15
fev
2019
Crítica: “Guerra Fria”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2019 • Postado por: Ana Gambale

Guerra Fria (Zimna wojna)

Paweł Pawlikowski, 2018
Roteiro: Paweł Pawlikowski e Janusz Głowacki
Kino Świat

4

Guerra Fria é um drama histórico polonês que se passa entre 1949 e 1963 e conta a história dos encontros e desencontros de Wiktor e Zula durante esse tempo. É dirigido por Paweł Pawlikowski. É inevitável comparar esse filme com Roma, do Alfonso Cuarón, por conta das suas similaridades em estilo e já começando pelo fato de que os dois contam histórias intimistas que aconteceram em meio a um importante período histórico de seus respectivos paíse. Não só isso, mas os dois competem entre si em algumas categorias no Oscar 2019, e por mais que Roma tenha tido o favoritismo de todas as premiações até agora, Guerra Fria é um concorrente fortíssimo que não merece ser ignorado.

Ainda fazendo uma comparação, mas dessa vez técnica, Guerra Fria, assim como Roma, é em preto e branco, porém com o formato de tela em 3:4, para remeter ao período em que ele se passa. Isso faz com que, apesar do mesmo efeito ter sido usado, eles terem motivações completamente diferentes. Há também alguns planos contemplativos, principalmente na primeira parte do filme, mas são mais curtos e quase sempre com uma música ao fundo. Falando na música, a trilha sonora desse filme é incrível. Ela agrega no filme de diversas maneiras. A começar pelo fato de que ela acompanha cenas com planos bem parados ou extensos, e isso fornece um dinamismo às cenas que faz com o ritmo do filme não seja tão arrastado. As músicas, que são diegéticas, dão um contexto ao filme, principalmente pra quem não conhece a cultura da Polônia, ou o tipo de performance feita pelos personagens do filme, mas também temporalmente, por causa do formato fragmentado que o filme apresenta.

A própria cena de abertura já mostra a relação próxima que Guerra Fria tem com a música, mesmo que a Academia tenha ignorado isso na categoria de Melhor Trilha Sonora. Além disso, em todo momento que não há trilha sonora, existe algum tipo de barulho, conversas, som ambiente. São bem raros os momentos de silêncio. Ao acrescentar isso no estilo de direção e fotografia que o filme apresenta, Pawlikowski faz algo novo, uma mistura de atmosferas que resulta num longa que tem o potencial de agradar um espectro maior do que normalmente um filme de nicho alcança (ainda que Roma tenha conseguido esse feito mesmo sem essa sacada, mas isso nem pode ser atribuído às escolhas técnicas de nenhum dos dois filmes).

Na fotografia, Guerra Fria também surpreende. O preto e branco traz uma gama de possibilidades que o filme consegue explorar muito bem, ao combiná-lo com a impecável iluminação, resultando em ótimos usos de luz, contraste e ângulos, alternando entre cenas noturnas e diúmas, internas e externas, iluminação natural e artificial, câmera parada e em movimentos. Se há alguma categoria que esse filme realmente merece, chegando até a ser melhor que Roma, é a de Melhor Fotografia, devido ao trabalho delicado que o diretor Łukasz Żal realizou nessa obra.

Na questão de roteiro, Guerra Fria tem o foco nesse romance cheio de encontros e desencontros, onde o filme acompanha, na sua maioria, somente as partes em que os personagens estão juntos através dos anos. É um filme sobre um amor quase impossível, mas que pouco cativa. Independente da complexidade dos personagens, principalmente de Zula, o romance não tem um carisma que faz o espectador torcer pelo casal. O enredo tem uma qualidade meio Me Chame Pelo Seu Nome misturado com Antes Do Amanhecer, por conta do dilema “será que eles vão ficar juntos?”, os encontros e desencontros e o comportamento dramático dos personagens que remete a um Timothée Chalamet a la Elio. Apesar disso, o relacionamento deles fica cada vez mais intenso a medida que o tempo passa e também mais interessante. A forma como cada pessoa interpreta e é impactada com ele é relativo. A atuação de Joanna Kulig tem um tom bastante sutil e ao mesmo tempo expressivo, de um jeito que faz com que tudo o que o expectador precisa saber sobre o estado emocional  da personagem, ele entende por seu olhar. Enquanto isso, o personagem de Tomasz Kot, expressa bem mais através de falas e escolhas de personagens. Isso é proposital. A direção toma esse cuidado a fim de demonstrar a impulsividade do personagem. É claro durante o filme que as atitudes de Wiktor levam não só ele, como Zula, a enfrentarem situações difíceis. A diferença nas atuações era importante porque manifesta a forma que cada um deles lidava com essas situações.

Guerra Fria é um filme bem mais trabalhado na direção do que no roteiro. É um filme muito bonito e cheio de elementos audiovisuais criativos. O enredo, porém, não traz nada de muito inovador, mesmo que não chegue a ser ruim, ainda que isso possa justificar a ausência do longa nas categorias principais junto com Roma.



Maratoneira oficial. Doida das séries e dos musicais. Apaixonada por Disney e apreciadora do terror fantástico. Tudo o que me fizer sair das leis da realidade eu to aceitando. Estudo cinema 7 dias por semana. Ainda há de chegar o dia que terei criatividade com palavras.