17
abr
2019
Afinal, por que nos importamos tanto com trailers?
Categorias: Artigos • Postado por: David Ehrlich

Na última semana, dois trailers causaram enorme rebuliço: O segundo do remake de O Rei Leão e o primeiro do episódio IX de Guerra nas Estrelas. E quase de imediato, a internet foi inundada de vídeos de reações a esses mesmos trailers, fenômeno que já faz algum tempo que se tornou parte integral da cultura do YouTube: Pessoas avaliando não os filmes em si, mas os pequenos vídeos de dois minutos que abertamente servem apenas de propaganda para esses mesmos filmes.

E com base apenas nisso, em menos de 24 horas milhares de julgamentos são feitos quanto a se um longa-metragem inteiro será bom ou ruim. Muitos são bastante rasos e precipitados, sem dúvida, mas algumas análises de trailers são até divertidas de assistir, dando asas às nossas especulações quanto ao conteúdo do filme – mesmo que nem sempre elas se mostrem certas ao final.

Mas não são apenas os vídeos de reação: De uns tempos para cá, trailers tornaram-se uma verdadeira obsessão entre cinéfilos, suas estreias sendo muitas vezes anunciadas com antecedência – como se fossem filmes por si só. E de certa forma, dá para entender o porquê. Afinal, trailers são divertidos, não raro mesmo quando os filmes que eles anunciam não são – um bom exemplo disso sendo o trailer de Esquadrão Suicida, cujo uso inteligente de Bohemian Rapsody enganou muita gente a achar que esse seria um filme bom. Um bom trailer nos deixa empolgados, emocionados, e inclusive continuamos a assisti-lo mesmo depois de o filme ter sido lançado.

Essa é exatamente a função de um trailer: Mostrar dois minutos apenas de coisas interessantes de tal forma a te manipular a assistir o restante. E nós sabemos muito bem disso. Tanto que o canal Screen Junkies tornou-se um fenômeno no YouTube justamente por seus “Trailers Honestos”, que tomam ciência desse aspecto manipulativo dos trailers e invertem-no de tal forma a fazerem críticas a filmes e séries.

Os grandes estúdios têm observado essa tendência de culto a trailers com atenção. Afinal, em um mercado bastante competitivo e com filmes cada vez mais caros sendo produzidos, produtores sabem da importância de um bom trailer para receberem seu dinheiro de volta. Para eles, garantir que um trailer nos sugue para dentro do universo que quer nos apresentar é uma questão de sobrevivência, deixando as pessoas empolgadas e falando bem de um filme antes mesmo de ele ser lançado.

É preciso ter em mente, porém, que fazer um bom trailer não é um trabalho fácil. O principal motivo para isso é o fato de que, na grande maioria das vezes, o filme sequer está pronto quando seu trailer é lançado. Afinal, é preciso lançá-lo com alguns meses de antecedência, para que o filme entre na boca do povo.

Sendo assim, trailers nem sempre são feitos com as melhores cenas, mas sim com as que estão à disposição, editadas às pressas e com pouco contexto – e assim acontecem certas aberrações como os trailers de Rogue One e Liga da Justiça, cheios de cenas que mais tarde foram cortadas nas versões finais. Nem mesmo a música que toca no trailer é necessariamente a trilha sonora do filme: Uma de minhas produtoras musicais favoritas, Two Steps From Hell, ficou famosa vendendo músicas próprias para trailers.

Mas se os produtores entendem a importância de trailers, o público também certamente entende: Afinal, ninguém está disposto a gastar R$ 30,00 ou até mais em um ingresso apenas para depois se arrepender do que viu. Trailers servem exatamente para isso: Para termos uma ideia se vale a pena gastar nosso suado dinheiro em um filme ou não.

Por esse mesmo motivo, porém, às vezes acaba sendo assustadora a reação da comunidade cinéfila quando um trailer não consegue convencer quanto à qualidade de um filme bastante aguardado, ou não nos dá o que esperávamos. Lembram-se da controvérsia em cima do trailer de As Caça-Fantasmas? Está certo que o filme acabou não sendo exatamente bom e o trailer pouco fez para convencer as pessoas do contrário, mas vamos concordar que a reação negativa foi completamente desproporcional – o que certamente influenciou no seu desempenho abaixo do esperado nas bilheterias.

Nem sempre, porém, um trailer ruim é sinônimo de um filme ruim, ou sequer de que ele será um fiasco. E não há melhor exemplo quanto a isso do que o trailer original de Guerra nas Estrelas, que de tão vergonhoso deixa qualquer um se perguntando como é que este veio a se tornar um dos filmes mais bem-sucedidos e influentes de todos os tempos.

Sempre haverá trailers que nos dão uma ideia do filme diferente do que este realmente é. E da mesma forma, sempre haverá filmes que cumprirão com as expectativas que tivemos a partir do trailer (para o bem ou para o mal). Às vezes, trailers propositalmente brincam com as expectativas do público de forma a convencê-los de que irão assistir a um filme diferente. O trailer de Ponte Para Terabítia notoriamente faz o filme parecer uma fantasia infanto-juvenil, quando na verdade é um filme mais embasado na realidade, lidando com temas de imaginação, amizade e bullying.

E claro, sempre haverá trailers que gerarão um monte de discussão entre esperançosos e decepcionados. É pra isso que existem trailers: Para gerar comentários, gerar interesse, tornar o filme popular antes mesmo de ele ser lançado. Dito isso, já digo que o trailer de O Rei Leão não me deu qualquer motivo para assistir ao filme no cinema ao invés de rever o original… Mas adoraria ser provado de que estou errado.



Jornalista de 23 anos, cinéfilo confesso desde cedo, viciado em animes e apaixonado por todo tipo de narrativa visual, estando inclusive a fazer pós-graduação na área. Da fantasia ao documentário, se puder ser assistido é bem vindo. Sempre a explorar novas formas de fazer crítica.