26
jan
2019
Crítica: “Corpo Fechado”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Corpo Fechado (Unbreakable)

M. Night Shyamalan, 2000
Roteiro: M. Night Shyamalan
Touchstone Pictures

5

M. Night Shyamalan. O diretor conhecido pelos plot-twists ao final mais inacreditáveis possíveis, já presenciou de tudo. Dos voos altos com filmes como O Sexto Sentido, até pontos baixos como A Dama na Água e O Último Mestre do Ar, falha tentativa de adapatação do anime exibido pela Nickelodeon.

Antes do mesmo alçar voos com filmes como A Vila, Fragmentado, e decepcionar em certos casos, como em O Último Mestre do Ar, tentando fazer uma adaptação do desenho Avatar – A Lenda de Aang, o mesmo foi descoberto pelo mundo com O Sexto Sentido e Corpo Fechado.

Vemos uma criança nascendo. Eis que um grupo de pessoas se aproxima da mulher. A criança não para de chorar. O médico explica que o mesmo sofreu fraturas intrauterinas. Algum tempo depois no futuro, vemos David Dunn (Bruce Willis) dentro de um trem com destino a Filadélfia. David então sente algo estranho. Vemos um garoto vendo TV e logo o mesmo sintoniza e vê um acidente de trem, o mesmo que seu pai estava. O homem acorda na enfermaria de um hospital e diz que estava no trem. O medico lhe informa que o mesmo descarrilhou e só ele havia sobrevivido.

David, um dia, ao ir ao funeral das vitimas de seu acidente, recebe uma carta, com a logo de uma loja, onde a mesma diz: “Você já ficou doente alguma vez?”. David pergunta ao seu patrão e sua mulher, porém a resposta é não. Vemos agora o menino frágil do inicio, agora crescido. O mesmo adotou uma vida de reclusão, já que o mesmo fraturou alguns ossos, recebendo o apelido depreciativo de Sr. Vidro (Mr. Glass). Sua mãe o incentiva a ir até lá fora, pegar um presente que ela havia deixado em um banco de praça. Ele abre o envelope e lá está uma revista em quadrinhos. Os anos passam e Elijah Price (Samuel L. Jackson) agora comanda uma loja de venda de artes de quadrinhos. David vai até a loja e lá Glass partilha de sua visão com Dunn.

O roteiro do filme é bem estruturado. Essa seria a semente da agora trilogia do mundo fantástico do diretor. Elijah explica que o mesmo é frágil, fraco e muito vulnerável e pensava que poderia existir alguém diametralmente oposto: forte, resistente, invulnerável. O melhor ponto do filme são os diálogos, visto que são eles que constroem esse rico universo. A trama segue de forma intricada e bem pausada, desenvolvendo cada personagem em seus mínimos detalhes. As novas gerações não irão gostar, pois cada vez estão acostumadas a consumir conteúdo em ritmos tão frenéticos que, logo poderão dizer que filmes só poderão ter 5 minutos de duração.

Há algumas referencias quanto a construção do personagem de Dunn: no quesito dos poderes, o mesmo possui semelhanças com heróis fortes, porém não num nível descomunal como Hulk, mas sim, algo mais próximo de Capitão América. Seu passado doloroso, suas crises no casamento o aproximam do Homem-Aranha, ou mesmo Batman, porém num nível humanizado, até mesmo a sua habilidade de premonição é similar ao sentido aranha do Cabeça de Teia.

O mesmo pode ser dito de Glass: mesmo sendo frágil, o mesmo demonstra uma inteligência acima do normal, colocando no patamar de grandes gênios como Sr. Fantástico, porém sua capacidade investigativa acaba fazendo referencia à um dos personagens já interpretados por Jackson nas telonas: Nick Fury, o chefe da S.H.I.E.L.D., que por sua vez, teve o rosto inspirado no próprio ator.

O figurino é bem interessante. Glass veste tons arroxados, na maior parte do tempo, de forma a pontuar sua principal característica: a frieza, o distanciamento. Dunn veste camisetas em tons pastéis, mostrando que sua vida tem contornos acinzentados, causados não apenas por seu casamento instável, como também pelo seu passado que, agora, volta a assombrá-lo, conforme Glass exerce influência em sua vida.

A direção de fotografia é criativa. Eduardo Serra usa do jogo de luzes, quando lhe convém, a fim de dar uma profundidade aos personagens, principalmente em Glass, que sempre possui uma parte do rosto sempre voltada para a sombra.

As atuações são impecáveis. Bruce Willis é o amargurado pai de família sem rumo. Samuel L. Jackson é o instigante aficionado por quadrinhos. Robin Wright Penn é a esposa que vive num casamento fraturado sem perspectiva nenhuma.

Corpo Fechado é um filme que faz referencias ao universo dos super-heróis como um todo. Tem um estilo igualmente semelhante ao visto nas paginas das revistas, porém nem todos terão paciência de aguentar o estilo mais lento de acompanhar o desenvolvimento da trama e na construção dos personagens. Bem amarrado e bem escrito, o filme é recomendável aos fãs do cineasta, aos que curtem experiências diferentes. Não é tão recomendável aos fãs de quadrinhos, pois muitos querem ver os heróis que cresceram lendo as aventuras, a não ser que este mesmo fã esteja disposto a se livrar de preceitos e dar uma chance à uma roupagem nova com estes elementos.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.