek é coreograficamente uma reprodução da apresentação original, com as 6 músicas sendo performadas no filme com a mesma noção de espaço, porém trazendo uma direção de fotografia adaptada, além da recriação da gigantesca plateia dentro do estádio de Wembley que teve o seu volume devidamente evidenciado pela movimentação de câmera e montagem. Esse é mostrado no filme como o momento do ápice da vida do Freddie Mercury, como se todos os elementos da cena estivessem apontando para ele. E é com ele que o filme é encerrado, ocultando inclusive o momento da morte do cantor – que é mencionado somente com textos e algumas imagens reais antes dos créditos.

O gênero “filme de nostalgia” que anda sendo muito explorado em Hollywood – e também criticado – recebe, com Bohemian Rhapsody, uma boa adição à lista. Tem seus defeitos, mas no geral cumpre o que promete: traz o momento de emoção que os fãs gostariam de experienciar. E é assim que ele deveria ser julgado quando analisado.



Maratoneira oficial. Doida das séries e dos musicais. Apaixonada por Disney e apreciadora do terror fantástico. Tudo o que me fizer sair das leis da realidade eu to aceitando. Estudo cinema 7 dias por semana. Ainda há de chegar o dia que terei criatividade com palavras.