11
fev
2019
Qual é a relevância dos remakes de “Nasce Uma Estrela”?
Categorias: Artigos, Maratona Oscar 2019 • Postado por: Ana Gambale

A história do astro que descobre uma artista muito talentosa, porém desconhecida, foi contada pela quarta vez em Hollywood em 2018. Nasce Uma Estrela estreou pela primeira vez nos cinemas em 1937. Nessa primeira versão, Esther Blodgett é uma moça do interior de North Dakota que vai pra Los Angeles em busca do estrelato e é casualmente descoberta por Norman Maine, um ator já estabilizado na indústria que se encanta por ela e a ajuda a atingir fama, e que ao mesmo tempo é atormentado pelo alcoolismo.


A história ainda foi especulada de ter sido inspirada pelo filme de 1932 What Price Hollywood?, o que nos diz que a temática de fundo é um discurso sobre como funciona a indústria da fama – assunto tratado nos dois filmes – para a qual se tem um protocolo de encontrar a mocinha, transformar sua aparência para se ajustar ao padrão requerido, assim como o seu estilo artístico. Apesar disso, todos os remakes de Nasce Uma Estrela tem a relação dos dois protagonistas em primeiro plano. O que muda em cada filme é o contexto onde essa relação se encontra. Apesar de todas elas ainda acontecerem em meio às consequências da fama, as circunstâncias são atualizadas de acordo com a época.

No remake de 1954, por exemplo, os filmes musicais estavam em alta. Além disso, Judy Garland, uma das protagonistas da era de ouro dos musicais, fazia seu retorno às telonas. Isso resultou em um primeiro remake com quase 3 horas de duração para dar espaço aos longos números musicais. O filme foi inclusive divido em dois atos. O primeiro ato focando na trajetória ao estrelato da personagem Esther, havendo até certo distanciamento na relação entre os dois protagonistas, ainda que estivessem conectados em função do andamento da história. Quando a carreira dela finalmente decola, Esther, que agora se chama Vicky Lester, tem um longo momento musical antes do início do segundo ato. A partir daqui o filme se aprofunda mais na relação entre os dois e no problema de Norman, que se agrava e culmina em todos os acontecimentos chaves que se repetem em cada remake.


Em 1976, a história faz uma grande transformação. Nos anos 70 os musicais já não apelavam mais para o grande público, mas os rockstars estavam em alta. Por isso, o roteiro saiu do cinema para entrar no mundo da música. A icônica cena do Oscar agora se passava no Grammy e as cenas musicais davam lugar a um show num palco ao ar livre para uma turnê. O nome do protagonista masculino virou John Norman e Barbra Streisand dava vida a uma Esther mais feminista, que a princípio nem dá moral pro cantor de rock que pegou apreço por sua voz. Ao longo do filme, no entanto, é onde a maior diferença que o remake de 1976 trouxe à história. Esther se envolve intensamente com John, e o roteiro coloca esse envolvimento no centro da trama. O filme não é a mais sobre a cantora desconhecida que é descoberta por um cara famoso e como sua carreira deslancha depois disso. Não que isso deixa de acontecer, mas se transforma em contexto para um romance somente. Nasce Uma Estrela agora repagina a história original e emprega um aspecto de autodestruição que se tornou um conto conhecido da época, popularizada pelas histórias reais dos rockstars do momento. Isso trouxe uma carga dramática um pouco mais real ao remake, desglamourizando-o com as atitudes do atualizado John Norman. Aqui também há um uso bem mais explícito de drogas e palavrões. O filme então mostra como tal comportamento afeta a Esther e o relacionamento dos dois.


Finalmente, essa última década trouxe um cenário social onde um roteiro como Nasce Uma Estrela poderia ser atualizado novamente. Não só por causa da mudança no panorama musical, como um novo ângulo para interpretar a história de Norman Maine/John Norman. O nome muda novamente para Jackson Maine, assim como o ponto de vista do filme. No primeiro remake, o ponto de vista adotado foi o da Esther. Em 1976, a história mais focada no relacionamento tirava o protagonismo de uma das partes. Já em 2018, o público é apresentado com dois ângulos diferentes – dos dois protagonistas, nesse caso. O ponto de vista da Ally (pela primeira vez com uma mudança no nome e a exclusão total de um sobrenome, tirando um pouco a identidade da estrela nascida) é de como ela foi apresentada a esse mundo da música de uma hora pra outra, teve sua carreira rapidamente construída para o padrão – trazendo tal elemento da Esther de Judy Garland –, sua persona inserida no meio mainstream e, mais tarde, sua vida e carreira sendo afetada por seu relacionamento abusivo com Jackson.

Por outro lado, a situação de Jackson pela primeira vez foi humanizada. É criado um link de empatia entre o personagem e o público e, a nova versão de Nasce uma Estrela dá um novo ângulo ao problema que Jackson tem com o alcoolismo. Apesar de todos os remakes terem criado um período no filme onde esse personagem tenta melhorar e se reerguer, em 2018 foi a primeira chance que esse filme teve de reconhecer o caráter psicológico que tem a condição de Jackson. Isso se deve, novamente, ao contexto social no qual o remake está sendo feito, assim como todas as outras versões anteriores. Não só isso, como o próprio ponto de vista da Ally em relação a situação também é um assunto atual. Além disso, tem aquela pitada de shade no protocolo da indústria musical e de Hollywood que infelizmente nunca fica datada.


Por esse motivo, Nasce Uma Estrela continua sendo refeito. Ele discute assuntos que estão em constante mudança, mas ao mesmo tempo sempre relevantes. Cada remake mostra a sua interpretação da sociedade na qual se passa a história, inserida num contexto específico e que facilmente leva o público ao cinema. Assistir a esses quatro filmes pode ser considerado um estudo do avanço de vários aspectos da sociedade, assim como da cultura popular.



Maratoneira oficial. Doida das séries e dos musicais. Apaixonada por Disney e apreciadora do terror fantástico. Tudo o que me fizer sair das leis da realidade eu to aceitando. Estudo cinema 7 dias por semana. Ainda há de chegar o dia que terei criatividade com palavras.