17
fev
2019
Crítica: “Green Book: O Guia”
Categorias: Críticas • Postado por: Luiza Reis

Grenn Book: O Guia (Green Book)

Peter Farrelly, 2018
Roteiro: Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly
Universal Pictures

4

Green Book – O Guia parece ter sido feito em laboratório, em um ambiente controlado, já que segue uma fórmula perfeita para ser indicado ao Oscar e, ao mesmo tempo, agradar o público. Desde o fato de ser ambientado em 1962, um período histórico americano que sempre consegue levantar muitas discussões – como questões raciais e a Guerra Fria – até a proposital personalidade oposta e conflitante dos dois protagonistas. Esse é um recurso de roteiro simples, mas válido, que proporciona que eles cresçam e aprendam um com o outro ao longo do filme.

Outro aspecto que evidencia essa fórmula perfeita é o fato de o enredo desenrolar-se majoritariamente durante uma road trip, o que por si só é empolgante e apela para o sentimento do público em relação a viajar. Esses cenários – do carro, dos hotéis e das várias paisagens ao sul dos Estados Unidos – proporcionam cenas cômicas e dramáticas em várias localidades, mantendo o interesse da audiência desperto para saber como a história prosseguirá através das variadas locações e, claro, como será o desfecho da jornada dos heróis. Para completar a fórmula perfeita, o filme é baseado em uma história real, o que sempre satisfaz a curiosidade interior inerente de cada um, preenchendo o instinto humano que ama fofocas.

Assim, é claro que o filme é um conjunto de clichês que agradam a academia e o público, e isso não é um ponto negativo. Green Book – O Guia é tudo que se procura em um clichê: um que seja bem executado de fato. O filme realmente é um sucesso naquilo que se propõe, e conhece seus limites e suas possibilidades e sabe trabalhar muito bem com o material que tem, sem tentar entregar mais, nem menos, do que propõe.

Evidentemente, o filme tem suas falhas, como cenas que são tão propositalmente forçadas que ao serem analisadas por um tempo acabam perdendo a carga dramática verossímil e passam a ser meramente exageros cinematográficos. Por exemplo, quando Dr. Don Shirley desce do carro para fazer um discurso contundente sobre ser excluído no meio negro e no meio branco – o que é um levantamento altamente relevante e interessante – mas que perde seu peso quando percebemos que ele não precisava ter descido do carro para o fazê-lo, e que a descida fora apenas uma tática da direção para colocar o personagem sob a chuva e fazer da cena algo mais grandioso.

Em relação aos aspectos mais técnicos, como direção de arte e fotografia, o filme é um sucesso. Ele retrata de forma gloriosa a estética dos anos 60, especialmente ao passear por ambientes de luxo, que são pratos cheios para quem aprecia a arte daquela época. O personagem do Dr. Don Shirley tem um jeito peculiar em sua estética, que mistura referências africanas e ao mesmo tempo contemporâneas (de sua época, é claro), e toda a sua caracterização elegante ajuda a compor essa parte importantíssima de sua personalidade excêntrica e erudita, já que ele é, afinal de contas, um artista: um pianista.

A trilha sonora complementa o clima do filme, que embora trate de assuntos pesados, como racismo, acaba sendo leve e fluida. Ela também inclui uma música tocada pelo verdadeiro Dr. Don Shirley e mais algumas outras originais, feitas pelo compositor do filme Kristopher Bowers. Por falar no personagem do Dr. Shirley, é imprescindível ressaltar a atuação de Mahershala Ali e em como ele interage de maneira natural com Viggo Mortensen, que interpreta seu motorista, Tony Vallelonga/Lip. A química entre eles é tão verossímil que é difícil olhar para o ator de Moonlight agora sem a aura excêntrica do Dr. Shirley e complicado desassociar a pose de brutamontes italiano de Mortensen, mesmo que antes ele tenha interpretado o marcante rei Aragorn, na trilogia do Senhor dos Anéis.

O roteiro aposta em diálogos envolventes, divertidos e simples, mas que tentam acrescentar um toque filosófico em questões pilares e pontuais, com as quais todos os espectadores podem identificar-se: família, paixões, carreira, entre outros. O guia em si, que nomeia o filme (Green Book), não é um ponto tão central no roteiro, o que não é um problema, apenas um detalhe. Em relação a abordagem do filme sobre o racismo é possível perceber que o roteiro não tenta impor uma cartilha, nem necessariamente demonizar as pessoas racistas, mas sim deixar claro como é uma falha de caráter literalmente irracional e, quando se pensa um pouco sobre e se permite questionar, não há porque permanecer com esses ideais. Isso fica bem exemplificado no próprio crescimento do motorista Tony.

A direção de Peter Farrelly, conhecido por comédias como Debi & Loide (1994) e O amor é cego (2001), possui alguns resquícios de sua experiência: cortes rápidos e com ótimo timing e, de forma geral, é satisfatória e consegue entregar bem a obra.

Eu não chamaria o filme de inesquecível, ele é bem amarrado e quase impecável, mas carece de um elemento inovador que faça com que seja realmente notável na plural indústria cinematográfica. Dito isso vale ressaltar que ele consegue atingir muito bem o objetivo de agradar a academia e o público em seus 130 minutos de duração, que arrancam risadas e talvez até mesmo uma lágrima ou outra.



19 anos, estudante de arquitetura e urbanismo e entusiasta de todas as formas de arte. Ainda apaixonada pela nouvelle vague, mas tenho curiosidade de sobra para me aventurar por outros estilos, gêneros, períodos, diretores (as) da sétima arte.