30
abr
2019
Com “Matriz”, Pitty apresenta suas referências internas e traz grandes discursos!
Categorias: Frequência Radioativa • Postado por: Matheus Benjamin

No último dia 26, a cantora Pitty lançou seu mais novo trabalho de estúdio. Intitulado Matriz, o álbum que resgata algumas das raízes da artista baiana traz um misto de ritmos e sonoridades e faz refletir em diversos aspectos; mostrando que trata-se de uma grandiosa bagagem adquirida ao longo dos anos.

Particularmente, tenho certa resistência a gostar de novos álbuns lançados mesmo de artistas que gosto bastante. Algumas das minhas bandas favoritas fizeram lançamentos de trabalhos aclamados pela crítica como o Everything Now do Arcade Fire e eu simplesmente não consegui me envolver tanto com ele. Algo que Reflector, da mesma banda, teve de imeditado comigo. Fico imaginando em até que ponto essa conexão e esse frissom causado pelos artistas causa nas pessoas. The Lumineers é outra banda que gosto bastante; sou apaixonado pelo seu self-titled e Cleopatra, será que quando lançarem um novo álbum terei resistência e ouvir e gostar dele, como tenho, por exemplo do novo trabalho de Ben Howard?

Assim como Pitty, City and Colour é outra banda que me faz esperar por novos trabalhos e me deixar curioso pelo que virá. E sendo assim, deixarei o questionamento no ar: vocês também se sentem um pouco tristes consigo mesmo por não ansiar por novos trabalhos de seus artistas favoritos ou até mesmo ter grande resistência em curtir esses novos álbuns?

Mas vamos falar do que importa. Pitty está de volta, depois de quase 5 anos (um período quase exato que ela nos deixou de Chiaroscuro até SETEVIDAS) com Matriz, que acima de tudo é um álbum de rock. Em algumas entrevistas, a cantora afirma que este trabalho fora construído aos poucos e sem muitas coisas definidas, o conjunto foi se apresentando à banda e tudo foi se encaixando para contar uma história. E com Bicho Solto, a abertura do disco não poderia ser melhor.

Eu me domestiquei pra fazer parte do jogo, mas não engane maluco, continuo bicho solto.

O recado está dado para quem não percebeu antes; nesse novo álbum teremos uma apresentação de coisas que sempre estiveram com a cantora mas que de alguma forma só poderiam sair nesse momento. Com um sample da icônica Noite de Temporal, de Dorival Caymmi, a poesia se consolida ao fazer um grande discurso introdutório. E essa faixa está presente, inclusive, no trailer de lançamento do disco, que você pode conferir AQUI. Semioticando, pode-se prever um pouco da energia que a artista trará com sua Matriz, incluindo uma reconstrução da capa do disco que traz muitos ares dos anos 90, um período bastante importante para Pitty.

Em Noite Inteira, com participação do cantor baiano Lazzo Matumbi, as críticas começam a surgir. O single divulgado há pouco menos de um mês do lançamento do álbum traz um refrão delicioso e uma batida que lembra em muito a salsa. Os discursos mais uma vez se fazem presente e a voz potente de Lazzo os intensificam. É uma faixa que traz uma vibe bastante urbana, algo que seu clipe em animação corrobora.

Já com Ninguém é de Ninguém, temos uma pegada do techno brega em parceria com Daniel Weskler (seu marido e atual baterista de sua banda) e no cover de Motor, de Teago Oliveira, da banda baiana Maglore, temos uma balada com pegada romântica que pode nos remeter a outros sucessos de Pitty como Equalize e Na Sua Estante. Inclusive, recentemente, Gal Costa apresentou-se com a canção em sua nova turnê. Uma nota sobre o inconsciente coletivo baiano. Em Roda (que vem em seguida da vinheta Saudade e precede a vinheta Azul) a parceria com a banda Baianasystem, Pitty traz um pouco sobre a cultura baiana dos shows de hardcore, que provavelmente teve bastante contato durante sua adolescência. Nessa faixa podemos perceber a grande potência dos vocais e guitarras.

Bahia Blues apresenta uma viagem da cantora relembrando a cidade de Salvador com certo saudosismo, outrora cantada em crueza na potente Sob o Sol, lado B do single Fracasso lançado em 2009. Redimir tem ares de Caetano e Gil, com uma letra, mais uma vez, com potentes discursos. Te Conecta é um acalanto, um single lançado antes mesmo do álbum como um todo, com a pegada do reggae e a vontade de se conectar novamente com o seu eu-interior.

Com a gravação de Para o Grande Amor, composta pelo seu antigo parceiro de banda, Pitty mais uma vez traz Peu Souza em forma de música; em seu último álbum de 2014, Lado de Lá fora em homenagem a ele. A canção pode ser entendida, também, como uma balada romântica que tem arranjos interessantes. Algo que também é bem Matriz.

Para falar desse período de hiato, além do documentário em curta-metragem Do Ventre à Volta, a faixa Submersa parece trazer uma angústia em não conseguir encontrar mais os caminhos a serem seguidos depois de um período de mudanças. A canção é uma das quais eu precisei fazer as pazes depois de certo tempo ouvindo e agora consigo reconhecer tanto sua importância para o conjunto musical do álbum quanto pela sonoridade que nos lembra muito alguns rocks noventistas. O disco encerra-se com Sol Quadrado, que Pitty já revelou ter feito parte de uma demo entregue ao seu produtor Rafael Ramos na época de seu primeiro CD, o já clássico Admirável Chip Novo. O reggae que também tem um discurso potente apresenta, de certa forma, algumas possíveis inseguranças alheias que não se intensificam em virtude da confiança da artista em seguir seus planos.

Foto de Maria Laura Moura/Divulgação.

Matriz é uma renovação estilística, mas ao mesmo tempo uma vontade de dizer algumas coisas que sempre estiveram lá e só agora, como dito anteriormente, poderiam ser mostradas. Pitty não repetiu fórmulas desde seus grandes sucessos até agora e sempre se renovou, fazendo com que seu repertório se enriquecesse e seu amadurecimento musical se intensificasse. Neste novo trabalho é perceptível a força de suas composições, além de uma sonoridade quase impecável. Merece ser ouvido, degustado e aproveitado, afinal de contas há muito nas entrelinhas. Em um primeiro momento, podemos nos assustar com a quantidade de informações, mas é um álbum que estará para ser curtido calmamente e como foi feito. Dessa forma, justificamos em trazer essa pseudo-crítica só agora, pois já fizemos a degustação de uma forma mais apurada. Vale lembrar que a banda fez algo inusitado e saiu em turnê antes do lançamento do álbum, quando geralmente faz-se o caminho inverso.

Nota: alguns fãs muito íntimos descobriram a demo de algumas canções que não entraram para o disco, como da já famosa Controle Remoto, que esperamos ser lançada em breve. Vale lembrar que entre SETEVIDAS e Matriz, a cantora lançou Na Pele com Elza Soares (que segundo consta era uma faixa que não entrara anteriormente em SETEVIDAS), uma regravação de Dê um Rolê dos Novos Baianos, Contramão em parceria com Tassia Reis e Emily Barreto, além da própria Te Conecta que integrou posteriormente Matriz.



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz e Bergman. Estudante de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná. Produzi alguns filmes, entre eles "Alice.", pela Pessoas na Van Preta.