20
mar
2019
Crítica: “Nós”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Nós (Us)

Jordan Peele, 2019
Roteiro: Jordan Peele
Universal Pictures

5

Jordan Peele. Antes um grande comediante de mão cheia, junto de seu amigo Keegan Michael-Key, para logo em seguida, virar um diretor de terror que conseguiu seu Oscar na primeira tentativa. Pois bem, eis que o diretor volta com seu mais novo projeto no gênero.

Estamos em 1986. Vemos uma família brincando num parque de diversões. A pequena Adelaide (Madison Curry/Lupita Nyong’o) entra numa atração aparentemente abandonada e lá vê algo que lhe deixa apavorada. Voltando aos dias atuais, Adelaide agora é casada com Gabe (Winston Duke) e tem dois filhos Jason e Zora. A família agora vai passar uns dias mais tranquilos na casa de praia.

Eis que durante a noite, um quarteto chega a residência da família, invade e logo se percebe que os intrusos são iguais aos moradores.

O roteiro foca em estabelecer algumas relações, como o fato de Adelaide ser introspectiva em relação ao mundo que lhe cerca. Devido a experiência traumática que teve no passado de ter se visto, porém não como um reflexo de espelho, mas sim como um “gêmeo”, deixou sequelas que voltam a assombrar sua mente. O filme também apresentará diversos simbolismos, marca característica do diretor, porém não consegui decifrar todo o filme, exceto alguns como loucura e sanidade caminhando sobre uma linha tênue, quase imperceptível, cumplicidade e etc.

O filme ainda apresenta um realismo fantástico que pode beirar a loucura, que, a principio, causa desconforto. Mas depois do estranhamento inicial, o ritmo segue fluente e sem maiores problemas.

A direção de arte também é bem feita. A paleta de cores é algo muito bem feito. Há vários momentos em que o filme parece estar num breu completo, não sendo possível enxergar nada, porém o leve branco dos olhos ajudam o espectador a se guiar nesses momentos, algo já presenciado em obras como Corra! e o clipe do cantor Childish Gambino This is América.

Mesmo possuindo uma paleta bem variada, creio que o destaque seria o vermelho, pois os personagens “clones” vestem macacões vermelhos, além do sangue que jorra com gosto e o dourado, pois os mesmos personagens carregam tesouras grandes desta cor.

Outro ponto a ser destacado é a não presença de jump-scares bobos. Devido ao fato do filme trabalhar mais a questão psicológica, poucas vezes serão vistos os jump-scares mais vazios de significado. Quando aparece um jump-scare, ele é pontuado e bem orquestrado. Alguns podem dizer que o filme não dá medo pela falta desses sustinhos, porém eu reforço que os melhores filmes de terror são aqueles que não lhe entregam tudo de bandeja.

Os diálogos são bem feitos. Porém, há algo que pode irritar alguns, que são os monólogos expositivos. Quando Lupita conversa com seu “eu do mal”, há muita exposição de trama, tentando encaixar tudo para o espectador, ao invés de mostrar propriamente os eventos. Isso pode ser tornar um tanto incomodo, mas não é algo que diminua totalmente a qualidade da produção.

A trilha sonora apresenta algumas faixas já conhecidas pelo grande público como Fuck the Police, do grupo N.W.A, Good Vibrations, da banda The Beach Boys e etc.

As atuações são inacreditáveis. Lupita Nyong’o surpreende a todos. Sua performance tanto como “boa” tanto como “má” a colocam em pé de igualdade com outras grandes atrizes de sua geração. Winston Duke é o pai de família mais de boa da história. Mesmo sendo um bonachão na maior parte do tempo, ele mostra que sabe ser protetor. Evan Alex é o filho da família. Mesmo sendo arteiro, o garoto apresentará uma carga dramática com o avanço do filme que o faz parecer mais adulto do que aparenta.

Shahadi Wright, a principio, parece deslocada da história, porém quando se mostra necessária, ela é capaz de atos duvidosos, porém contundentes. Elizabeth Moss, mesmo estando no filme, só mostra a que veio mais pra frente com a chegada dos clones da família amiga. Vindo da protagonista da série The Handmaid’s Tale, esperava-se algo mais acima da média.

Nós é o segundo filme deste diretor que, em breve, fará uma nova versão da série Além da Imaginação, série esta conhecida por ter um caráter sobrenatural, ficcional e fantástica condizente com a produção apresentada aqui. Aos fãs mais favoráveis a sustos fáceis e tramas provincianas, recomendo nem entrar na sala quando o filme estiver sendo exibido. Agora, se você não tem preconceitos com o gênero ou busca filmes que lhe desafiem mentalmente, pode tranquilamente pegar a sessão do fim de semana de ingresso inteiro que lhe valerá cada centavo investido.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade.