02
fev
2019
As cenas de filmes que marcaram 2018!
Categorias: Artigos • Postado por: Matheus Benjamin

Durante um ano todo, muitos e muitos e filmes são lançados comercialmente. E, não apenas. Muitos filmes são lançados em festivais, divulgados em mostras, exibidos na televisão. 2018 pode não ter sido um grande ano em questões econômicas, sociais e políticas, mas o cinema não parou no tempo e continuou nos entregando arte em belíssimas formas de entretenimento e reflexão. Vejamos alguns exemplos:

Yalitza Aparicio interpreta a empregada doméstica Cleo, em “Roma” (Alfonso Cuarón, 2018)

Começo enaltecendo a grandiosidade de Alfonso Cuarón com seu drama entitulado Roma, uma belíssima homenagem à sua babá (a quem o diretor dedica o filme), uma pessoa que fora bastante importante em sua infância. Ao optar em filmar seus personagens de forma tão íntima, Cuarón mergulha na trajetória de Cleo, que logo na primeira cena joga baldes de água no chão de uma casa de classe média no bairro homônimo ao título do filme trazendo os créditos de forma bastante tranquila. Realizar esse projeto, com seu ritmo desacelerado e fotografia em preto e branco em pleno 2018 é desafiar uma plateia frenética e acostumada com outro tipo de narrativa. E a direção de suas cenas valem a pena o “esforço”, afinal de contas, Roma tem, em minha opinião, as duas cenas mais marcantes de 2018: o difícil parto que Cleo precisa passar e a libertação de um possível trauma ou até mesmo uma ferida aberta que necessitava de cura após o salvamento de suas crianças do afogamento na praia. Cuarón filma Cleo bem de perto; é possível que o espectador sinta sua angustia latente nas duas cenas conforme o tempo avança. Os planos escolhidos evidenciam essa relação tão íntima. Suas dez indicações ao Oscar são mais que merecidas e fazem história!

E vindo para o Brasil, lançamos coisas muito boas nesse ano que passou. Não a toa, tivemos 22 filmes elegíveis a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Sabemos que a vaga ficou para O Grande Circo Místico, que ainda não pude ver, mas elenco aqui outros filmes que acredito merecerem destaque. Um deles é o intenso e visceral O Animal Cordial, dirigido por Gabriela Amaral Almeida e produzido por Rodrigo Teixeira. Protagonizado pelos excelentes Murilo Benício, Luciana Paes e Irandhir Santos, outros destaques do longa são Camila Morgado, Ernani Moraes e Humberto Carrão. O filme se passa em um restaurante da classe média paulistana e deixa o espectador, a todo momento, bastante aflito. A tensão me lembrou Corra!, de Jordan Peele (que eu havia acabado de assistir), são dois filmes, inclusive, que mereciam mais reconhecimento. Destaco a cena em que a personagem de Camila Morgado é praticamente molestada, junto da cena final com as personagens de Benício e Paes.

“O Animal Cordial”, de Gabriela Amaral Almeida foi um dos 22 filmes brasileiros elegíveis ao Oscar 2019

Ainda com a pegada do horror/terror/suspense/tensão, temos As Boas Maneiras, da dupla Rojas-Dutra, responsável por Trabalhar Cansa e Quando eu era vivo, entre outros sucessos. O filme é claramente dividido em duas etapas, contando com uma atuação brilhante de Marjorie Estiano. As Boas Maneiras exalta versões do folclore brasileiro ao se lembrar de lendas horripilantes contadas oralmente em tempos antigos. Vale a pena conferir, sobretudo pelas cenas feitas com computação gráfica, marcando alguns estudos de gênero no Brasil. Outro que também tem uma mulher na direção é Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor, conhecida anteriormente pelo ótimo Boa Sorte, de 2014. Daniel de Oliveira, Marco Ricca e Malu Galli, nos papeis principais, sofrem com as dores de seus personagens em cena e trazem belíssimas atuações. O longa discute temas muito atuais, como histeria coletiva e compartilhamento de informações por meio de mensagens via celular. Todas as cenas de extremo silêncio e incômodo dos personagens são marcantes, sobretudo quando o personagem de Daniel de Oliveira é questionado.

Dupla Rojas-Dutra entrega mais um filme incrível com “As Boas Maneiras”

Pra finalizar, destaco a cena final de Benzinho, longa de Gustavo Pizzi, escrito por ele em parceria com Karine Teles, que também protagoniza o longa. Um filme que certamente irá fazer diversas mães de todas as classes sociais possíveis se identificarem com Irene ao ver seu filho ir para longe de casa. Benzinho ainda conta com atuações incríveis de Adriana Esteves e Otávio Muller e o longa é bastante eficiente ao mostrar uma família (quase) disfuncional em seus dramas e dilemas, seja pela ida do filho para longe, às dividas e os conflitos gerados pelos desentendimentos familiares. Vale a pena se emocionar com esses personagens e sua belíssima fotografia e direção de arte.

Fica a dica de grandes filmes do ano de 2018 e esperamos que em 2019 possamos nos emocionar e deliciar ainda mais com o cinema!



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba" e produzi outros tantos, entre eles "Alice.", pela Pessoas na Van Preta.