24
fev
2019
Crítica: “Assunto de Família”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2019 • Postado por: Ana Gambale

Assunto de Família

Hirokazu Kore-eda, 2018
Roteiro: Hirokazu Kore-eda
Gaga Corporation

Assunto de Família (Manbiki Kazoku) é um filme japonês dirigido por Hirokazu Kore-eda, indicado a Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2018. Considerado por muitos como uns dos melhores filmes do ano, ele mostra uma família de cinco pessoas que vivem em estado de pobreza e praticam pequenos furtos em mercados e lojas para sobreviver.

O filme abre com uma cena de furto do homem e um menino, que têm um esquema próprio para levar os mantimentos sem chamar a atenção de ninguém. A partir daí, o ponto de virada para o segundo ato se dá no momento em que eles se deparam com uma menininha que está sozinha e triste, e a convidam para sua casa. Um ato que obviamente denota sequestro, mas que mal é notado pela família da criança.

Dessa forma, conforme o filme passa, os personagens vão sendo apresentados, um a um, e também inseridos na dinâmica familiar. Assunto de Família tem uma trama guiada pelos personagens. E isso é muito bem feito, pois, apesar de ter o plot da adição da menina à família e suas implicações – considerando as circunstâncias em que isso aconteceu, além das interações dela com cada personagem – o que é enxergado em primeiro plano são as relações dos membros da família entre si.

Esses desenvolvimentos interpessoais também apresentam alguns diálogos que faz o espectador se perguntar como essa família foi formada. Primeiro há o homem e o menino do início do filme, que realizam os furtos. Eles são muito próximos e se comportam como pai e filho, e ainda Shota, o menino, alega que tem dificuldades de dar esse título a Osamu. Com isso sabe-se que eles não viveram sempre juntos, e que, assim como Yuri, a menininha que acabou de entrar para a família, o menino foi inserido nela em algum momento também. Ao mesmo tempo, Shota tem dificuldades de aceitar a nova membra da família, já que ela acaba sendo levada nos furtos junto aos dois, que ele considerava um momento de conexão familiar e que agora tem uma intrusa.

Já entre os adultos, Nobuyo faz o papel da mãe da família, e aos poucos é mostrado como ela se sente em relação aos outros. Ela é a que mais se liga à Yuri e cuidando dela entende detalhes de como era a vida da menina antes de entrar pra essa família, descobrindo que ela não era bem tratada e jurando cuidá-la de maneira diferente. Aki e Hatsue se comportam como avó e neta, são bem unidas. Aki trabalha num clube de entretenimento noturno, através do qual é mostrado que ela se sente sempre sozinha, apesar do ambiente superlotado que encontra quando volta pra casa. Esse relacionamento também se desenvolve para revelar fatos importantes sobre essa família.

Todas essas dinâmicas pessoais que acontecem no trabalho de Kore-eda revelevam boas atuações e personagens extremamente carismáticos. A pobreza da família da espaço para que os momentos das refeições, extensamente utilizados pelo diretor, sejam cheios de significado, além de servirem de cenário para os diálogos familiares, elemento tão central em Assunto de Família. Além disso, também dão um lugar de destaque para a culinária e cultura japonesa.

Entre momentos de união, discussões, conexões pessoais, ensinamentos, alegria com a companhia de uns aos outros, Assunto de Familia vai aos poucos preparando o seu público para as implicâncias de se ter uma família que foi literalmente construída, membro por membro, por pessoas que, por diferentes motivos, viviam sozinhas no mundo mas, encontraram naquele universo uma maneira de lidar com isso. No final das contas, Assunto de Família fala sobre como família é algo que se conquista, mesmo que por caminhos tortos, mesmo sem ter a aprovação de quem não entende, e mesmo numa situação de miséria. Dentro dessas condições, cada um desses personagens tinha em que e no que se apoiar. Nenhum deles jamais estaria sozinho, mesmo que literalmente estivessem, mesmo não tendo dinheiro quase que nem pra sobreviver, mesmo no momento de suas mortes.



Maratoneira oficial. Doida das séries e dos musicais. Apaixonada por Disney e apreciadora do terror fantástico. Tudo o que me fizer sair das leis da realidade eu to aceitando. Estudo cinema 7 dias por semana. Ainda há de chegar o dia que terei criatividade com palavras.