25
fev
2019
Crítica: “Infiltrado na Klan”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2019 • Postado por: Rafael Hires

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)

Spike Lee, 2018

Roteiro:

Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee

Universal Pictures

5

Não é de hoje que o mundo está dividido perante lados políticos. O que vemos hoje é um reflexo de várias transformações ao longo de décadas que vem se repetindo aos montes. Porém, nos últimos 50 anos, esses ciclos tem ficados cada vez mais nítidos conforme o tempo passa.

Como disse anteriormente no texto de Dear White People, nunca passei/passarei pelo preconceito que os negros já passaram/passam/passarão. Porém, devemos nos reconstituir como pessoas se quisermos evitar cometer erros, tais como os cometidos pelo grupo extremista americano conhecido como Ku-Klux-Klan.

Antes de irmos para a crítica, vamos falar um pouco de história.

A Ku-Klux-Klan, também conhecida pela sigla KKK, ou mesmo chamada de Klan, é um grupo extremista radical formado no sul dos EUA no fim de 1860. Suas correntes de ideias pregavam valores como a supremacia branca, o nacionalismo branco, a anti-imigração e, especialmente em iterações posteriores, o nordicismo e o antissemitismo, historicamente expressos através do terrorismo voltado a grupos ou indivíduos aos quais eles se opõem.

Todos os três movimentos têm clamado pela “purificação” da sociedade americana e todos são considerados organizações de extrema-direita (nazismo feelings).

A primeira Ku Klux Klan na verdade foi fundada pelo general Nathan Bedford Forrest da cidade de Pulaski, Tennessee, em 1865 após o final da Guerra Civil Americana. Seu objetivo era impedir a integração social dos negros recém-libertados, como por exemplo, adquirir terras e ter direitos concedidos aos outros cidadãos, como votar.

O nome, cujo registro mais antigo é de 1867, parece derivar da palavra grega kýklos(do grego κύκλος), que significa “círculo”, “anel”, e da palavra inglesa clan (clã) escrita com k. Devido aos métodos violentos da KKK, há a hipótese de o nome ter-se inspirado no som feito quando se coloca um rifle pronto para atirar. Outra possível origem do nome pode advir de um templo maia, chamado kukulcán. onde segundo os maias, “kukul” significa sagrado ou divino e “can” significa serpente, mas não existem dados que comprovem isso.

Em 1872 o grupo foi reconhecido como uma entidade terrorista e foi banida dos Estados Unidos. O segundo grupo que utilizou o mesmo nome foi fundado em 1915 (alguns dizem que foi em função do lançamento do filme O Nascimento de uma Nação, naquele mesmo ano) em Atlanta por William J. Simmons. Este grupo foi criado como uma organização fraternal e lutou pelo domínio dos brancos protestantes sobre os negros, católicos, judeus e asiáticos, assim como outros imigrantes.

Este grupo ficou famoso pelos linchamentos e outras atividades violentas contra seus “inimigos”. Chegou a ter quatro milhões de membros (outros dizem serem cinco milhões) na década de 1920, incluindo muitos políticos. A popularidade do grupo caiu durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, já que os Estados Unidos se posicionaram ao lado dos aliados, que eram contrários à ideias totalitárias, extremistas e racistas, como os nazistas (quem disser que Hitler era de esquerda, se ilude com facilidade).

A perda de respeitabilidade da Ku Klux Klan devido aos métodos brutais, ilegais ou meramente arbitrários e as execuções sumárias de inocentes (puxa vida, que novidade), unidas as divisões internas, levou à degradação de seu prestígio, apesar de a organização continuar a realizar expedições punitivas, desempenhando, por exemplo, o papel de supervisora de uma agremiação de patrões contra os sindicalistas, cuja cota estava em alta depois da crise de 1929.

Na década de 1930, o nazismo exerceu uma certa atração sobre a Ku Klux Klan (Não ironia modo on). Não passou disso, porém. A aproximação com os alemães foi bruscamente encerrada na Segunda Guerra Mundial, depois do ataque japonês à base estadunidense de Pearl Harbor, quando muitos membros se alistaram no exército para lutar contra o “perigo amarelo” (hipocrisia, a gente se vê por aqui). Só faltava o tiro de misericórdia ao império invisível. Em 1944, o serviço de contribuições diretas cobrou uma dívida da Klan, pendente desde 1920. Incapaz de honrar o compromisso, a organização morreu pela segunda vez (daqui a pouco, vai pedir música no Fantástico).

Apesar de diversas tentativas de ressurreição (num âmbito mais local que nacional), a Ku Klux Klan não obteve mais o sucesso de antes da guerra (não diga). Finalmente, o Stetson Kennedy contribuiu para desmistificar a organização, liberando todos os seus segredos no livro Eu fiz parte da Ku Klux Klan. Alguns membros ainda insistiram e suscitaram, temporariamente, uma retomada de interesse entre os WASP (sigla em inglês para protestantes brancos anglo-saxões) frustrados, que não compunham mais a maioria da população americana (isso é fake news).

Na década de 1950, a promulgação da lei contra a segregação racial nas escolas públicas despertou novamente algumas paixões e cruzes se acenderam. Seguiram-se batalhas, casas dinamitadas e novos crimes (29 mortos de 1956 a 1963, entre eles 11 brancos, durante protestos raciais). Os membros tentaram se reciclar no anticomunismo, combatendo os índios ou atenuando seu anticatolicismo fanático.

As quimeras de Garvey tinham quebrado a solidariedade dos negros num tempo das mais pesadas ameaças; num tempo em que a Ku Klux Klan depois de 50 anos de pausa retomava a sua atividade, e quem sabe se não preparava ainda comoções mais terríveis do que aquelas a que tinha recorrido meio século antes. Os métodos da Ku Klux Klan não se haviam modificado de maneira sensível; agora, como antes, se balanceava (processo pelo qual se fazia deslizar uma vítima manietada por uma estreita barra de aço, dolorosamente, para cima e para baixo, a toda velocidade para criar atrito), espancava, extorquia, boicotava, exilava, linchava e assassinava.

Mas nada surtiu grande efeito e o declínio da Klan já tinha começado desde o fim da década de 1960, época em que só contava com algumas dezenas de milhares de membros. Depois, podia-se tentar distinguir os Imperial Klans of America dos Knights of the Ku Klux Klan, ou ainda dos Knights of the White Camelia, alguns dos vários nomes das tentativas de ressurgimento. Mas os membros não eram mais uma organização de massa. Apesar das proclamações tonitruantes e de provocações episódicas, as “Klans” não reuniam mais do que alguns milhares de membros, comparáveis assim com outros grupelhos neonazistas com os quais às vezes mantinham relações. A organização não parece estar perto de renascer uma segunda vez.

Os infernos passaram a chamar-se cavernas e as reuniões passaram a realizar-se em grandes locais muitas vezes sob o céu aberto. Não raro milhares de autos vinham reforçar, guardas a cavalo e a pé cercavam o local e estavam presentes os utensílios com que se entusiasma qualquer estadunidense: a bandeira estrelada, a Bíblia aberta e o punhal desembainhado a fazer pano de fundo, uma cruz em fogo, à noite, que projetava uma luz estranhamente tranquilizadora sobre as filas dos agora uniformizados homens dos capuzes brancos.[c

De início, a Klan só admitia como membros aquelas pessoas oriundas de pais brancos americanas nascidas nos Estados Unidos; além disso, os pais não podiam comungar na religião católica nem pertencer à raça judaica. Mais tarde deixou-se caducar a exigência de que os pais já deviam ser de nacionalidade estadunidense pois este ponto prejudicara em muito a solícita procura de membros para a Klan e a afluência de meios de contribuição de sócios. O candidato a aceitação era submetido a interrogatórios e em seguida instruído de que a Klan exigia de todos os seus membros obediência cega.

Seguia-se o juramento, batismo, ordenação e apostasia, com a leitura dos parágrafos da fé da Klan em que muito se tratava da raça branca e da religião cristã. Os crimes que a nova Ku Klux Klan até a sua recente proibição cometeu, sobretudo nos estados do Sul dos Estados Unidos, são tão variados e numerosos, tão cuidadosamente velados e tão intimamente amalgamados com as singularidades da vida pública naqueles estados, que nunca seria possível abrangê-los a todos. A simples crônica ou mesmo pequena revista, como nós aqui tentamos oferecer, nunca seria capaz de exprimir como o que aconteceu foi caprichoso e horrível.

O mundo teve conhecimento aqui e ali de um registro especialmente alusivo nos jornais, mas depressa ele caiu no esquecimento da consciência mundial, ainda que esta fatalidade passe à posteridade, pois que não houve nenhum dos grandes escritores estadunidenses que alguma vez deixasse passar em branco atuação tão vergonhosa. Atualmente, a Ku Klux Klan conta apenas com um efetivo de 3 000 homens em todos os antigos estados confederados, apesar do baixo número de associados, muitos não associados apoiam a organização.

Em recentes protestos ocorridos na pequena cidade de Charlottesville, Virginia, alguns grupos supremacistas brancos se confrontaram com manifestantes antirracismo. Em alguns casos, viram manifestações de um ex-membro da KKK David Duke, fazendo discursos similares a um outro político que ocupa um posto significativo (tô vendo essas alusões ao todo-poderoso Trump, hein! Hater, fora daqui!!!).

Agora que já falamos desse período tenebroso, vamos falar do filme.

Estamos nos anos 70. Ron Stallworth (John David Washington) é um jovem negro que acaba de entrar para a polícia de Colorado Springs. Inicialmente, ele trabalha na seção de arquivos e acaba sendo hostilizado por seus colegas. Ron pede para ser transferido para a seção de investigação e vai até uma palestra onde os membros se reunirão com o líder dos direitos civis Stokely Carmichael, agora atende pelo nome de Kwame Ture (Core Hawkins). Lá, Ron conhece Patrice Dumas (Laura Harrier), presidente da União dos Estudantes Negros da Colorado College.

Ao saírem de lá, Patrice e sua turma são parados por Andy Landers (Frederick Weller), um dos policiais onde Ron trabalha, que ameaça o grupo e assedia Dumas. Depois disso, Ron é redesignado para a divisão de inteligência. Lá, ele fica sabendo de uma divisão local da KKK e fala com Walter Breachway (Ryan Eggold), o presidente local. Ron pede ajuda para Phillip ‘Flip’ Zimmermann (Adam Driver) para que finja ser ele e se infiltre no clã. Na reunião, ele conhece Felix Kendrickson (Jasper Pääkkönen) e Ivanhoe (Paul Walter Hauser), que dizem que uma revolta está por vir.

O filme possui um tom politico bem imponente. As denuncias vao desde claramente o racismo, passando pela xenofobia, antissemitismo, fanatismo religioso até chegar a supremacia branca, assédio, lavagem cerebral, culminando nos atos terroristas que grupos extremistas de ambas as partes acabam fazendo ao melhor estilo no amor e na guerra, vale tudo. A primeira imagem do filme já diz tudo, onde vemos Alec Baldwin na pele do Dr. Kinnewbree Beauregard disparando discursos de ódio bastante contundentes, enquanto se projeta o filme O Nascimento de uma Nação de D.W. Griffith.

O roteiro flerta entre a comedia, a tragédia e a crítica ao racismo. Há vários momentos em que o filme lembra outra película que também possui um certo tema de denuncia visto anteriormente, o longa de terror Corra!. Em vários momentos, as imagens preconceituosas que o filme escancara o farão repensar suas atitudes e fazê-lo entender que não é através de ódio que as coisas se constroem.

A direção de arte opta por tons pasteis, principalmente tons mais terrosos, como marrom, amarelo mais escuro, etc. O filme sempre apresenta cenas de O Nascimento, principalmente com pessoas reunidas, como forma de reforçar que o comportamento das mesmas é nocivo e não pode ser confundido como opinião, fazendo os espectadores quase desistirem de continuar a ver o filme.

Os figurinos refletem ao tipo de vestimenta da época: jaquetas jeans, colares, camisetas de flanela, jaquetas peluciadas, camisas cáqui, calças boca de sino, etc.

A trilha sonora envolve temas mais pops. Algumas faixas conhecidas são Mary Don’t You Weep, de Prince; Say It Loud-I’m Black and Proud, de James Brown; Oh Happy Day, do grupo Edwin Hawkins Singers; Too Late to Turn Back, do trio Cornelius Brothers & Sister Rose.

As atuações são excelentes. John David Washington faz um homem que é tratado como escória por uns, mas logo se revelerá na arma definitiva para a derrocada do grupo extremista. Adam Driver, a principio, parece apenas mais um policial que não liga pra nada. Porém, conforme se embrenha mais no grupo, decide por um fim naquilo. Laura Harrier é uma ativista ferrenha que acha que todos que não compactuam com a causa, são inimigos. Ryan Eggold, Topher Grace, Paul Walter Hauser, Frederick Weller e Jasper Pääkkönen são o quinteto completo do preconceito esculpido em carrara. Cada frase disparada por qualquer um desses caras é uma facada no estomago e um facepalm. Spike Lee soube explorar o pior em casa um desses atores que entregam performances muito intrigantes, opressoras e contundentes.

Infiltrado na Klan é um relato e um manifesto de que ainda precisamos evoluir muito se quisermos erradicar esse mal. Porém, mesmo anos depois, parece que os esforços foram infrutíferos. Spike Lee sabe trabalhar bem seus personagens e não poupa esforços em falar sobre racismo.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.