22
fev
2019
Crítica: “Roma”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2019 • Postado por: Ana Gambale

Roma

Alfonso Cuarón, 2018
Roteiro: Alfonso Cuarón
Netflix

4.5

Em 2018, após ganhar o Oscar de Melhor Diretor por Gravidade em 2013, Alfonso Cuarón chega ao ápice de sua carreira com o aclamado Roma, monopolizando as categorias da premiação em 2019 e levando a grande maioria das que foi indicado nas outras, é um drama que tem como inspiração situações observadas pelo diretor na infância, além de ter sido temporalmente colocado num momento histórico turbulento para o México, país de origem de Cuarón, o que é possível ver no filme em cenas impactantes. O título do filme vem do nome do bairro em que a trama acontece, o mesmo em que o diretor morava, Colonia Roma, na capital do país. O longa foi disponibilizado na Netflix e só depois de suas indicações ao Oscar e suas vitórias é que começou a ser exibido nas salas de cinema de algumas cidades grandes.

O filme conta a história de Cleo, uma empregada doméstica que trabalha na casa de uma família de classe media alta (nessa situação, o filho mais novo da família representa o diretor). A protagonista é de origem indígena – assim como a atriz que a interpreta, Yalitza Aparicio -, e mostra um segundo idioma, o Mixtec. O nome da inspiração para essa personagem faz uma aparição na última cena do filme, onde Cuarón faz uma dedicação a Libo, mulher indígena que trabalhou para sua família em sua infância. O longa, apesar de ser bastante contemplativo ao mostrar o dia-a-dia da personagem, tem um arco narrativo clássico, que mostra o período de gravidez de Cleo, e tudo o que envolve sua vida nesse contexto.

Em preto e branco, a fotografia não decepciona ao fazer bastante uso de diferentes luzes ao decorrer das cenas, principalmente na famigerada e lindíssima cena da praia que ilustra os pôsteres do filme. Além disso, há um uso de movimentação de câmera e profundidade de campo que puxa o filme pra um estilo realista. No entanto, ao mesmo tempo, a escolha das lentes combinada à utilização da iluminação e da cor no filme o mantêm com uma roupagem artística que emprega um tom poético à história, que, de fato é bem poética.

Um elemento de Roma que traz a sensação de proximidade ao espectador é a edição de som. Ela foi cuidadosamente e maravilhosamente bem trabalhada no filme de maneira a cercar quem assiste. Talvez isso não tenha ganhado tanto destaque quando um filme como esse é visto numa plataforma como a Netflix, que não permite uma imersão tão acentuada, e é nesse aspecto que se perde uma experiência superior que ver Roma no cinema traria para a apreciação das técnicas utilizadas. Trazendo de volta a cena da praia, é nela que o som pode ser mais percebido. Outro detalhe que o som permite ser notado é a passagem de aviões no local onde se encontra a casa que serve de cenário para a maior parte do filme. Esse é um elemento especialmente colocado por Cuarón no filme para levar o espectador direto para o bairro Roma dos anos 70. E ao dizer que foi o Cuarón que colocou, isso é quase literalmente, porque o mexicano é creditado por diversas áreas da produção. Entre elas direção, roteiro, direção de fotografia, produção e edição. Esse é que é um filme autoral de respeito.

Em relação a narrativa, ela tem um aspecto bem sutil. Assim como a vida da própria Cleo, que é sutilmente – as vezes nem tanto – jogada pra escanteio em meio aos problemas da família, por mais caindo aos pedaços que esteja. Por isso era importante que ela fosse a protagonista desse filme. Roma quer olhar pra um ponto de vista do qual ninguém quer olhar. Um ponto de vista que a própria Cleo não esperava precisar se colocar, o dela própria. Dessa forma, Roma traz esse e outros assuntos à tona, do mesmo jeito sutil, a fim de causar reflexão. Por outro lado, fazendo um contraponto à sutileza, há a cena do parto, que pega qualquer desavisado pela garganta e deixa um gosto amargo até a conclusão da história, momento no qual toda a sutileza retorna com a volta à vida de sempre da protagonista.

Das cenas deslumbrantes ao roteiro significativo, passando por cenários detalhados e técnicas primorosas, Roma oferece reflexões e referências que esse texto não é capaz de discutir nessas poucas linhas. O que resta é dizer que Cuarón trabalhou como ninguém para entregar uma obra que ganhou um reconhecimento 100% merecido, considerando a história que conta, e que mais filmes feitos com o mesmo esmero deveriam receber.



Maratoneira oficial. Doida das séries e dos musicais. Apaixonada por Disney e apreciadora do terror fantástico. Tudo o que me fizer sair das leis da realidade eu to aceitando. Estudo cinema 7 dias por semana. Ainda há de chegar o dia que terei criatividade com palavras.