29
jan
2019
Crítica: “Vidro”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Vidro (Glass)

M. Night Shyamalan, 2019
Roteiro: M. Night Shyamalan
Universal Studios

4

Quando Corpo Fechado estreou em 2000, poucos imaginariam que pouco mais de 15 anos depois, voltaria a ser abordado, mesmo que indiretamente. Quando foi revelado no fim de Fragmentado que a trama se passa no mesmo universo do filme de 2000, todos ficaram boquiabertos e, evidentemente, ansiosos por uma continuação desse universo. Eis que chegamos ao mais recente capítulo dessa trilogia que pegou todos de surpresa. (Caso não tenha lido os posts a respeito do filme, as críticas estão aqui e aqui).

O filme segue os eventos ao fim de Fragmentado. Depois de 3 semanas do sequestro seguido de morte das 4 vitimas, Kevin Wendell Crumb/A Horda (James McAvoy) volta a sequestrar novas jovens. David Dunn (Bruce Willis) está no encalço, visto que o mesmo assumiu a alcunha de vigilante. David encontra Kevin sob a persona de Hedwig e descobre o paradeiro das jovens. Kevin se transforma na Besta e parte para briga com Dunn. Porém, ambos acabam sendo enrascados pela polícia e levados a um sanatório.

Lá a doutora Ellie Staple (Sarah Paulson) tenta convencer tanto Dunn como Kevin que os mesmos não possuem capacidades especiais. Conta também com a presença de Elijah Price/Sr. Vidro (Samuel L. Jackson), que está lá desde que Dunn descobriu os crimes cometidos por ele.

O roteiro é elaborado de forma convincente. No primeiro ato, vemos os protagonistas trancados numa instalação fortemente selada, para que nenhum paciente possa fugir. Eis que o filme vai progredindo a fim de mostrar novas facetas de Kevin. Também temos a presença de Casey (Anya Taylor-Joy) que volta a se encontrar com Kevin. A medida que o filme progride, a trama vai se intensificando e logo vemos surgir o sentimento de urgência e tensão presentes na trilogia.

As rimas visuais são abundantes no filme. Vemos rimas a várias cenas de Fragmentado e Corpo Fechado. Os destaques vão para as cenas onde a besta mata as pessoas num abraço esmaga ossos fatal, estilo Zangief. Os enquadramentos são fechados de forma a transmitir claustrofobia e apreensão ao espectador, elemento que o diretor sabe trabalhar bem.

Outro elemento bem pontuado é a direção de arte. Cada protagonista possui uma cor que os representa como um todo. Para Dunn, tons de verde, principalmente o mais escuro; para Kevin, o amarelo; Glass, o roxo. Esse aspecto é possível acompanhar durante o decorrer da película.

A marca registrada do diretor: os já famigerados plot-twists surpresa acontecem em várias partes do filme. Porém, os últimos momentos do filme pode deixar alguns bastante confusos quanto ao rumo que as coisas estão tomando, deixando-os com um gosto ruim na boca.

As atuações estão brilhantes. Novamente, os destaques vão para James McAvoy, que repete o brilhantismo, com as deveras personalidades diferentes que possui, sendo as destacadas Hedwig, Patricia, Dennis e a Besta. Bruce Willis volta como o vigilante amargurado David Dunn, que tenta conciliar sua vida de herói fora da lei com pai. Samuel L. Jackson reprisa seu papel de Vidro, porém só se torna um personagem ativo no meio do 2º ato, passando a maior parte do tempo imóvel.

O filme sempre brinca com as metáforas dos quadrinhos. No filme, há várias, principalmente a estrutura e ao modo como esses personagens são consumidos, servindo de reflexo da realidade ao qual nós estamos inseridos hoje, fazendo até alfinetadas ás Comic-Cons.

Anya Taylor-Joy mesmo voltando ao universo Shyamalan, porém sua participação é reduzida, não tendo o mesmo peso que teve em Fragmentado. Spencer Treat Clark volta a fazer o filho de Dunn. Algo bem acertado da parte do diretor, visto que, na grande maioria dos casos, troca-se o ator da primeira interpretação, mesmo que ele tenha crescido por outro. E claro, o nosso querido Shyamalan volta a fazer a sua comum participação especial (Stan Lee feelings) como Hitchcock fazia em alguns de seus filmes, sendo o vendedor de drogas do estádio de Corpo Fechado reabilitado.

Vidro é o filme que desfragmenta o mundo dos quadrinhos, trazendo uma nova abordagem até então pouco explorada pelos mesmos. Escancarando como um vidro quebrado, algo que até então estava selado dentro de um corpo que poucos entendiam. É o encerramento satisfatório de uma inusitada trilogia. Mesmo tendo um desfecho deveras confuso e quebra-clima, segundo alguns, ainda assim se revela um filme acima da média.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.