17
jan
2019
Crítica: “Sex Education” (1ª temporada)
Categorias: Netflix Radioativa, Pipoca Seriados • Postado por: Ana Gambale

Sex Education

Laurie Nunn, 2018
Roteiro: Laurie Nunn, Sophie Goodhart, Laura Neal, Laura Hunter, Freddy Syborn.
8 episódios (40-50 min.)
Netflix

Na última sexta-feira, a Netflix estreou sua nova comédia adolescente, Sex Education, uma série britânica que já traz no nome a sua proposta. Ela conta a história de Otis (Asa Butterfield), um adolescente que tem dificuldades sexuais e uma mãe que é psicóloga sexual (Gillian Anderson) e que não se reprime em tratar qualquer tipo de tópico envolvendo esse assunto. Junto com Maeve (Emma Mackey), uma menina independente e Eric (Ncuti Gatwa), seu melhor amigo, acabam formando um negócio de terapia sexual no colégio.

A série vem como uma aula de educação sexual em forma de comédia adolescente, quando, ao início de cada episódio, introduz a questão principal que será tratada ao longo dele. Já no piloto, ela mostra que não têm restrição nenhuma, nem visual e nem verbal. A intensão é mesmo desmistificar o sexo, e nada melhor do que um ambiente onde esse assunto se vê mais censurado: uma escola cheia de adolescentes, que é, ao mesmo tempo, o lugar onde mais se deveria haver abertura para isso.

O piloto de Sex Education faz um ótimo trabalho de, não só apresentar a proposta da série, como introduzir o conflito de cada personagem num arco próprio e mostrar o quão tabu é o sexo, tanto para os adolescentes como para os adultos. Esse último se vê evidente nas cenas com a Jean, mãe de Otis, e seus clientes, e também na conversa entre ela e o Adam (Connor Swindells). Este, por sua vez, o típico bully da escola, já na cena de abertura, dá vários indícios dos plots em potencial e, por incrível que pareça, todos eles são explorados, em sua grande maioria através das suas relações com o Eric e com o seu pai. Apesar disso, o personagem ainda tem muito a ser desenvolvido, e fica como uma das maiores promessas para a próxima temporada, já que a sua jornada parece apenas estar começando.

Eric, talvez o personagem mais carismático da série, bastante complexo e com várias dimensões, otimamente interpretado por Ncuti Gatwa, traz as questões de orientação sexual que não poderia faltar numa série como essa. Desde assuntos como a androginia, violência contra homossexuais e assuntos de religião e família, todos bem tratados e com um arco completo para a primeira temporada, ainda que deixem espaço para óticas que ainda podem ser exploradas numa segunda. Apesar de ser a maior fonte de momentos cômicos, como é comum com personagens LGBTQ+, ele não deixa de ser devidamente aprofundado, com cenas dramáticas muito bem interpretadas.

Maeve é a típica bad girl do colégio, mas que vê em Otis uma forma de ajudar os outros estudantes com um assunto que numa escola de interior dificilmente é abordado, e ganhar dinheiro ao mesmo tempo, o que vemos ao longo da temporada que é algo que ela precisa. Otis é obviamente apaixonado por ela, porque séries adolescentes não podem ter protagonistas héteros que não se apaixonam um pelo outro em algum momento. Porém Maeve consegue quebrar a unidimensionalidade e guia os temas de vertente feminina da série como slut shaming (quando uma menina/mulher é taxada de vadia pelos colegas, ainda que o motivo seja originado por um rumor), aborto e feminismo de uma forma geral. O episódio do aborto trata do tema de maneira a analisar várias perspectivas, como a visão religiosa a respeito, o abordo em várias idades diferentes e seus motivos e a necessidade da pessoa de manter isso um segredo. Apesar disso, o acontecimento jamais volta a ser discutido na série, apesar de envolver personagens que continuam se relacionando durante toda a temporada, e ser mais relevante por mais tempo do que o fato de o Jackson ter pagado o Otis pra ajudá-lo a conquistar a Maeve, por exemplo.

Já Otis é o personagem que mais tenta fugir dos clichês, e de certa forma consegue, mas ao mesmo tempo é o mais carregado deles. É entendível que dificilmente uma série se vende sem o underdog que se apaixona pela garota descolada, se atrapalha pra fazer as coisas, tenta se expressar e não consegue, que é socialmente desajeitado, que “gosta de ficar no canto sendo invisível”, mas também é de se esperar que uma série como Sex Education, na qual a maior promessa é ser ousada e fora dos padrões, isso fosse quebrado, por isso Otis veio como uma leve decepção. A maior delas, aliás, era o potencial da série de falar de um assunto extremamente negligenciado em absolutamente qualquer mídia de entretenimento: a assexualidade. Otis se apresenta no piloto com praticamente todas as características de alguém que pertence ao espectro assexual – espectro esse que aborda assexualidade, demissexualidade, entre outros nos quais Otis poderia se encaixar – e isso é levado até o último minuto da temporada. Entretando, esse plot é jogado fora quando, num certo momento, a série sufere que a condição de Otis teve origem num trauma de infância. Essa abordagem classifica o protagonista num estigma que os assexuais tentam evitar. Um estigma que muito tempo atrás, os homossexuais tinham que se esquivar e do qual lutaram muito para se livrar. O assunto é totalmente tratado de uma ótica preconceituosa – e já utrapassada – da psicologia e perde a grande oportunidade de trazer um assunto que carece de visibilidade na questão da sexualidade e orientação sexual.

Da mesma forma que alguns dos outros núcleos, o assunto foi deixado em aberto para ser futuramente melhor explorado. Então fica a esperança de que a série estava preparando o terreno para trazer assuntos ainda inexplorados nesse tipo de produção – e vários outros tipos também – e surpreender o público ao invés de levar o foco a dramas adolescentes sem profundidade, fazendo jus ao esforço para escapar dos clichês que a série faz.



Maratoneira oficial. Doida das séries e dos musicais. Apaixonada por Disney e apreciadora do terror fantástico. Tudo o que me fizer sair das leis da realidade eu to aceitando. Estudo cinema 7 dias por semana. Ainda há de chegar o dia que terei criatividade com palavras.