25
mar
2019
Quatro documentários indispensáveis para se pensar o Brasil atual!
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: Lucas Manoel Santos

Se as manifestações de 2013 deram abertura a um processo de estouro que separou o brasileiro acirradamente em duas disputas de polos ideológicos distintos, foi com as eleições de 2018 que esse processou atingiu seu ápice. Nas ruas, nas casas, na internet, nunca o brasileiro se sentiu tão disposto a defender arduamente seu lado. Palavras de ordem foram erguidas, discursos extremos vieram à tona, um clima de paranoia foi instaurado, até um atentando por motivações políticas aconteceu. O que em outros casos pareceria sinopse de ficção, no Brasil foi noticia de telejornais. Dia a após dia golpeados com casos que fugiam a nossa compreensão, o país se viu envolvido numa espécie de dicotomia distópica, que culminaria, então, com uma inacreditável reviravolta nas urnas.

Mas, talvez, não seja de hoje que o País se vê no meio de tantos conflitos. Com maior ou menor intensidade, desde a nossa colonização, o Brasil vive em meio a disputas. Refletir sobre a nossa trajetória nos ajuda a compreender o lugar que estamos hoje. Cada passo dado lá atrás, pode ter sido um agravante pra situações como as que vivemos em 2018. Os diversos contornos e mudanças sociais a qual o Brasil foi acometido desde o seus primórdios não passaram despercebido aos olhos dos mais variados cineastas, pensando nisso, o pipoca lança agora uma lista com quatro documentários imprescindíveis pra se compreender o Brasil atual.

Cabra Marcado Para Morrer (Eduardo Coutinho,1984)

Talvez o maior documentarista da história do cinema brasileiro, Eduardo Coutinho foi um dos cineastas que mais se interessaram pelas histórias e contradições do País. O diretor que teve uma prolífica carreira (interrompida pela trágica morte, acontecida em 2014) variando entre ensaios, ficções e documentários, tem em Cabra, aquele que talvez seja seu trabalho mais importante. O filme começou a ser produzido na década de 60, mas foi interrompido pela ditadura. Mais de dezessete anos depois, quando o país voltou a ter um recomeço de processo democrático, o cineasta retomou o projeto do filme. O documentário conta a história de João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado pela ditadura militar. O filme, que conta com depoimentos de Elizabeth Teixeira (viúva de João), de amigos próximos, além dos filhos do próprio Teixeira, reconstrói toda a trajetória da construção das ligas camponesas, um marco na luta pela reforma agrária no Brasil. Anos depois, em comemoração a ocasião de lançamento do DVD de “Cabra”, Eduardo Coutinho lançou o “A Família de Elizabeth Teixeira”, que conta o destino de Elizabeth, trinta anos depois do lançamento do documentário original. Visto hoje, “Cabra Marcado Para Morrer” ainda permanece como símbolo de resistência, além de um olhar aprimorado pra um dos mais sombrios períodos de nossa história. 

Martírio (Vincent Carelli,2016)

Tragédias como o estouro da barragem de Brumadinho e Mariana, são apenas a ponta de um fio extremamente extenso no histórico descaso que o governo tem com questões ligadas ao meio ambiente. E provavelmente ninguém sofreu mais na pele as consequências desse descaso que a população indígena. Martírio, do documentarista e antropólogo Vicent Carelli, se mantém como um dos mais contundentes e fortes relatos sobre a causa indígena na historiografia recente do cinema Brasileiro. Produzido ao longo de três décadas, o filme que conta às lutas dos grupos Guarani Kaiwoa, reacende a discussão sobre as arbitrariedades cometidas pelo agronegócio, às bancadas ruralistas do congresso nacional e as ligações que estas mantêm com madeireiros. Em determinada parte um dos índios entrevistados chega a dizer “O que tá pegando a gente é o capitalismo”. Carelli e sua equipe então se aproximam das tribos, pra expor todas as consequências dessa ambição desmedida pelo capital. De massacres a índios promovidos por fazendeiros a desmatamentos ilegais incentivados por grandes empresas, um relato brutal sobre as lutas e a tentativa de sobrevivência de um povo.

Entreatos (João Moreira Salles, 2004)

Filmado durante a campanha presidencial de 2002 e lançado nos cinemas dois anos depois, visto hoje, Entreatos parece um amargo retrato de um sonho esfacelado. O documentário acompanha a caravana do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Dos palanques de comícios, as salas fechadas da sede do partido. As paixões, os erros, os acertos, as contradições. Do cabeleireiro que compartilhava com Lula suas histórias, as ruas com relatos de pessoas, que viam numa eventual vitória do candidato um vislumbre de um Brasil melhor. Repleto de entrevistas com membros do PT, além de conversas com o próprio Lula, o filme de João Moreira Salles é ao mesmo tempo uma espécie de humanização de um mito e a consagração de uma figura lendária. Como o próprio Lula diz “Não estava no livro que alguém como eu pudesse chegar aonde cheguei”. Das greves sindicais ao palácio do planalto, a consequente vitória de um dos maiores líderes populares do país. Lula sentado no chão com sua esposa no momento que recebe a notícia de sua vitória permanece sendo um dos momentos mais fortes do cinema brasileiro da última década.

Ônibus 174 (José Padilha, 2002)

“É muito fácil vir aqui me criticar a sociedade me criou e agora manda me matar” Um dos versos de “Soldado do Morro”, canção do Rapper carioca MV Bill, elucida de forma pertinente a temática principal desse documentário de José Padilha. No dia 14 de Junho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento, 18 anos, sobrevivente da chacina da candelária, sequestra um ônibus na zona sul do Rio de Janeiro. O que se segue nas próximas horas, é um dos mais marcantes e conhecidos casos da crônica policial e midiática brasileira. Um caso de desfecho trágico, que culminaria na morte de uma refém, além do próprio Sandro, morto por asfixia dentro da viatura policial enquanto era levado pra delegacia. Descaso social, violência policial, abuso de poder público, abandono parental, todas as minúcias que ajudam a formar o caráter de um cidadão, investigadas afundo num dos relatos mais chocantes sobre a violência urbana no País. Os abismos de classe que separam e ajudam a segmentar as diferenças sociais de um dos lugares mais desiguais do mundo, nada passa despercebido das lentes críticas do filme. Ao mostrar todos os antecedentes de Sandro, toda a trajetória percorrida até aquele momento de desespero que culminou na sua trágica entrada pra história, “Ônibus 174” discute com intensidade um status quo, um raio x de um Brasil fadado a sempre repetir a sua história. Do cinema novo a filmografias mais recentes, muito da nossa produção audiovisual se dedicou a mostrar a infância abandonada e a falência do estado em suprir carências básicas de sua população. Mas poucos filmes foram tão afundo nas consequências disso tudo como o documentário de José Padilha. Quase 20 anos depois um filme que permanece urgente e extremamente atual.



22 anos estudante de Ciências Sociais, cinéfilo apaixonado, leitor compulsivo, fascinado por Rock Alternativo (música em geral) e apreciador de cerveja barata. Descobri desde cedo o poder imersivo das artes na vida de uma pessoa, e desde então sigo nessa linha tênue entre prazer e compulsão. Fã de cinema alternativo, independente e dos grandes mestres do horror. Influência: de David Lynch a Godard, mas sem nunca se esquecer da simplicidade de uma boa comédia.