04
fev
2019
Romance premiado de Alex Sens, “O Frágil toque dos mutilados” tem ares de cinema!
Categorias: Biblioteca Radioativa • Postado por: Matheus Benjamin

Esse texto foi publicado originalmente no site Cooltural.

O Frágil toque dos mutilados

Alex Sens
Autêntica, 416 páginas
Compre AQUI

5

Histórias com famílias disfuncionais costumam me agradar quase sempre por completo. Não sei quando ou como passei a me interessar por histórias do tipo, talvez tenha começando quando assisti Rocco e seus Irmãos (filme italiano de 1960 dirigido por Luchino Visconti), passou pela Nouvelle Vague com Os Incompreendidos de François Truffaut e se fortaleceu com Pequena Miss Sunshine (dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris em 2006), Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e Viagem a Darjeeling (2009) ambos dirigidos por Wes Anderson. Os exemplos citados trazem histórias fortes que envolvem famílias repletas de problemas e que apesar dos pesares são bem divertidas de se acompanhar. Ler O Frágil Toque dos Mutilados, do catarinense Alex Sens foi uma delícia por vários motivos e, talvez, o principal deles, seja por conta da narrativa tratar de uma família disfuncional multidimensional.

Conhecemos uma das irmãs da família que acompanharemos pelas 416 páginas do romance logo no começo. Magnólia é uma mulher com alguns problemas psicológicos, sarna pra se coçar e muita criticidade embarcando em um trem a caminho do litoral acompanhada de seu marido, Herbert, um escritor que pretende desenvolver durante o mês em que passará longe de sua casa um ensaio acerca de As Ondas, seu romance favorito de Virginia Woolf. Magnólia, que já não visitava seu irmão Orlando há vários anos (e que por isso perdera diversas coisas de sua vida) está um tanto quanto nervosa e receosa pelo que possa acontecer durante os dias em que estará na companhia da família. Orlando é um tipo bem diferente de Magnólia; ele tem dois filhos (Muriel e Thomas), está ainda bastante abalado por conta da morte recente da esposa Sara, tem problemas com alcoolismo e uma paixonite por Laura, uma moça de uma segunda família (disfuncional) da trama. Laura, que é irmã de Lourenço – uma paixonite de Magnólia – está organizando uma exposição de arte no restaurante de sua família e quer expor alguns dos quadros de Orlando, que pinta escondido na garagem de sua casa. Ainda no decorrer da história conhecemos Elisa, a outra irmã de Magnólia e Orlando – que também tem seus probleminhas de saúde, psicológicos e etc -, Leopoldo e Tadeu, irmãos de Laura e Lourenço. Todos estes personagens possuem várias facetas que vão sendo exploradas e muito bem desenvolvidas durante a leitura e todos eles também são passíveis de grande identificação, por serem tão palpáveis e humanos.

Magnólia é talvez a personagem mais complexa de toda a trama por conta de uma coisa em específico (que eu não posso revelar porque seria um grande spoiler) e que deixa muitas coisas explicadas para a história. É notório perceber como todo o seu passado, sua construção e interação com os outros personagens durante o tempo em que está no litoral é incrivelmente bem orquestrada com todo o restante da trama; ora ela é a boa amiga e conselheira que quer apenas o bem das pessoas que ama; ora ela parece querer só ver o circo pegar fogo; ora ela só quer um minuto de paz e tranquilidade e ora ela quer que tudo fique (quase) bem. A complexidade da personagem é ainda fascinante quando Herbert revela os ciúmes de sua companheira por sua escritora predileta (que, diga-se de passagem, está morta).

O grande mérito do livro é o de conduzir uma boa história com ótimos personagens e situações intrincadas, utilizando-se de todas as suas referências literárias, musicais e fílmicas. A escrita de Sens é gostosa de se acompanhar, os capítulos passam e o leitor quase nem percebe; tanto que economizei na hora da leitura para poder ficar um tempo a mais com os personagens maravilhosamente bem entrelaçados ao que a trama oferecia. Até mesmo os personagens menores são muito bem desenvolvidos, como Tadeu e seu sobrinho Alister. Aliás, com poucas linhas o autor consegue dar uma solução honesta e interessante para estes pequenos arcos criados para a narrativa. É notável também perceber o fascínio do autor para com sua escritora favorita (e que também está muito presente na obra): Virginia Woolf está no texto mesmo que sem querer. A autora que tem um estilo de escrita bastante pautado no fluxo de consciência (uma técnica literária de escrita onde procura-se demonstrar toda a complexidade dos pensamentos de um personagem) tem sua influência registrada nas páginas deste romance, o que é ainda mais incrível para o livro.

Para finalizar, digo que O Frágil Toque dos Mutilados é um livro que marca e deixa saudades. O título chamativo, os personagens muito bem construídos e a condução da história são espetaculares; um prato cheio para todos aqueles que gostam de ler história sobre famílias cheias de situações. É muito fácil poder encontrar alguns perfis dos personagens por aí, na nossa família mesmo. Foi difícil ter que dizer adeus para todos eles. A boa notícia é que vai ter continuação e poderemos reencontra-los em um futuro não tão distante. Quem sabe não tomamos um bom vinho juntos, não é Magnólia?

PS: Foi quase inevitável pra mim não imaginar alguns dos personagens com alguns dos atores e atrizes que eu mais gosto. Magnólia, por exemplo, na minha cabeça é a Denise Fraga.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba" e produzi outros tantos, entre eles "Alice.", pela Pessoas na Van Preta.