16
mar
2019
Crítica: “A Mula”
Categorias: Críticas • Postado por: Lucas Manoel Santos
TROQUE PELO POSTER DO FILME

A Mula (The Mule)

Clint Eastwood, 2018
Roteiro:

Nick Schenk

Warner

4.5

“O Tempo. Pude comprar tudo, só não pude comprar o tempo”.  Uma das frases ditas pelo protagonista ao final do filme resume bem o discurso principal de “A Mula”: O tempo. Não apenas o tempo que passa, mas o que ele carrega consigo, as marcas que ele deixa. Clint Eastwood aos 88 anos se filma nu, mostra suas rugas, sorri um sorriso meio amarelado, diz coisas que não pertencem ao agora, não sabe usar um celular e reclama da internet. Um homem de outra época, portanto. Mas para além das marcas físicas expostas no corpo do octogenário Earl Stone, protagonista interpretado por Clint, existe também as marcas espirituais que o tempo deixou: A filha não fala com ele a 12 anos, desde que ele não compareceu ao casamento dela por causa de uma premiação que participou. Ele também perdeu seu próprio casamento, não viu a neta crescer. Tenta viver a vida da forma mais idealista possível, ciente que talvez não lhe reste muito tempo de vida. Para além das marcas, o tempo e a vida lhe garantiram também experiências, vivências. O velho Earl, veterano de guerra, não se assusta com armas, tampouco se sente amedrontado pelos traficantes ao qual começa prestar serviços depois que seu negócio de floricultura vai à falência. Earl não parece disposto a seguir qualquer tipo de convenção moral ou aceitar de bom grado o que o destino reserva a pessoas como ele. Pelo contrário, ele está disposto a quebrar as regras, a fazer as coisas do seu jeito, a construir para si uma noção particular de tempo, mesmo que para isso tenha que sacrificar a si mesmo e os que ele ama.

A Mula é o primeiro filme atuado por Clint Eastwood em 10 anos, logo depois de ter anunciado sua aposentadoria das telas com Gran Torino. De fato, o filme já naquele tempo marcava uma saída simbólica pra persona encarnada pelo diretor nos mais de 40 anos que dedicou ao cinema. Se sua aposentadoria das telas como ator parecia irrevogável, seu trabalho como diretor só se consolidou, trabalhando arduamente na última década, chegando a lançar dois filmes por ano (como é o caso desse, que chega aos cinemas um pouco menos de um ano após o último lançamento de Eastwood, “15:17: Trem Para Paris”). Quando anunciado o projeto, muito se alardeou então o retorno ao centro de um dos mais lendários rostos de Hollywood. E, de fato, se existe algo em que chama a atenção em “A Mula”, esse algo é justamente o rosto de Clint. Earl atravessa as estradas do país em sua caminhonete transportando drogas, sim, mas também criando versões próprias de canções antigas, cantando alegres versos de outras épocas, e mostrando em seu rosto corroído pelo tempo, uma juventude e uma jovialidade quase incompatível com a sua idade. Registro sincero não só de um personagem, mas de também de uns homens mais conhecidos do cinema. 

Existe também em “A Mula” uma espécie de cinema de transição. Transição não somente de um cinema (o clássico incorporando o contemporâneo e vice versa, algo sempre recorrente na filmografia recente de Eastwood), mas também de um estado de espírito, de um país. Pelas ruas que Earl passa com seu carro, Clint expõe as contradições de um Estados Unidos fugidio, levemente decadente, carcomido, que conserva em seu interior uma herança nefasta de um tempo que seria de bom tom superar. Talvez resida aí a incompreensão de muitos em relação ao filme, que injustamente foi acusado de compactuar com aquilo que denuncia. O mexicano parado pela polícia na estrada, suspeito de integrar o esquema de tráfico que atravessa as fronteiras do País, se sente aliviado ao ser solto do enquadramento. Respira e diz “Esse foi o momento mais perigoso da minha vida”. Em tempos do avanço do extremismo de homens maus, de ameaças de muros que separam o bem estar e a civilidade, de intolerância, cenas como essa refletem e nos fazem pensar sobre certas condições.  O próprio Earl não se priva de momentos um tanto quanto questionáveis, como a cena em que ajuda um casal de jovens negros à beira da estrada. O velho Stone não se ressente em direcionar a eles um tratamento oriundo de outros tempos, e ao ser questionado, sorri de forma pensativa. É uma cena incomoda, sim, mas também necessária, nunca é tarde pra se repensar velhos hábitos. Como o próprio personagem assume em determinado momento do filme, tudo o que Earl faz, as coisas com que ele se compromete, são em benefício próprio. O dinheiro que vem fácil seduz aquele velho homem, mas isso não significa que ele não seja capaz de cometer atos de puro altruísmo. A cena da inauguração do bar dos veteranos, que ele reforma com seu dinheiro, como exemplo. Aliás, é preciso notar esse momento como mais uma das evidencias críticas do filme, ao passo que a reforma se garante de um caráter simbólico para reafirmar a falta de compromisso das instituições estatais com os veteranos de guerra (Eastwood retorna levemente ao discurso principal de Sniper Americano, que também denunciava o descaso das autoridades com aqueles que voltavam dos conflitos criados pela América).

Mas se existe uma coisa que realmente reafirma os discursos principais do filme, as transições, o tempo e o modo como lidamos com ele, é a forma que Earl lida com as pessoas que habitam o seu entorno. Como já foi dito, suas ambições pessoais e seu modo de vida lhe custaram à família. Muito antes de se envolver com narco traficantes mexicanos, sua obsessão e seu fascínio com suas flores lhe privaram do convívio familiar. Sua filha (interpretada pela própria filha de Clint na vida real) se recusa a olhar no seu rosto, sua neta se esforça pra reconstruir os laços familiares, mas já também demonstra certo cansaço físico. E sua ex-esposa. Provavelmente os momentos mais belos do filme são aqueles que Earl divide com sua ex-esposa. Existe no rosto de Mary (interpretada por Dianne Wiest) um ressentimento enorme, uma dor, ela ainda ama aquele homem, mas sabe o quão prejudicial a todos ele foi. A ela, a família, a ele mesmo. O semblante levemente encurvado da atriz não esconde o descontentamento com o ex-marido. Mas é por ainda o amar tanto, que os momentos que os dois compartilham durante o filme são tão puros. É impossível segurar as lágrimas quando do desfecho de Mary.

E, ah… Existe também o personagem de Bradley Cooper. O policial que de tão empenhado com seu serviço, não vê a própria vida particular ruir. Earl sabe bem como é, ele viveu a mesma situação, não quer que isso se repita na vida de outras pessoas. Assim como o conselho que ele dá a um jovem traficante em dado momento do filme (sugerindo que o rapaz largue aquela vida e procure outra coisa pra fazer), ele também aconselha o policial. A humanização presente no retrato de figuras tão díspares, é o que faz de “A Mula” um filme tão especial no panorama contemporâneo do cinema americano. Os gestos delicados de Earl, que age como um velho sábio, que absorveu todas as experiências do mundo, e agora faz questão de espalhar o que aprendeu a pessoas que estão começando a trilhar suas próprias trajetórias. Como um homem que foi tão tóxico e negativo a si mesmo e a familiares próximos consegue ser tão altruísta, ser tão romântico e tão compreensível com pessoas distantes? Ora, se a própria vida em si já é um emaranhado de complexidades ambíguas, por que o cinema também não poderia ser? A vida imita a arte, a vida como ela é. Ao final da sessão talvez o filme não responda de forma imediata todas as questões que propôs ao longo de sua duração. Como já foi dito, um filme de transição, e essa transição não é simples, muito menos feita de uma hora pra outra. O personagem de Earl consegue atingir seus objetivos, depois de fazer tudo o que fez, sai de cena com a consciência tranquila,  conclui sua jornada do mesmo modo que começou: Entretido com suas flores. Clint Eastwood também sai de cena, não sabemos se pra sempre ou se apenas mais um hiato. Bom, independente do que aconteça, o único que tem as respostas é realmente o tempo. E saímos de “A Mula” muito mais esperançosos e corajosos pra lidar com ele.



22 anos estudante de Ciências Sociais, cinéfilo apaixonado, leitor compulsivo, fascinado por Rock Alternativo (música em geral) e apreciador de cerveja barata. Descobri desde cedo o poder imersivo das artes na vida de uma pessoa, e desde então sigo nessa linha tênue entre prazer e compulsão. Fã de cinema alternativo, independente e dos grandes mestres do horror. Influência: de David Lynch a Godard, mas sem nunca se esquecer da simplicidade de uma boa comédia.